Cerca de 100 famílias da comunidade de Ururaí, em Campos dos Goytacazes (RJ), vivem em barracas de lona em um terreno público destinado a casas populares do Programa Morar Feliz.
A situação, que já dura meses, expõe uma cadeia de falhas governamentais, violência e denúncias de corrupção envolvendo a empreiteira Odebrecht.
Da remoção ao abandono: A trajetória das famílias
Originalmente moradoras de áreas de risco às margens do Rio Ururaí, as famílias foram realocadas para o bairro Novo Jockey no governo Rosinha Garotinho, mas enfrentaram rejeição violenta de facções locais.
“Fomos levados para uma região conflagrada. Alguns não voltaram; foram assassinados”, relata Jorge Carvalho Marques, motorista e morador.
Sob a gestão de Thiago Ferrugem (Secretaria de Assistência Social), ainda no governo Rosinha, retornaram a Ururai com apoio do Aluguel Social, aguardando a construção de novas moradias.
Porém, o governo atual, liderado pelo prefeito Wladimir Garotinho, suspendeu o benefício, obrigando-as a desocupar as casas alugadas. Sem ter para onde ir, ocuparam o terreno do Morar Feliz, onde hoje vivem em condições precárias.
Segundo relatos, diante dos atrasos no pagamento do aluguel social, algumas mulheres sofreram assédio sexual de proprietários de imóveis sob promessa de evitar o despejo.
O programa Morar Feliz, principal projeto habitacional da gestão da Família Garotinho em Campos dos Goytacazes (RJ) e alvo de investigações na Lava Jato, está em colapso. Após 14 anos no Aluguel Social, 100 famílias do Ururai foram despejadas e estão em barracas de lona. pic.twitter.com/YqJaPLOIUu
— Roberto Barbosa (@rgbarbosa) March 23, 2025
Escândalo do Morar Feliz: Odebrecht e os R$ 1,05 Bilhão em controvérsias
O programa, criado por Rosinha Garotinho (governo encerrado em 2016) prometia 9.198 residências, mas entregou apenas 6.132. Contratos com a Odebrecht revelaram custos inflados: cada casa de 43 m² chegou a R$ 114 mil, com aditivos que elevaram o valor total para R$ 1,05 bilhão.
Em delação no âmbito da Lava Jato, ex-executivos da empreiteira citaram caixa 2 de R$ 27,5 milhões para campanhas da família Garotinho – acusações negadas pelo ex-governador Anthony Garotinho, líder do clã familiar.
Enquanto isso, famílias como a de Vilma da Conceição ocuparam unidades inacabadas, na região mais próxima a Tapera: “Não tem porta, janela, nem esgoto. Só a poeira e os mosquitos”, desabafou em reportagem de O Globo, em 2017.
Vidas em suspenso: Saúde, renda e o desespero de Andréia
Andréia Teixeira Caetano, cadastrada no CadÚnico, vive com um salário mínimo como beneficiária do LOAS após cirurgia intestinal. Mãe de quatro filhos e avó de um neto, ela relata: “A Prefeitura diz que não vai construir casas. Teremos que fazer com nosso dinheiro, mas não temos”.
Enquanto isso, parte do terreno do Morar Feliz foi destinado a uma clínica da família e um terminal rodoviário, obras inconclusas, aprofundando o sentimento de abandono.
Reunião na Prefeitura: Última esperança?
Nesta segunda-feira (24), as famílias que estão desabrigadas se reúnem com a Secretaria de Assistência Social para exigir a retomada do Aluguel Social e das obras. “Perdemos tudo. Só nos resta lutar”, diz Jorge Carvalho.
A crise reflete um ciclo de promessas não cumpridas e má gestão. Em 2017, quando Rosinha já tinha deixado o governo, o jornal O Globo já denunciava invasões em obras inacabadas do Morar Feliz, onde moradores ocuparam casas sem infraestrutura.
Para saber mais, pesquise no Google:
- Denúncias de corrupção no Morar Feliz envolvendo Odebrecht.
- Impacto da violência em comunidades realocadas no RJ.
- Histórico das políticas habitacionais de Rosinha e Wladimir Garotinho.
Enquanto as famílias de Ururaí resistem em barracas, a crise em Campos dos Goytacazes simboliza o colapso de programas sociais marcados por escândalos.
A reunião desta segunda-feira pode definir se o poder público, finalmente, assumirá sua responsabilidade – ou se o Morar Feliz permanecerá um projeto fantasma.








