A dor de cabeça começa antes mesmo de abrir o caderno. Basta a palavra matemática ser dita para que mãos comecem a suar, o olhar desvie para a janela e uma súbita necessidade de fazer qualquer outra coisa tome conta da sala. No cotidiano da clínica neuropsicopedagógica, o cenário vem se repetindo com uma constância que nos faz pensar: a matemática tornou-se uma espécie de vilã universal? O fenômeno não distingue faixas etárias e atinge em cheio duas parcelas fundamentais da população jovem atual: os integrantes da Geração Z, que hoje chegam à vida adulta e às universidades, e os pequenos da Geração Alfa, que vivem os primeiros anos da vida escolar.
Embora vivam fases de desenvolvimento distintas, esses dois grupos compartilham a mesma resposta de esquiva quando o assunto envolve o raciocínio numérico. Para compreender a dimensão desse bloqueio, precisamos olhar para além do desinteresse e encarar a dimensão afetiva e cognitiva do aprender. Para Jean Piaget, a construção das estruturas lógico-matemáticas não é uma mera absorção passiva de regras, mas uma reconstrução interna que exige ações diretas sobre o meio, como a manipulação do que é concreto e o tempo necessário para assimilar a abstração. O que acontece é que as Gerações Z e Alfa cresceram sob a velocidade dos algoritmos e da recompensa imediata das telas, um ambiente que atrita diretamente com o tempo de reflexão e prática que a lógica exige. Ao pular as etapas de manipulação e exploração prática, que Piaget considerava indispensáveis, a criança e o jovem entram em colapso cognitivo diante da abstração precoce.
Somado a esse ritmo acelerado, há o medo paralisante do erro. Como apontou a pesquisadora e educadora Emilia Ferreiro, o erro não deve ser interpretado como uma falta de saber ou uma falha a ser punida, mas sim como uma hipótese construtiva em um cérebro que busca compreender o mundo. Contudo, no formato tradicional de ensino, a matemática costuma ser apresentada de forma rígida, em um sistema binário de certo ou errado. Diante de uma cultura digital em que a falha é evitada a todo custo, o estudante Alfa e o jovem da Gen Z preferem abandonar a atividade a expor suas hipóteses. Sem um ambiente seguro para testar, errar e reorganizar o pensamento, a evitação surge como uma estratégia de defesa para proteger a autoimagem e a autoestima do julgamento alheio.
Existe também um fator de desconexão com a realidade que perpetua essa resistência. Freire diz que, quando o processo educativo se transforma em uma “educação bancária” — em que os conteúdos são apenas depositados na mente do estudante, desconectados da sua prática viva e de sua leitura de mundo —, o aprendizado perde o sentido e gera alienação e aversão. Um jovem de vinte e quatro anos ou uma criança de oito anos não evitam a matemática porque são incapazes de raciocinar, mas porque muitas vezes foram expostos a abstrações mecânicas, sem afeto e sem utilidade percebida. Como nos lembra Freire, não há construção de conhecimento sem um sentido dialógico e sem a presença do vínculo.
Superar essa epidemia de evitação exige transformar urgentemente a maneira como apresentamos os números a essas novas gerações. Antes de exigir o gabarito correto, a neuropsicopedagogia nos convoca a acolher a dimensão emocional que envolve a aprendizagem. Desarmar a ameaça perceptiva, resgatar o raciocínio prático e manipulável proposto por Piaget, acolher o erro como pista construtiva no caminho de Ferreiro e devolver o sentido humano ao saber, como defendia Freire, são os passos fundamentais. Somente assim poderemos devolver a esses jovens a confiança necessária para encarar a matemática não como um obstáculo a ser evitado, mas como uma ferramenta viva de leitura do mundo.
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