Mais de sete em cada dez pacientes com câncer de cabeça e pescoço recebem o diagnóstico quando a doença já se encontra em estágio avançado no Brasil.
O cenário foi identificado tanto no Sistema Único de Saúde quanto na rede privada, indicando que a detecção tardia permanece como um dos principais desafios para o tratamento desses tumores.
Os dados fazem parte de um levantamento com mais de 37 mil pacientes atendidos entre 2016 e 2018. A pesquisa foi divulgada pela MSD Brasil durante o Julho Verde, campanha voltada à prevenção e ao diagnóstico precoce da doença, e publicada na revista científica Oral Oncology Reports.
O estudo reuniu informações de pacientes acompanhados pelo SUS e em seis unidades do Grupo Oncoclínicas. A análise permitiu comparar o perfil das pessoas atendidas, os fatores de risco e as características dos tumores nos dois sistemas de saúde.
Em ambos os grupos, mais de 70% dos casos foram identificados em fases avançadas. O resultado mostra que a demora no diagnóstico não está limitada à rede pública e também alcança pacientes com acesso à assistência privada.
Os percentuais de metástase no momento da descoberta da doença também ficaram próximos. Entre os pacientes do SUS, 2,9% já apresentavam disseminação do câncer para outros órgãos. Na rede privada, a proporção foi de 2,6%.
Localização dos tumores varia entre os sistemas
Apesar da semelhança no estágio da doença, o levantamento apontou diferenças na região do corpo mais atingida pelos tumores.
Entre os pacientes atendidos pelo SUS, a cavidade oral concentrou 37,1% dos diagnósticos. Essa região inclui estruturas como língua, gengivas, lábios, céu da boca e parte interna das bochechas.
Na rede privada, a orofaringe foi a localização mais frequente, respondendo por 42,5% dos registros. A área fica na parte posterior da boca e da garganta e apresentou aumento de casos durante o período analisado.
Os pesquisadores consideram que fatores sociais, econômicos e relacionados ao acesso aos serviços de saúde podem ajudar a explicar essas diferenças.
A baixa frequência de consultas odontológicas e os cuidados insuficientes com a saúde bucal, por exemplo, podem dificultar a identificação de alterações suspeitas na boca. Feridas, manchas ou nódulos que permanecem por períodos prolongados precisam ser examinados por um profissional.
Quando essas lesões não são investigadas rapidamente, o paciente pode chegar ao atendimento especializado somente depois que o tumor já avançou.
Tabagismo e álcool aparecem com maior frequência no SUS
O perfil dos pacientes também apresentou diferenças entre os sistemas. Na rede pública, a idade média no momento do diagnóstico foi de 61 anos. Entre os pacientes da rede privada, a média ficou próxima dos 67 anos.
Os fatores de risco tradicionais foram mais frequentes entre as pessoas atendidas pelo SUS. O histórico de tabagismo apareceu em 83,2% dos casos da rede pública, diante de 64,2% na assistência privada.
O consumo de bebidas alcoólicas também foi mais elevado entre os pacientes do SUS. O levantamento identificou histórico de ingestão de álcool em 74,6% desse grupo, contra 50,3% entre os pacientes da rede particular.
O cigarro e o consumo excessivo de álcool estão entre os principais fatores associados aos cânceres de cabeça e pescoço. Quando as duas exposições ocorrem simultaneamente e durante longos períodos, o risco pode ser ainda maior.
Diagnóstico tardio torna tratamento mais complexo
Os cânceres de cabeça e pescoço podem surgir em regiões como boca, língua, gengivas, garganta, laringe, faringe, seios da face e glândulas salivares.
A descoberta nos estágios iniciais amplia as possibilidades de tratamento e pode reduzir a necessidade de intervenções mais extensas.
Quando a doença é diagnosticada em uma fase avançada, o tratamento tende a ser mais complexo e pode envolver cirurgia, radioterapia, quimioterapia ou uma combinação dessas abordagens.
Dependendo da localização e do tamanho do tumor, o paciente pode sofrer alterações na fala, na mastigação, na deglutição e na respiração. Também podem ocorrer mudanças na aparência facial e impactos emocionais e sociais.
Em escala mundial, o câncer de cabeça e pescoço de células escamosas foi o sétimo tipo mais frequente em 2020. Naquele ano, foram registrados aproximadamente 890 mil novos casos e cerca de 450 mil mortes.
No Brasil, a estimativa do Instituto Nacional de Câncer aponta para cerca de 17,2 mil novos casos anuais de câncer da cavidade oral entre 2026 e 2028.
Prevenção e atendimento rápido são fundamentais
Diante da elevada proporção de diagnósticos tardios, os autores defendem o fortalecimento das ações de prevenção e de combate aos principais fatores de risco.
As estratégias incluem políticas de controle do tabagismo, redução do consumo excessivo de álcool, incentivo à higiene bucal e ampliação do acesso às consultas médicas e odontológicas.
A capacitação das equipes da atenção básica também pode ajudar na identificação de sinais suspeitos. Médicos, dentistas, enfermeiros e outros profissionais devem estar preparados para reconhecer alterações persistentes e encaminhar rapidamente o paciente para avaliação especializada.
A integração entre os serviços de saúde pode reduzir o intervalo entre o surgimento dos sintomas, a realização dos exames, a confirmação do diagnóstico e o início do tratamento.
Entre os sinais que exigem atenção estão feridas na boca que não cicatrizam, rouquidão persistente, dor ou dificuldade para engolir, caroços no pescoço e alterações prolongadas na língua ou na garganta.
Esses sintomas não confirmam a presença de um tumor, mas precisam ser investigados quando permanecem por um período prolongado.
Para os pesquisadores, a combinação entre informação, prevenção, atendimento acessível e diagnóstico precoce pode aumentar as chances de tratamento bem-sucedido e reduzir os impactos físicos, emocionais e sociais da doença.
*Da Agência Fonte Exclusiva







