Sob monitoramento eletrônico e proibido de deixar o país, o ex-prefeito de Belford Roxo Márcio Canella, do União Brasil, deixou o sistema prisional na manhã deste sábado, 11 de julho.
A soltura foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal, quatro dias depois de o político ser preso em flagrante durante uma operação da Polícia Federal no Rio de Janeiro.
A decisão não encerra a investigação nem afasta as suspeitas examinadas pelas autoridades. Canella continuará respondendo ao procedimento em liberdade, submetido a uma série de medidas cautelares.
Além da tornozeleira eletrônica, o ex-prefeito deverá permanecer em casa durante a noite e integralmente nos fins de semana. Também terá de entregar o passaporte, comparecer semanalmente à Justiça e não poderá sair do Brasil.
O porte de arma foi suspenso por determinação judicial. Moraes advertiu que o descumprimento de qualquer uma das medidas poderá resultar na revogação da liberdade provisória e na decretação da prisão preventiva.
O policial militar Antônio Gomes da Silva Neto, detido na mesma ocorrência, também foi liberado mediante o cumprimento de restrições.
Ao analisar o caso, o ministro reconheceu a legalidade das prisões em flagrante, mas considerou que a permanência dos investigados no sistema penitenciário poderia ser substituída, neste momento, pelas medidas cautelares.
Fuzil foi localizado durante busca
Márcio Canella foi preso na terça-feira, 7 de julho, durante o cumprimento de uma ordem de busca e apreensão vinculada à sexta fase da Operação Unha e Carne.
O mandado inicial não previa sua prisão. Durante as buscas, porém, agentes da Polícia Federal encontraram um fuzil calibre 5,56 dentro de um veículo pertencente ao ex-prefeito.
A localização da arma resultou na prisão em flagrante por suspeita de posse ou guarda irregular de armamento de uso restrito.
Após ser detido, Canella foi encaminhado ao Presídio Pedrolino Werling de Oliveira, conhecido como Bangu 8, no Complexo Penitenciário de Gericinó, na Zona Oeste da capital fluminense.
A defesa afirma que o fuzil pertence ao policial militar responsável pela segurança do político. Segundo os advogados, o armamento estava devidamente registrado em nome do agente e acompanhado da documentação exigida.
Mesmo diante dos documentos apresentados, o Supremo considerou que ainda existem circunstâncias que precisam ser esclarecidas.
Entre os pontos levantados estão o motivo pelo qual uma arma vinculada a um policial militar estava no veículo particular de Canella e a regularidade da atividade exercida pelo agente na segurança do ex-prefeito.
Moraes determinou que a Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro apresente, no prazo de cinco dias, informações sobre a origem das armas apreendidas e sobre a situação funcional dos policiais envolvidos.
Defesa contesta necessidade da prisão
Os advogados Pierpaolo Cruz Bottini, Sheila Lustosa e Davi Lefer sustentaram que não havia razão para manter o ex-prefeito preso, uma vez que o fuzil estaria registrado e pertenceria ao profissional encarregado de sua segurança.
A defesa informou ter encaminhado ao Supremo os documentos relacionados ao armamento e afirmou que o político permanecerá à disposição das autoridades para prestar esclarecimentos.
A versão apresentada pelos advogados ainda será confrontada com os elementos reunidos pela Polícia Federal e com as informações solicitadas à Polícia Militar.
A liberdade provisória não representa absolvição e também não impede que novas medidas sejam adotadas caso surjam elementos que justifiquem uma decisão mais rigorosa.
Operação apura movimentação bilionária
A prisão de Canella ocorreu dentro de uma investigação mais ampla sobre uma organização suspeita de utilizar postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio de Janeiro para lavar dinheiro.
Segundo a Polícia Federal, o grupo teria movimentado mais de R$ 7,6 bilhões ao longo dos últimos seis anos.
O valor foi identificado em um Relatório de Inteligência Financeira elaborado pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, e encaminhado aos investigadores.
A suspeita é de que empresas do setor de combustíveis tenham sido utilizadas para introduzir na economia formal recursos provenientes de atividades ilegais.
