Uma série de mensagens extraídas pela Polícia Federal do celular de Daniel Vorcaro revela articulações para ampliar a aproximação do então dono do Banco Master com autoridades de Brasília.
Os diálogos, divulgados neste sábado (10), mostram o ex-advogado-geral da União Fábio Medina Osório empenhado em criar oportunidades de contato entre Vorcaro e integrantes do meio jurídico e institucional.
Entre os nomes citados nas conversas está o procurador-geral da República, Paulo Gonet.
Uma das articulações envolvia a festa de 15 anos da filha de Medina Osório, realizada em março de 2024, em Brasília.
Nas mensagens, o ex-AGU afirma que pretendia colocar Vorcaro na mesma mesa de Gonet e da então procuradora-geral da Fazenda Nacional, Anelize Lenzi Ruas de Almeida.
Em outro momento, acrescentou à lista o ministro do Supremo Tribunal Federal Kassio Nunes Marques.
Vorcaro, no entanto, informou que não poderia comparecer porque já tinha outro compromisso familiar na mesma data.
Mesmo assim, Osório insistiu na importância do evento e destacou a presença de integrantes da Procuradoria-Geral da Fazenda Nacional, da Advocacia-Geral da União e de tribunais superiores.
Ex-AGU cita atuação da própria mulher
As conversas também mostram Medina Osório mencionando a esposa, Patrícia Grassi Osório, procuradora da Fazenda Nacional com atuação junto ao STF.
Segundo as mensagens, ela poderia auxiliar na apresentação de Vorcaro a integrantes da área jurídica e da administração pública.
O ex-AGU chegou a informar ao banqueiro que dezenas de procuradores da Fazenda estariam presentes no evento.
Em outro trecho das conversas, Medina Osório demonstra preocupação em resolver problemas enfrentados por Vorcaro e em evitar novos obstáculos jurídicos ou empresariais.
Foi nesse contexto que afirmou que poderia ajudá-lo a se tornar o “maior banqueiro do Brasil”, caso esse fosse o objetivo do empresário.
As mensagens também mencionam questões relacionadas à Aelbra, mantenedora da Universidade Luterana do Brasil, onde havia investimentos ligados ao Banco Master.
Segundo o conteúdo divulgado, Osório falava em solucionar pendências e dar maior tranquilidade ao banqueiro para conduzir seus negócios.
Gonet é citado, mas menção não comprova irregularidade
A presença do nome de Paulo Gonet nas mensagens não significa, por si só, que o procurador-geral tenha participado das articulações descritas por Medina Osório ou cometido qualquer irregularidade.
Em manifestações anteriores, Gonet negou manter relação de amizade ou proximidade com Vorcaro.
O procurador-geral afirmou que teve contatos breves com o empresário e sustentou que essas interações não envolveram assuntos relacionados às suas funções na Procuradoria-Geral da República.
Outras mensagens já divulgadas mostram que advogados também atuaram como intermediários em contatos entre Gonet e Vorcaro.
Relatório da PF não teria incluído esses diálogos
As conversas envolvendo Medina Osório e a tentativa de aproximação com Gonet não teriam sido incorporadas a um relatório específico da Polícia Federal solicitado pelo ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal.
Esse documento tratava de citações relacionadas ao diretor-geral da PF, Andrei Rodrigues, e ao próprio procurador-geral da República.
O fato de os diálogos não terem aparecido nesse relatório amplia a discussão sobre o conjunto de informações extraídas do telefone de Vorcaro e sobre quais mensagens foram consideradas relevantes para cada linha de investigação.
O material extraído do aparelho do ex-banqueiro vem revelando sucessivas conversas envolvendo empresários, advogados, autoridades e integrantes de diferentes governos.
Parte desses registros mostra tentativas de aproximação e articulações políticas ou institucionais em torno dos interesses do Banco Master.
A existência das mensagens, entretanto, não comprova automaticamente que todos os encontros tenham ocorrido nem que as pessoas mencionadas tenham participado de qualquer ação irregular.
