Monitorado eletronicamente e submetido a restrições judiciais, Márcio Canella deixou o Complexo Penitenciário de Gericinó na noite de sábado, 11 de julho.
O ex-prefeito de Belford Roxo permaneceu quatro dias preso após a Polícia Federal encontrar um fuzil calibre 5,56 dentro de um automóvel ligado ao político.
A liberdade provisória foi concedida pelo ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal. Embora tenha considerado regular a prisão em flagrante, o magistrado entendeu que a permanência de Canella no sistema penitenciário poderia ser substituída por medidas cautelares.
A decisão permite que o ex-prefeito acompanhe as investigações fora da cadeia, mas não encerra o inquérito nem afasta as suspeitas levantadas durante a sexta fase da Operação Unha e Carne.
Canella continuará sendo investigado pela apreensão do armamento e por sua possível ligação com um grupo suspeito de utilizar empresas do setor de combustíveis em um esquema de lavagem de dinheiro.
Entre as determinações impostas está o uso permanente de tornozeleira eletrônica. O ex-prefeito também deverá cumprir recolhimento domiciliar nos horários estabelecidos pela Justiça.
Canella está proibido de deixar o Brasil e deverá entregar o passaporte. A decisão ainda prevê comparecimento periódico em juízo e suspensão do porte de arma.
Caso alguma das medidas seja desrespeitada, o benefício poderá ser revogado, com possibilidade de decretação de prisão preventiva.
O ex-prefeito deixou a Penitenciária Pedrolino Werling de Oliveira, conhecida como Bangu 8, já utilizando o equipamento de monitoramento.
A prisão ocorreu na terça-feira, 7 de julho, durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão autorizado pelo Supremo.
Canella não era alvo de uma ordem de prisão naquele momento. A situação mudou quando os agentes encontraram um fuzil calibre 5,56 no interior de um veículo atribuído ao político.
Como o armamento é classificado como de uso restrito, a apreensão resultou na prisão em flagrante.
Depois da audiência de custódia, o ex-prefeito foi encaminhado ao sistema prisional do Rio de Janeiro, onde permaneceu até a autorização para responder em liberdade.
Os advogados de Márcio Canella sustentam que o fuzil não era do ex-prefeito. De acordo com a defesa, a arma pertenceria ao terceiro-sargento Alexandre Paixão da Silva Júnior, policial militar que participava da segurança do político.
A equipe jurídica afirma que o equipamento havia sido regularmente disponibilizado ao agente pela Polícia Militar e que a documentação foi apresentada ao Supremo Tribunal Federal.
Apesar da justificativa, Alexandre de Moraes apontou a necessidade de novos esclarecimentos.
Entre as dúvidas está o motivo pelo qual uma arma vinculada à corporação permanecia no automóvel de Canella. Também deverá ser verificado se o policial estava autorizado a utilizar e transportar o fuzil durante a atividade de escolta.
Outro policial detido no decorrer da operação também recebeu liberdade provisória. As circunstâncias relacionadas às armas continuarão sendo apuradas.
A versão apresentada pela defesa ainda deverá ser comparada com registros funcionais, documentos do armamento, depoimentos e demais elementos reunidos pela investigação.
As buscas realizadas pela Polícia Federal resultaram na apreensão de dinheiro, armas, munições, veículos, joias, aparelhos eletrônicos e relógios de luxo.
Em um imóvel relacionado a Canella, os agentes encontraram uma coleção formada por peças de marcas internacionais. Estimativas divulgadas após a operação indicaram que o conjunto poderia alcançar valor superior a R$ 1 milhão no mercado de revenda.
A avaliação, contudo, dependerá da confirmação da autenticidade, do estado de conservação e da documentação de cada peça.
A simples apreensão dos relógios não significa que tenham origem ilegal. Os investigadores deverão verificar a procedência, a propriedade e a compatibilidade dos bens com o patrimônio declarado.
A sexta etapa da Operação Unha e Carne cumpriu 19 mandados de busca e apreensão no Rio de Janeiro, Niterói, São Gonçalo, Itaboraí e Resende.
