Uma condenação judicial por “rachadinha” não impede que um ex-vereador de Campos dos Goytacazes (RJ), no Norte Fluminense, transite pelos corredores de Brasília visando atuar como operador de emendas parlamentares.
Thiago Cerqueira Ferrugem do Nascimento Alves, condenado em segunda instância pela Sexta Câmara Criminal do Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ) por desviar cerca de R$ 35 mil de sua assessora parlamentar ao longo de 2017, foi visto recentemente na capital federal, onde estaria se articulando para intermediar recursos do orçamento público.
O crime, segundo a decisão judicial, foi consumado no período em que ele estava exercendo mandato de vereador e teria o mandato cassado pela justiça como réu no caso Chequinho.
O acórdão judicial, obtido pelo Portal VIU!, revela um esquema meticuloso de extorsão institucionalizada: Ferrugem condicionava a nomeação de assessores à devolução mensal de R$ 2.700 — cerca de 73% do salário líquido de R$ 3.700.
A principal vítima, Talyta Vieira de Oliveira, foi forçada a sacar o dinheiro em espécie logo após receber seu pagamento e entregá-lo em envelopes a “homens de confiança” do vereador, sempre longe das câmeras de segurança da Casa Legislativa.
Discurso filantrópico mascarava o desvio
A narrativa que Ferrugem vendia internamente era de solidariedade política: o dinheiro seria distribuído entre colaboradores de campanha que não conseguiram ser nomeados por falta de vagas.
“Pessoas que trabalharam na campanha de 2016 e que não puderam ser nomeadas”, segundo relatou a vítima aos investigadores.
Em novembro de 2017, o vereador convocou todos os assessores para uma reunião e anunciou que o 13º salário deveria ser entregue integralmente para pagar honorários de um advogado em Brasília que o defenderia em processos judiciais — uma referência à Operação Chequinho, que também o investigava.
Mas a farsa tinha um problema: os supostos beneficiários nunca viram a cor do dinheiro.
“Os pequenos colaboradores iam até a Câmara e reclamavam que não estavam tendo ajuda”, revelou Talyta em depoimento.
Enquanto a assessora entregava R$ 2.700 mensais, militantes batiam à porta do gabinete pedindo o apoio que jamais chegava. O dinheiro desviado, segundo informações com com base em relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (COAF), simplesmente desaparecia nos extratos bancários do vereador.
A condenação, por 13 crimes de concussão em continuidade delitiva, resultou em pena de 3 anos e 4 meses de reclusão em regime aberto, substituída por prestação de serviços comunitários e pagamento de um salário mínimo — uma sentença que especialistas em direito penal consideram branda diante da gravidade do esquema.
Da absolvição em 1ª instância à reviravolta no colegiado
Inicialmente, Ferrugem foi absolvido pelo juízo de primeira instância, decisão que causou perplexidade entre os promotores. O Ministério Público recorreu e, em segunda instância, os desembargadores da Sexta Câmara Criminal não tiveram dúvidas: as provas documentais (extratos bancários mostrando saques sistemáticos logo após o crédito dos salários), os relatórios de inteligência financeira e os depoimentos convergentes de Talyta e sua irmã Tathiany — que chegou a entregar envelopes de dinheiro em nome da vítima — formavam um conjunto probatório robusto.
“A materialidade e autoria dos crimes restaram comprovadas”, afirmou o relator, desembargador Marcelo Castro Anátocles da Silva Ferreira, ao reformar por unanimidade a sentença absolutória.
Nova empreitada em Brasília
A trajetória de Ferrugem está entrelaçada com a dinastia política dos Garotinho. Ele foi secretário de Assistência Social durante a gestão de Rosinha Garotinho em Campos dos Goytacazes e, até recentemente, ocupava o estratégico cargo de chefe de gabinete do prefeito Wladimir Garotinho — filho de Anthony e Rosinha Garotinho, mas no grupo político é desalinhado com o chefe do clã, contra quem conspira internamente, sendo apontado, inclusive como um dos grandes motivadores de constantes choques entre o pai ex-governador e o filho prefeito.
Agora, mesmo condenado criminalmente, Ferrugem tenta inserir-se como operador de emendas parlamentares em Brasília — função que envolve a articulação política para direcionar recursos federais a municípios e entidades.
A atividade, embora legal quando exercida com transparência, tornou-se sinônimo de intermediação de interesses e tem sido alvo de investigações sobre o chamado “orçamento secreto” e esquemas de corrupção no Congresso Nacional.
A presença de um condenado por desvio de recursos públicos atuando justamente na intermediação de verbas federais levanta questões sobre os mecanismos de fiscalização e controle sobre operadores políticos.
A Lei da Ficha Limpa impede condenados em segunda instância de concorrer a cargos eletivos, mas não os proíbe de atuar nos bastidores do poder como articuladores e intermediários.
Um padrão de impunidade
O caso de Thiago Ferrugem não é isolado. Ele ilustra um padrão sistêmico da política brasileira: mesmo após condenações, operadores políticos conseguem se reposicionar em novas funções de poder, muitas vezes com o aval de caciques regionais.
A pena branda — regime aberto e prestação de serviços — e a possibilidade de atuar politicamente sem cargo formal criam um ciclo de impunidade que especialistas em governança pública consideram um dos principais obstáculos à moralização da política.
“Enquanto houver espaço para que condenados por crimes contra a administração pública continuem operando no sistema político, mesmo que informalmente, teremos dificuldade em romper com a cultura da corrupção”, avalia um promotor do Rio de Janeiro, que comentou a condenação e pediu anonimato por não estar autorizado a falar publicamente sobre o caso.
Por enquanto, Ferrugem permanece livre, porque contra a decisão ainda cabe recurso, mas se a condenação foi mantida, terá que cumprir pena alternativa, já que sua condenação é inferior a quatro anos de detenção.
A assessora Talyta Vieira de Oliveira, que teve sua remuneração sistematicamente confiscada durante 13 meses, não foi encontrada para comentar. Os “pequenos colaboradores” que batiam à porta do gabinete pedindo ajuda que nunca chegou também permanecem anônimos — mais vítimas de um sistema que premia a astúcia política em detrimento da integridade pública.
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Atualização: Thiago Ferrugem foi procurado pela reportagem de Fonte Exclusiva, mas não retornou às tentativas de contato. Até o fechamento da reportagem, ele constava como nomeado na chefia de gabinete do prefeito Wladimir Garotinho.








