Durante a epidemia de Ebola nos países da África Ocidental em 2014, a Organização Mundial de Saúde (OMS) e autoridades locais se defrontaram com um grande problema, além do vírus que se propagava matando centenas de pessoas: a desinformação.
Espalhava-se notícias afirmando que o Ebola não existia. Era uma invenção. Com isso, pacientes com sintomas eram desaconselhados a buscarem os centros especializados para diagnósticos, porque segundo essas informações, eles seriam vítimas de roubos de órgãos.
Isso mesmo, segundo os boatos, os médicos estrangeiros e da OMS estariam chegando aos países com o objetivo não de cooperar no combate ao vírus, mas apenas interessados em contrabandear órgãos de africanos para pacientes que necessitavam de transplantes nos países desenvolvidos.
PROPAGADORES DA DESINFORMAÇÃO
A onda de desinformação não é diferente com a pandemia do coronavírus. Agora tem um agravante, presidentes como Donald Trump, nos EUA, e Jair Bolsonaro no Brasil, atuam como difusores nessas campanhas maléficas.
Aqui no curso Journalism in a pandemic: Covering COVID-19 now and in the future, da Universidade do Texas (EUA), a doutora Sylvie Briand, diretora do Departamento de Preparação contra Riscos Infecciosos Globais da OMS, definiu esse fenômeno como “infodemia”.
“A cada vez que temos um surto de uma doença, também temos uma epidemia de boatos e mentiras. Você pode chamar isso de ‘fake news’ ou como quiser. A questão é que a ‘infodemia’ é algo realmente desafiador. E dificulta o enfrentamento real do problema”, disse ao falar para mais de 9 mil alunos de 163 países, que estão matriculados no curso de quatro semanas.
Nós jornalistas trabalhamos neste ambiente tenso. Somos a fonte primária do noticiário, por isso temos que apurar e confrontar informações, um trabalho que demanda tempo e dedicação. Agora também temos a função de desmentir boatos, outra tarefa que também exige esforço descomunal, porque a mentira encontra acolhida.
Ainda que seja identificada como informação falsa, mas se atende anseios ideológicos ou religiosos, a desinformação é compartilhada. Ou seja, ao ler uma mentira, as pessoas podem até se convencer disso ou ter dúvidas, mas como gostariam que fosse verdade ou se atende suas crenças, sai compartilhando. É o efeito colateral da pós-modernidade.
Além disso, somos uma categoria que também está sob ataques da infodemia, porque enfrentamos campanhas de desmoralização por parte de governos avessos a cobertura midiática e a transparência.
INFODEMIA NO BRASIL
No Brasil existe um outro agravante que tem a participação involuntária do Supremo Tribunal Federal (STF), que ao abolir a exigência do diploma e registro profissional para o exercício da profissão de jornalista, permitiu que qualquer um possa atuar como disseminador de informações, passando-se por profissional do ramo.
A partir daí, qualquer site criado por curiosos que compartilham notícias em redes sociais, ainda que não tenha qualquer precisão quanto apuração, pode disseminar essas informações como se fosse fruto de uma reportagem séria e consolidada. Esses criminosos, dificilmente, são alcançados pela lei, ao contrário dos jornalistas, que são submetidos a processos judiciais por reparação de danos, a maior parte com ritos acelerados.
É uma farra. Existem páginas falsas, outras que subtraem notícias alheias apenas identificando a fonte com uma citação imperceptível no final do texto, quando simplesmente não ignora. São impunes. Existe páginas verdadeiras, mantidas por jornalistas profissionais, mas que, além do fenômenos da indústria de desinformação, estão sujeitas aos rigores da uma justiça seletiva.
No Brasil, as sementes dessa praga de infodemia, portanto, foi acelerada pela Suprema Corte, e mantém-se tolerada por um Congresso omisso.
Outra face macabra são os Youtubers e influenciadores sociais militantes, muitos deles dedicados a desqualificar a ciência em nome de religiões, ideologias e facções partidárias.
Para chegar ao máximo de pessoas nessas plataformas, basta postar e patrocinar, porque o algoritmo faz o resto do serviço.
Se por um lado a ciência tenta controlar ou encontrar a cura para a Covid-19, por outro lado, os parlamentos e instituições terão que encontrar um remédio contra a infodemia, sem apelar para a censura. Isso também será uma tarefa desafiadora.








