A liberdade será sempre um confronto aberto com as normas, as leis e as religiões. Historicamente, a liberdade foi uma conquista de minorias e povos segregados, em diferentes contextos de tempo e espaço, por motivação econômica, social ou étnica.
A liberdade, em proximidade com a felicidade, não é somente rima, mas autêntica postura política, de governantes e filósofos da Antiguidade, que propuseram um mundo no qual o ser humano seria o protagonista da virtude, da felicidade e, em consequência, da liberdade. Mas nem todo o ser humano.
Por isso, é espantoso que alguns iluminados, não raro imbuídos das melhores intenções, se arvorem a querer fazer escolhas pelos outros, proibindo ou autorizando, através da mão pesada do Estado, apenas aquilo que consideram bom ou sensato, de acordo com os seus próprios valores.
É o caso, por exemplo, da proibição às drogas, à prostituição, ou das famigeradas regulamentações que proíbem o endividamento pessoal além de determinado percentual da renda, ou limitam o número de prestações do crédito ao consumidor.
Em resumo, o Estado não existe para ser babá de ninguém. Seu foco, ao contrário, deveria ser justamente garantir a liberdade dos indivíduos, inclusive para fazer escolhas erradas.
O pensamento evoluído e espiritualista, desse estágio de evolução da humanidade, século IV a. C, na Grécia antiga, ainda não se deixou alcançar por um verdadeiro humanismo, já que escravos, estrangeiros e mulheres eram excluídos do status de cidadãos, com limitação das liberdades, desenvolvendo um sentido de felicidade em expectativas bem abaixo das de quem era um cidadão pleno.
Divagação ou não, por experiência, verifico que a natureza humana tem medo da liberdade e de alcançar a felicidade. E, sobre quem cultiva o hábito da liberdade e da promoção da a sua própria felicidade e o convite ao outro pra essa aventura, somos ignorados e convidados a nos calar.
Vejo que a liberdade só se constrói no diálogo, provocando respostas libertárias. Esconder-se, proteger-se é sonegar a liberdade e a verdade, podendo chegar à morte.
Um dado, no mínimo curioso e paradoxal, está nos dados divulgados recentemente pelo IBOPE. Trata-se de uma pesquisa sobre a felicidade, e o resultado é intrigante: 71% dos brasileiros consideram boa a vida que levam.
Para muitos, especialmente para quem costuma avaliar a felicidade alheia em função de parâmetros objetivos, quando não de seus próprios parâmetros subjetivos, este índice pode parecer absurdo.
Afinal, como uma população majoritariamente ignorante, com uma renda per capita baixa, desprovida de segurança, saneamento básico, ou assistência de saúde digna, pode considerar-se feliz? Como é que um favelado, morando em condições de extrema insalubridade, pode considerar-se satisfeito?
À luz da exposição do escritor João Luiz Mauad (@institutoliberal.org.br), cita o filósofo Erasmo de Rotterdam, que é quem vai explicar esta aparente contradição, em seu magnífico Elogio da Loucura:
“Acreditar que a felicidade do homem está nas coisas mesmas é levar a extravagância ao extremo. Somente a fantasia nos faz felizes. Tudo, no mundo, é tão obscuro e variável que é impossível saber alguma coisa ao certo…; ou, se alguém consegue saber alguma coisa, é quase sempre em detrimento da felicidade da vida. Enfim, o homem é feito de maneira que as fantasias lhe causam muito mais impressão que a verdade.”
A lenda do Golem, da mística judaica (Cabala), nos conta que o Golem, após ser criado, por um homem, ele não tinha vida – o Golem é o ancestral de Frankenstein e Pinóquio – ,vida que surgiu a partir do instante em que seu criador escreveu sobre sua testa a palavra hebraica EMERT, que quer dizer VERDADE.
Com vida, mas um perfeito idiota, saiu pela vila e arredores, sem conhecer o verdadeiro sentido da liberdade, responsável, verdadeira e autêntica, causou problemas pro seu criador que, então, retira a letra E da palavra EMERT, surgindo a expressão MERT, que significa morte. O Golem volta à morte, porque não soube lidar com a liberdade.
Sinto caminhar ao lado de GOLENS, desprovidos de inteligência necessária para a garantia de suas vidas, ao mesmo tempo que movidos pelo medo da morte, ao invés de se deixar levar pelo prazer da vida.
Me cobrar que eu seja um Golem, a essa altura da minha vida, é uma perspectiva inalcançável, num roteiro de retrocesso que não é molde para mim. Não tem volta.








