Uma nova pesquisa científica trouxe uma possibilidade inédita para pessoas que sofrem com alergias provocadas por cães. Pesquisadores modificaram geneticamente dois filhotes da raça beagle para impedir a produção da proteína Can f 1, considerada uma das principais responsáveis pelas reações alérgicas desencadeadas pelo contato com esses animais.
O estudo foi publicado nesta quarta-feira (5) na plataforma acadêmica Sage Journals e analisou os efeitos da alteração genética em dois filhotes chamados Alfie e Bailey. Os animais nasceram sem a produção da proteína Can f 1, substância encontrada principalmente na saliva e nas glândulas sebáceas dos cães.
A proteína é liberada no ambiente por meio da saliva, da pele e da descamação dos animais, podendo provocar sintomas em pessoas sensíveis, como espirros, irritação nos olhos, coceira e crises respiratórias, incluindo quadros de asma.
A pesquisa foi liderada por Matt W.G. Walker e contou com a participação da empresa Kindred Companion Sciences.
Tecnologia CRISPR foi usada na edição genética
Para desenvolver os filhotes modificados, os cientistas utilizaram a técnica CRISPR-Cas9, uma ferramenta de edição genética capaz de alterar regiões específicas do DNA.
O procedimento envolveu a desativação do gene responsável pela produção da proteína Can f 1 em células de um beagle. Depois, essas células geneticamente modificadas foram utilizadas em uma técnica de transferência nuclear, processo que permitiu a formação dos embriões.
Após o nascimento, Alfie e Bailey passaram por avaliações para acompanhar o desenvolvimento físico, comportamento e condições gerais de saúde.
Segundo os pesquisadores, os resultados não indicaram alterações negativas relacionadas ao crescimento, anatomia ou comportamento dos animais. As análises também não identificaram mudanças inesperadas em outras partes do material genético.
De acordo com o estudo, a ausência da Can f 1 não apresentou efeitos prejudiciais observáveis nos filhotes durante o período analisado.
Testes apontaram menor reação alérgica
Para avaliar o impacto da modificação genética, os pesquisadores compararam amostras dos dois filhotes com materiais coletados de outros cães, incluindo um beagle sem alteração genética, um poodle e um goldendoodle, raças frequentemente associadas ao conceito de menor potencial alergênico.
Nas amostras de saliva, pelos e caspa de Alfie e Bailey, os pesquisadores não detectaram a presença da proteína Can f 1.
Em testes realizados com uma pessoa alérgica, materiais coletados dos filhotes geneticamente modificados não provocaram reação identificável na pele. Já amostras do beagle não modificado, do poodle e do goldendoodle apresentaram resposta alérgica durante a avaliação.
Os resultados indicam que a ausência da proteína pode reduzir a capacidade dos animais de desencadear reações em pessoas sensíveis, embora a pesquisa ainda esteja em fase inicial.
Estudo precisa ser ampliado antes de aplicação
Apesar dos resultados considerados promissores, os autores do trabalho destacam que a pesquisa representa apenas uma etapa inicial e não significa que cães geneticamente modificados já estejam disponíveis para criação ou comercialização.
Segundo os pesquisadores, serão necessários novos estudos envolvendo um número maior de animais e pessoas alérgicas para avaliar a eficácia e a segurança da técnica em diferentes situações.
A pesquisa abre uma possibilidade futura para o desenvolvimento de animais com menor potencial alergênico, mas ainda depende de novas avaliações científicas antes de qualquer aplicação em larga escala.
O estudo também reforça o avanço das tecnologias de edição genética, que vêm sendo investigadas em diferentes áreas da ciência, incluindo medicina, agricultura e agora pesquisas relacionadas à convivência entre humanos e animais.
*Da Agência Fonte Exclusiva