As investigações continuam responsáveis por estabelecer o contexto, a efetiva realização dos contatos e a eventual existência de condutas ilícitas.
Defesa nega intermediação de encontros entre Vorcaro e autoridades
O ex-advogado-geral da União Fábio Medina Osório encaminhou ao Portal VIU! uma nota de esclarecimento na qual contesta interpretações de mensagens envolvendo o ex-banqueiro Daniel Vorcaro, antigo controlador do Banco Master. O documento foi enviado por representantes do escritório Medina Osório Advogados após a publicação da reportagem “Mensagens mostram tentativa de aproximar Vorcaro de Gonet e outras autoridades”, em 10 de outubro de 2026.
Na manifestação, Medina Osório afirma que não agendou nem viabilizou encontros pessoais ou profissionais entre Vorcaro e autoridades públicas. Também nega ter prometido qualquer vantagem indevida por meio de seus relacionamentos.
Segundo o advogado, as referências a autoridades, os convites sociais e as conversas mencionadas na reportagem não comprovam a realização de reuniões intermediadas por ele nem pedidos de favorecimento ou interferência em decisões públicas.
Um dos episódios abordados na nota é a festa de 15 anos de sua filha, em Brasília. Medina Osório reconhece que a comemoração reuniu familiares, amigos, clientes e autoridades, tendo também uma dimensão política e institucional. No entanto, sustenta que a presença dessas pessoas não transformou o evento em uma reunião de trabalho.
Ele acrescenta que Vorcaro não compareceu a determinados eventos para os quais havia sido convidado e contesta interpretações de expressões informais utilizadas nas mensagens.
Sobre a relação profissional com o Banco Master, Medina Osório explica que, em 2023, representou Fernando Costa e a Universidade Brasil em uma disputa envolvendo a Ulbra, em posição contrária aos interesses de Vorcaro e do banco.
De acordo com sua versão, o conflito resultou em negociações e em um contrato de não litigância, conhecido como non litigation, que também envolvia um parecer relacionado a um termo de compromisso na Comissão de Valores Mobiliários (CVM).
O advogado afirma que, durante a relação contratual, seu escritório identificou a necessidade de medidas de compliance e de um possível acordo de leniência com o Banco Central, proposta que, segundo ele, não foi aceita por Vorcaro.
Medina Osório também declara que não atuou em processos de Vorcaro ou do Banco Master no Supremo Tribunal Federal (STF) e que não recebeu procuração para representá-los nas esferas cível ou criminal.
Ainda conforme a nota, a relação profissional se deteriorou após divergências sobre pagamentos contratuais. O ex-AGU afirma que preservou conversas em ata notarial, formalizou cobranças e comunicou a rescisão do contrato e as pendências financeiras à auditoria e à massa liquidanda do Banco Master.
Na manifestação, Medina Osório reconhece a existência de vínculos pessoais e profissionais com Vorcaro, incluindo convites sociais e relações contratuais. Entretanto, rejeita que esses contatos possam ser considerados prova de uma contrapartida envolvendo autoridades públicas.
O advogado também afirma que não foi procurado pelo Metrópoles antes da publicação da reportagem original. Segundo os representantes de seu escritório, a nota de esclarecimento foi posteriormente publicada pelo veículo em atualização realizada em 10 de outubro de 2026, às 22h44.
O escritório Medina Osório Advogados informou ainda que o ex-AGU não foi ouvido pelo Portal VIU! antes da publicação da matéria.
A manifestação foi encaminhada ao portal por Artur Nunes, representante do escritório, acompanhada de nota assinada por Fábio Medina Osório, com solicitação de publicação integral do documento.
O Portal VIU! registra os esclarecimentos apresentados pela parte citada, preservando o conteúdo jornalístico da reportagem e o direito de manifestação dos envolvidos.
*Atualização da reportagem | 12 de outubro de 2026.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








