Por décadas, a creatina foi associada quase exclusivamente ao ganho de força e massa muscular. Presente nas academias desde os anos 1990, tornou-se um dos suplementos mais estudados e seguros para quem busca melhorar o desempenho físico. Nos últimos anos, porém, a substância voltou ao centro das atenções — desta vez como possível reforço para funções cognitivas, como memória e atenção.
A nova onda de interesse surgiu com estudos que investigam o papel da creatina no cérebro, já que o órgão também depende de energia rápida para funcionar. Para o nutrólogo Diogo Toledo, do Hospital Israelita Albert Einstein, essa lógica abriu espaço para novas hipóteses sobre sua atuação. “Se o suplemento aumenta a capacidade energética das células musculares, existe a possibilidade de que auxilie também em momentos de maior demanda do sistema nervoso”, explica.
A discussão ganhou força em 2024, após pesquisa alemã publicada na Scientific Reports mostrar pequenas melhorias cognitivas em voluntários privados de sono por longas horas, depois de receberem uma dose elevada de creatina. Apesar da repercussão intensa, especialistas destacam que o estudo era pequeno, restrito e realizado em condições extremas — longe de ser suficiente para afirmar que o suplemento “turbina o cérebro”.
O nutricionista Igor Eckert, que revisou criticamente a literatura científica sobre o tema em artigo no The Journal of Nutrition, afirma que parte do entusiasmo atual nasce de extrapolações. “Há receptores que permitem que a creatina chegue ao cérebro, mas isso não significa que ela melhora o desempenho cognitivo de forma relevante”, diz. Ele avalia que a área tem sido marcada por vieses e interpretações excessivamente otimistas.
Produzida naturalmente pelo corpo e presente em alimentos como carnes e peixes, a creatina funciona como reserva rápida de energia. A suplementação é especialmente útil em atividades intensas, cujos benefícios estão entre os mais bem documentados da ciência esportiva. Estudos mostram aumentos consistentes de força e ganhos de massa magra em diferentes populações.
A partir dessa ação energética, cientistas começaram a investigar possíveis impactos na cognição. As pesquisas iniciais mostraram efeitos pequenos e inconsistentes — alguns pontuais em idosos, pessoas fatigadas ou privados de sono. Segundo Eckert, cerca de 25 estudos analisaram o tema, mas os resultados variam tanto que não permitem conclusões firmes.
Ensaios mais recentes também reforçam a cautela. Em 2023, uma pesquisa com 90 adultos suplementados por seis semanas registrou leve melhora em tarefas de memória após um protocolo de estresse mental, mas sem mudanças fisiológicas relevantes. As conclusões foram discretas, e o efeito não se repetiu em todos os testes.
No campo das doenças neurológicas, as perspectivas são ainda mais limitadas. Ensaios clínicos de alta qualidade não identificaram benefícios em condições como Parkinson, Huntington, esclerose múltipla e esclerose lateral amiotrófica. O maior estudo, publicado no JAMA, acompanhou mais de 1.700 pessoas com Parkinson e foi interrompido após constatar ausência total de eficácia — um marco que freou o entusiasmo acadêmico.
Pequenos estudos mais recentes, como um piloto com pacientes com Alzheimer leve a moderado, mostraram apenas viabilidade e segurança, sem conclusões clínicas. Pesquisadores reforçam que resultados iniciais não devem ser confundidos com eficácia comprovada.
Em relação à segurança, a creatina continua entre os suplementos mais estudados e seguros dentro das doses recomendadas. Pessoas com doenças renais ou hepáticas, porém, devem consultar um médico antes de iniciar o uso.
Para os especialistas, o maior risco do hype atual é o consumo motivado por promessas exageradas. “O perigo é alguém com dificuldades cognitivas persistentes apostar em um suplemento e negligenciar a investigação da causa real”, alerta Eckert. Por enquanto, a creatina segue como um dos suplementos esportivos mais comprovados — e como uma possível aliada do cérebro que ainda precisa de muito mais evidências antes de ser tratada como tal.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