As autoridades também investigam a possível participação de empresários, agentes públicos e integrantes do meio político na estrutura de funcionamento e proteção do grupo.
Nesta sexta etapa da Operação Unha e Carne, foram cumpridos 19 mandados de busca e apreensão na cidade do Rio de Janeiro e nos municípios de Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende.
As decisões judiciais também determinaram o bloqueio de bens e valores e a suspensão das atividades de empresas ligadas aos investigados.
Dinheiro, armas, veículos e equipamentos foram apreendidos
Durante a ofensiva, a Polícia Federal apreendeu aproximadamente R$ 919 mil e US$ 13 mil em espécie.
Também foram recolhidos um fuzil de uso restrito, nove armas curtas, sete computadores, 23 aparelhos celulares e 11 veículos.
Joias, relógios e documentos encontrados nos endereços investigados foram levados para análise. Duas pessoas acabaram presas em flagrante por suspeita de porte ilegal de armamento de uso restrito.
O material apreendido deverá ser submetido a perícia e poderá auxiliar na identificação de movimentações financeiras, contatos entre os investigados e eventuais vínculos com empresas ou agentes públicos.
Possível elo político é investigado
A Polícia Federal apura se Márcio Canella teria atuado como ligação política da organização investigada.
Essa hipótese integra a linha de apuração e não significa que o ex-prefeito tenha sido considerado culpado ou responsabilizado judicialmente.
Os investigadores buscam esclarecer se pessoas com influência política ou acesso à administração pública teriam ajudado na celebração de contratos, na proteção de atividades empresariais ou na sustentação institucional do suposto esquema.
Além dos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro, os investigados poderão responder por contratação direta ilegal e por outras infrações que eventualmente sejam identificadas durante o inquérito.
Investigação começou com suspeita de vazamento
A Operação Unha e Carne passou por cinco etapas anteriores entre dezembro de 2025 e julho de 2026.
No início, a investigação estava concentrada em suspeitas de vazamento de informações sigilosas sobre ações policiais contra integrantes do Comando Vermelho.
Com o avanço das diligências, a Polícia Federal identificou novos elementos relacionados à atuação de agentes públicos, empresas e pessoas suspeitas de ligação com organizações criminosas.
A sexta fase integra a Força-Tarefa Missão Redentor II, criada para combater grupos criminosos com atuação no Estado do Rio de Janeiro.
A ofensiva também está relacionada às diretrizes estabelecidas pelo Supremo Tribunal Federal na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas, que inclui entre suas determinações o aprofundamento de investigações sobre possíveis conexões entre autoridades públicas e organizações criminosas.
Carreira política e disputa eleitoral
Márcio Canella iniciou sua trajetória na política como vereador de Belford Roxo. Posteriormente, foi eleito deputado estadual e exerceu três mandatos na Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro.
Entre 2017 e 2019, afastou-se temporariamente do mandato parlamentar para assumir a vice-prefeitura de Belford Roxo.
Em 2024, foi eleito prefeito do município e tomou posse em janeiro de 2025. Canella deixou a administração municipal em abril de 2026 para se lançar como pré-candidato ao Senado pelo Rio de Janeiro.
Antes da operação, o político participava de articulações para integrar uma chapa nas eleições de outubro.
Embora esteja em liberdade, as medidas impostas pelo STF poderão limitar seus deslocamentos e compromissos durante a pré-campanha.
Investigação continua
A Polícia Federal ainda deverá esclarecer a origem e a situação legal do fuzil, as circunstâncias em que o armamento foi colocado no veículo e a eventual ligação de Canella com o esquema financeiro sob investigação.
O caso continuará sob acompanhamento do Supremo Tribunal Federal. As provas apreendidas serão analisadas e novas diligências poderão ser realizadas.
Até uma decisão judicial definitiva, Canella e os demais investigados permanecem amparados pelo direito de defesa e pelo princípio da presunção de inocência.
*Da Agência Fonte Exclusiva








