Marx, em O Capital, explora e explica a “coisificação” como um resultado prático de valorar os produtos mediante sua equivalência com o com o dinheiro, esquecendo seu valor em relação à força de trabalho.
Diria que, de forma semelhante, Marx também nos explica a desumanização na relação de dominação de classes, em que o burguês, ao comprar a força de trabalho do operário, via à acumulação do capital e não às condições de vida do trabalhador.
Isso que chamo de “coisificação” está presente e se reproduz cada vez mais, hoje, na vida pública das cidades, graças à predominância do sentido e da importância dada à linguagem visual em relação à verbal, uma comunicação que nos remete, por exemplo, aos desenhos e grafias encontradas nas cavernas pré-históricas.
Hoje, as pessoas passam a maior parte do tempo ao celular, ou observando-se e lendo sem falar, como uma espécie de rejeição de serem também objetos. Perdem, assim, no espetáculo e na multidão, sua condição de ser histórico.
A respeito disso, Guy Debord demonstrou que a relação das pessoas no espaço público (e naturalmente também no privado) se fragmenta entre um espectador ignorante e o espetáculo sem público. Tudo se torna, pois, paisagem.
Aliás, tal aspecto é ilustrado por Walter Benjamin quando ele faz referência ao anonimato da cidade e à possibilidade de se estar só em meio à multidão – o flaneur, nomeado por Sartre de voyeur, possibilidade que colocaria o artista com a função de um detetive, procurando uma relação não recíproca no olhar, observando sem ser observado, postura do espectador que nega a relação com o Outro, reificando, desse modo, a fragmentação como modo de fugir do real.
O Brasil de hoje e sua condição sócio-política e cultural nos mostram um retrato real bem complexo que desemboca nessa discussão acima: em um debate mais profundo sobre autoridade (homem, Deus, diabo, et caterva), mulheres revolucionárias X coronelismo autoritário, sexismo, mulher-corpo, LGBT+fobia, transfobia, ou qualquer confronto entre o vivido, o historicizado, o espetáculo e o espectador, grupos e segmentos das diversas correntes, no interior do poder instituído de uma mesma sociedade, nada mais somos que voyeurs, todos partilhando um patrimônio em comum, o espetáculo fascista do poder eleito e seguidores, fragmentando e gerando o conflito que se dá na sinédoque do lugar e na voz do Outro, na alteridade.
O signo, o ícone, a arma ideológica e os símbolos pictóricos comandam o show! Não tenho pensado em outra coisa: onde plantar minhas flores? A gente vai levando, a gente vai levando…








