Em tempos em que parte da política parece mais preocupada em fabricar cenas do que resolver problemas, o início do governo Frederico Paes, em Campos dos Goytacazes, chama atenção por um dado que, embora simples, tornou-se quase raro: a administração começa a aparecer mais pelos atos do que pelo ruído.
Pouco mais de três meses após assumir a Prefeitura de Campos, Frederico Paes, do MDB, passou a ocupar espaço positivo no noticiário regional por uma sequência de medidas administrativas que atingem áreas sensíveis da vida municipal: servidor público, saúde, economia e geração de empregos. Não é pouca coisa em uma cidade acostumada a paixões políticas intensas, ciclos de expectativa e frustração, e gestões frequentemente avaliadas menos pelo cotidiano da população e mais pelo volume das disputas públicas.
A reportagem publicada pelo jornal O Dia, com repercussão no Diário da Guanabara e em outros veículos regionais, registrou um recorte objetivo desse começo de governo. O novo prefeito aparece associado a uma pauta que combina reajuste salarial, abertura de empresas, saldo positivo de empregos formais e renovação da frota de ambulâncias. São ações de natureza concreta, com impacto direto ou indireto sobre a rotina de quem vive em Campos.
O ponto mais simbólico talvez seja o reajuste de 4,26% concedido aos servidores municipais. A recomposição, aprovada pela Câmara, encerra um período de seis anos sem reposição salarial. Além disso, a Prefeitura manteve o pagamento da folha dentro do mês e depositou a primeira parcela do décimo terceiro salário junto com os vencimentos de junho.
Para uma cidade em que o funcionalismo tem peso econômico, social e político, a medida não se limita ao contracheque. Ela também injeta dinheiro no comércio, nos serviços e na circulação local de renda.
Campos, vale lembrar, não é uma cidade qualquer no mapa fluminense. É o maior município em extensão territorial do Estado do Rio de Janeiro, polo regional do Norte Fluminense e referência para cidades vizinhas em serviços, comércio, saúde, educação e atividade econômica. Quando a máquina pública municipal se movimenta, o efeito costuma ultrapassar os limites formais da Prefeitura.
Geração de empregos
Na economia, os números divulgados também ajudam a explicar a repercussão. Segundo os dados citados nas reportagens, Campos registrou 1.081 novas empresas no primeiro semestre de 2026 e saldo positivo de 1.799 empregos com carteira assinada.
O desempenho foi atribuído, em parte, à simplificação de processos e à integração de sistemas voltados à abertura, alteração e baixa de empresas.
É evidente que nenhum governante cria sozinho o dinamismo econômico de uma cidade. Há fatores nacionais, regionais, setoriais e conjunturais. Mas uma prefeitura pode facilitar ou dificultar a vida de quem empreende, investe, contrata e tenta se manter de pé. Nesse ponto, a desburocratização deixa de ser palavra bonita de seminário e passa a ser instrumento de gestão.
Impacto na saúde
Na saúde, área historicamente sensível e alvo permanente de reclamações da população, Frederico entregou uma nova frota com 40 ambulâncias. O conjunto inclui veículos para substituir parte da frota existente e unidades adicionais para ampliar a cobertura. Há ambulâncias de suporte básico, suporte avançado, UTI móvel e UTI neonatal. Em um município que também recebe pacientes de cidades vizinhas, a renovação não é apenas uma fotografia de entrega de veículos. É um reforço em uma rede pressionada diariamente por demandas locais e regionais.
O desafio, no entanto, começa justamente quando a boa notícia aparece. Campos conhece bem a diferença entre anúncio e permanência, entre medida de impacto e política pública consolidada. A entrega inicial pode abrir caminho, mas não substitui planejamento, manutenção, transparência, controle de gastos e capacidade de continuidade.
Ainda assim, há um traço político que merece observação. Frederico Paes parece buscar, neste início, uma marca mais pragmática. Menos dependente da performance digital e mais ancorada em resultados administrativos. Em uma era de gestores fascinados pela própria imagem, intoxicados pela lógica dos quinze minutos de fama e por vídeos cuidadosamente editados, a opção por uma agenda de entregas pode funcionar como contraponto.
Isso não significa ausência de comunicação. Todo governo precisa comunicar. Mas há diferença entre comunicar um governo e governar para produzir comunicação. A primeira opção presta contas. A segunda transforma a administração pública em palco permanente. Campos já viu, como tantas cidades brasileiras, a política virar espetáculo. A questão agora é saber se o novo prefeito conseguirá sustentar uma narrativa diferente: a de uma gestão que fala menos de si mesma e entrega mais à cidade.
Os comparativos com o antecessor Wladimir Garotinho serão inevitáveis. Frederico era vice e assumiu após a saída de Wladimir para disputar as próximas eleições. A transição, por si só, cria uma zona de comparação. Estilos diferentes tendem a ser medidos pela população, pela imprensa, pelos servidores, pelos empresários e pelos atores políticos locais. Mas a comparação mais relevante talvez não seja entre pessoas. É entre métodos.
Campos precisa menos de personalismo e mais de previsibilidade. Menos tensão permanente e mais gestão. Menos disputa de narrativa e mais capacidade de execução. O município tem tamanho, história, arrecadação, problemas e potencial para exigir de qualquer prefeito algo além do discurso.
A boa repercussão dos primeiros meses de Frederico Paes não deve ser lida como cheque em branco. Deve ser vista como sinal de partida. Reajustar servidores, estimular o ambiente econômico, registrar saldo positivo de empregos e renovar ambulâncias formam uma agenda inicial consistente. Mas uma cidade do porte de Campos cobra mais do que bons começos. Cobra resultados continuados.
O mérito político de Frederico, até aqui, está em ter produzido fatos administrativos capazes de romper a rotina do noticiário negativo e colocar Campos em destaque por medidas de gestão. O teste real virá daqui para frente: transformar os primeiros atos em cultura administrativa, manter o foco em áreas essenciais e provar que pragmatismo não foi apenas uma fase de estreia.
No fim, uma gestão pública se mede menos pela intensidade com que aparece e mais pela diferença que deixa. Se Frederico Paes conseguir manter a direção inicial, Campos poderá viver algo mais relevante do que uma agenda positiva de três meses: poderá experimentar um ciclo de governo em que a cidade, e não a vaidade do poder, volte a ocupar o centro da cena.







