Uma ala do Hospital Municipal Manoel Carola, em São Francisco de Itabapoana, foi oficialmente entregue à população, apareceu equipada nas imagens da inauguração, mas nunca entrou em funcionamento. Agora, as condições do espaço e a execução do contrato estão sob acompanhamento do Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro.
A vistoria mais recente aconteceu no dia 9 de setembro, por solicitação da prefeitura Yara Cínthia. A promotora Maristela Naurath, da 3ª Promotoria de Justiça de Tutela Coletiva, percorreu o local ao lado de representantes da administração municipal. Segundo a prefeitura, foram encontrados problemas estruturais, operacionais e contratuais que impedem o uso seguro da área por pacientes e profissionais de saúde.
Embora o espaço seja mencionado localmente como parte do novo pronto-socorro, os documentos oficiais relacionados à obra descrevem uma intervenção mais ampla. O projeto previa sete leitos de Unidade de Terapia Intensiva, nove consultórios para atendimento especializado, enfermaria, novas recepções e outras melhorias na estrutura hospitalar.
A ordem de serviço foi assinada em janeiro de 2023 pela então prefeita Francimara Azeredo. Na ocasião, a prefeitura informou que o investimento inicial superava R$ 3,7 milhões e que o prazo previsto para a execução era de 12 meses. O projeto divulgado incluía acessibilidade, energia solar, modernização do sistema de incêndio, elevador, reorganização dos acessos e reforma de parte do prédio.
A obra foi apresentada como concluída e entregue em setembro de 2024, ainda durante a gestão de Francimara. No entanto, inspeções realizadas posteriormente apontaram que a ala não reunia condições reais de funcionamento.
Entre os problemas divulgados pela atual administração estão serviços elétricos não executados, portas instaladas em desacordo com o projeto e falhas estruturais capazes de comprometer a segurança e a qualidade da construção. As irregularidades teriam impedido a abertura da unidade desde a entrega.
O cenário reforça a avaliação de que a inauguração foi realizada a toque de caixa, antes que todas as condições técnicas, administrativas e operacionais estivessem atendidas. Houve solenidade e divulgação pública, mas o serviço prometido não chegou efetivamente aos moradores.
Equipamentos exibidos na inauguração não estão no local
Outro ponto que exige esclarecimento envolve os equipamentos exibidos durante a entrega da obra. De acordo com nota publicada pela prefeitura em dezembro de 2025, os aparelhos teriam sido colocados na ala apenas no dia da cerimônia e não permaneceram disponíveis para atendimento.
A administração municipal afirma ainda que os equipamentos mostrados nas imagens não constam como bens incorporados ao patrimônio da prefeitura. A informação alimenta a suspeita de que tenham sido instalados somente para compor o cenário da inauguração e produzir registros de uma estrutura aparentemente pronta.
Essa hipótese, entretanto, ainda depende de apuração documental. Fotografias e vídeos permitem constatar que havia equipamentos na cerimônia e que eles não aparecem nas inspeções posteriores, mas não esclarecem quem era o proprietário dos aparelhos, quem autorizou sua instalação, quando foram retirados e qual foi o destino dado a eles.
Essas respostas podem ser obtidas por meio das notas fiscais, termos de recebimento, inventários patrimoniais, contratos de locação ou cessão e registros de movimentação dos bens. Segundo a atual prefeitura, os aparelhos exibidos durante a entrega não foram encontrados como patrimônio municipal.
Contradição entre o anúncio e a realidade
Antes da entrega da nova ala, a gestão Francimara divulgou que o projeto transformaria o Hospital Manoel Carola e ampliaria a capacidade de atendimento do município. Em 2022, ao apresentar a proposta à Câmara, a então prefeita declarou que, ao final da obra, São Francisco de Itabapoana teria “literalmente um novo hospital”.
A própria comunicação oficial daquele período informava que toda a intervenção seria realizada dentro das normas exigidas pelos órgãos técnicos. A realidade encontrada nas vistorias posteriores, porém, contrasta com essas declarações: a estrutura permanece sem uso e ainda depende de correções para funcionar.
Uma publicação da prefeitura informa que o valor atualizado do projeto chegou a R$ 5,37 milhões. O contrato, a evolução dos custos, as medições realizadas e os pagamentos efetuados também deverão ser considerados na apuração.
Empresa terá de corrigir falhas
Durante a inspeção de setembro, os representantes do Ministério Público e da prefeitura indicaram à empresa responsável as adequações necessárias. O objetivo é corrigir os problemas e permitir que o espaço seja utilizado de acordo com os padrões de segurança exigidos para uma unidade de saúde.
A atuação do MPRJ não representa, por si só, uma conclusão sobre eventual responsabilidade da antiga gestão, da construtora ou de servidores públicos. Caberá à apuração verificar se houve falha de execução, fiscalização insuficiente, recebimento irregular da obra, prejuízo ao município ou outra irregularidade.
Também será necessário esclarecer por que uma estrutura apresentada como concluída permaneceu tanto tempo fechada e quem autorizou a inauguração antes do início efetivo dos atendimentos.
Enquanto essas perguntas permanecem sem resposta, a população de São Francisco de Itabapoana continua sem acesso ao serviço anunciado. Mais do que uma obra inacabada, o caso envolve recursos públicos, atendimento hospitalar e a confiança dos moradores nas informações divulgadas pelo poder público.
Até o fechamento desta reportagem, não havia, nas fontes oficiais consultadas, manifestação da ex-prefeita Francimara Azeredo sobre as constatações divulgadas pela atual administração. O espaço permanece aberto para o posicionamento da ex-gestora, da empresa responsável pela obra e dos demais citados.
*Da Agência Fonte Exclusiva.







