Enquanto o balancete orçamentário de março de 2025 (primeiro trimestre do ano) do município de Presidente Kennedy, no sul do Espírito Santo, revela uma arrecadação robusta, estimada em R$ 951 milhões para o ano, os moradores enfrentam filas em postos de saúde, falta de medicamentos básicos e dificuldades para acessar atendimentos de média e alta complexidade.
A contradição entre os números e a realidade expõe desafios na gestão de recursos públicos, agravados por uma crise política: as eleições municipais foram anuladas, e o governo está sob interinidade do presidente da Câmara, Júnior de Gromobol (PSB), enquanto aguarda decisão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Arrecadação milionária, saúde em colapso
O balancete aponta que, apenas no primeiro trimestre de 2025, o município arrecadou R$ 57,8 milhões em impostos, taxas e transferências.
Desse total, R$ 29,2 milhões são vinculados à saúde, conforme registrado em rubricas como “Transferências do Sistema Único de Saúde (SUS)” e “Recursos Próprios Saúde”. Entretanto, os valores executados até o período são preocupantes:
- Recursos do SUS para Atenção Primária: Dos R$ 2,85 milhões, apenas R$ 902 mil foram aplicados, deixando R$ 1,97 milhões sem execução.
- Farmácia Básica: A rubrica destinada a medicamentos essenciais recebeu apenas R$ 4.121,00 de um total de R$ 46.900,00 previstos.
- SAMU (Serviço de Atendimento Móvel de Urgência): Nenhum centavo dos R$ 245 mil orçados foi utilizado.
Além disso, transferências federais estratégicas, como o Fundo Nacional de Saúde, apresentam subexecução. Por exemplo, os R$ 500 mil previstos para a Saúde tiveram apenas R$ 109 mil aplicados, deixando R$ 71,5 mil parados.
Falta de gestão ou prioridades equivocadas?
Apesar da arrecadação per capita elevada — reflexo dos royalties do petróleo, que injetaram R$ 144 milhões em março —, a gestão dos recursos parece frágil. O relatório mostra que R$ 128,8 milhões em receitas patrimoniais (como juros e dividendos) permanecem sem destinação clara, enquanto a saúde sofre com gargalos.
O contexto político amplia a crise. Com a eleição anulada e um governo interino, projetos de longo prazo estão paralisados. Um exemplo é o item “Incremento Temporário ao Custeio da Atenção Primária”, que teve R$ 1 milhão previsto, mas nenhum valor executado.
Moradores relatam desassistência
Enquanto isso, a população local denuncia a precariedade. Uma aposentada de 68 anos ouvida pela reportagem, relata que esperou por mais de três meses por uma consulta com um cardiologista.
“Temos dinheiro, mas falta vontade de gastar onde é preciso”, desabafa. Outro paciente relata que remédios para hipertensão e diabetes estão em falta há semanas.
Na cidade a esmagadora maioria da população é totalmente dependente dos serviços públicos mantidos pela Prefeitura, por isso os moradores só aceitam conversar com a reportagem sob a garantia de sigilo.
O que diz a prefeitura?
Apesar dos órgãos oficiais da Prefeitura não comentarem as contradições, os sintomas são de paralisia administrativa na saúde em decorrência das incertezas sobre a política local.
No balancete analisado pela reportagem da Agência Fonte Exclusiva consta que das 63 rubricas analisadas relacionadas à saúde, 45 apresentam execução abaixo de 50%.
Enquanto o TSE não define a data das novas eleições, Presidente Kennedy vive um paradoxo: riqueza em caixa e miséria na ponta. A esperança dos moradores é que, além de resolver a crise política, os gestores aprendam a traduzir números em vidas salvas.
Destaques do balancete (março/2025):
- Arrecadação total estimada para 2025: R$ 951.574.400,00
- Recursos vinculados à saúde: R$ 29.285.594,02 (30,7% do orçado)
- Royalties do petróleo: R$ 144.239.965,00 (executados parcialmente)
- Transferências do SUS para Atenção Primária: R$ 902 mil de R$ 2,85 milhões estimados para o ano de 2025.
Fontes: Balancete Analítico da Receita Orçamentária de Março/2025; relatos de moradores; prefeitura interina de Presidente Kennedy-ES.