Segundo o balanço divulgado pela Polícia Federal, foram encontrados aproximadamente R$ 919 mil e US$ 13 mil em espécie.
Os agentes também recolheram um fuzil, nove armas curtas, sete computadores, 23 celulares e 11 veículos, além de joias, relógios e documentos.
As ordens judiciais incluíram ainda o bloqueio de bens e valores e a suspensão das atividades de empresas relacionadas aos alvos.
A Operação Unha e Carne investiga uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio para ocultar e movimentar recursos de origem criminosa.
Um relatório produzido pelo Conselho de Controle de Atividades Financeiras, o Coaf, identificou movimentações superiores a R$ 7,6 bilhões ao longo de seis anos.
O montante corresponde ao volume financeiro analisado pelos investigadores e não significa, automaticamente, que todo o valor tenha origem ilícita. A conclusão dependerá do cruzamento de dados bancários, fiscais e empresariais.
A suspeita é de que postos de combustíveis e outras empresas tenham sido utilizados para inserir recursos ilegais na economia formal.
Os investigadores também procuram identificar os responsáveis efetivos pelos negócios e verificar se terceiros foram utilizados como proprietários formais para ocultar os verdadeiros beneficiários.
Márcio Canella é investigado como possível elo político do grupo. A hipótese faz parte da apuração e não representa condenação ou reconhecimento definitivo de responsabilidade.
A Polícia Federal busca esclarecer se pessoas ligadas ao poder público atuaram para facilitar contratos, proteger empresas ou favorecer interesses da organização investigada.
Também está sendo analisada a possível participação de agentes públicos na sustentação institucional e financeira do esquema.
Os materiais apreendidos, especialmente celulares, computadores e documentos, deverão passar por perícia. O conteúdo pode revelar contatos, contratos, movimentações e relações entre os investigados.
Além de lavagem de dinheiro e organização criminosa, os envolvidos poderão responder por contratação direta ilegal e por outros crimes eventualmente identificados.
A sexta fase da Unha e Carne está inserida na Força-Tarefa Missão Redentor II, coordenada pela Polícia Federal para combater organizações criminosas no Estado do Rio.
As ações também estão relacionadas às determinações do Supremo na ADPF 635, conhecida como ADPF das Favelas.
Entre os objetivos está o aprofundamento de investigações sobre possíveis relações entre grupos criminosos, empresas e integrantes do poder público.
As primeiras etapas da operação concentraram-se em suspeitas de vazamento de informações sigilosas sobre ações contra o Comando Vermelho.
Com o avanço do inquérito, foram identificados indícios envolvendo estruturas empresariais, movimentações financeiras e possíveis mecanismos de lavagem de dinheiro.
Márcio Canella foi eleito prefeito de Belford Roxo em 2024 e assumiu o mandato em janeiro de 2025.
Em abril de 2026, deixou o comando da prefeitura para se apresentar como pré-candidato ao Senado pelo União Brasil.
Antes de chegar à administração municipal, exerceu mandatos como vereador e deputado estadual, além de ter ocupado a vice-prefeitura de Belford Roxo.
A prisão ocorreu durante o período de articulações para as eleições de outubro. Embora esteja fora da cadeia, as medidas cautelares poderão limitar deslocamentos, compromissos e atividades de pré-campanha.
A manutenção do projeto eleitoral também dependerá das decisões partidárias e do avanço das investigações.
A Polícia Federal ainda deverá esclarecer a propriedade do fuzil, as condições em que o armamento foi deixado no veículo e a regularidade da atuação do policial apontado como responsável pela arma.
A origem dos relógios e dos demais bens apreendidos também será analisada, assim como a eventual participação de Canella no suposto esquema financeiro.
O ex-prefeito poderá apresentar documentos, depoimentos e argumentos de defesa durante todas as etapas da investigação.
Até que exista uma decisão definitiva da Justiça, Márcio Canella e os demais investigados permanecem protegidos pelo direito à ampla defesa e pelo princípio da presunção de inocência.
*Da Agência Fonte Exclusiva








