O próximo grande encontro do Brasil com uma Copa do Mundo será protagonizado por mulheres. Entre 24 de junho e 25 de julho de 2027, o país receberá 32 seleções na primeira edição do Mundial feminino organizada em território brasileiro e também na América do Sul.
Mais do que entregar um novo troféu, a competição poderá mudar a maneira como meninas enxergam o próprio lugar no futebol. Durante um mês, atletas de diferentes países ocuparão alguns dos principais estádios brasileiros, oferecendo referências esportivas para crianças e adolescentes que ainda enfrentam dificuldades para praticar a modalidade.
O torneio será realizado pouco menos de um ano depois da Copa masculina de 2026. A proximidade entre as competições cria uma nova oportunidade de mobilização nacional, agora em torno de uma Seleção Brasileira que busca o primeiro título mundial feminino de sua história.
Expectativa começa entre as crianças
A realização do Mundial em casa já desperta entusiasmo entre meninas que acompanham futebol e sonham em entrar em campo.
Manuela Baère, de 6 anos, faz aulas da modalidade e comemora a possibilidade de assistir com maior frequência a partidas disputadas por mulheres. Para ela, a competição oferece algo que ainda aparece pouco no cotidiano esportivo das crianças: jogadoras ocupando o centro das atenções.
A expectativa também faz parte da rotina de Sofia Seabra, de 13 anos. Moradora de Brasília e admiradora de Marta, a estudante começou a jogar ao lado de meninos e transformou as diferenças encontradas nos treinos em motivação para continuar evoluindo.
Sofia pretende convencer a família a viajar para acompanhar de perto uma partida da competição. Seu interesse demonstra como a presença do torneio no país poderá aproximar uma nova geração das atletas brasileiras e internacionais.
Essas histórias ajudam a dimensionar um dos possíveis efeitos do Mundial. Ao presenciarem mulheres jogando em grandes arenas, meninas poderão entender que o futebol também representa um caminho possível de desenvolvimento pessoal e profissional.
Representatividade pode ampliar participação
O futebol feminino brasileiro avançou nas últimas décadas, mas ainda convive com desigualdades relacionadas à estrutura, ao financiamento, à visibilidade e às oportunidades de formação.
Muitas meninas começam a jogar em equipes formadas majoritariamente por meninos porque não encontram turmas femininas, campeonatos regulares ou projetos próximos de onde vivem. Outras abandonam a modalidade diante do preconceito ou da ausência de apoio familiar e institucional.
A Copa de 2027 poderá ajudar a reduzir essas barreiras ao colocar jogadoras em evidência durante um período prolongado. A transmissão das partidas, a cobertura jornalística e as ações realizadas nas cidades-sede poderão apresentar ao público diferentes trajetórias de atletas.
O desafio será impedir que essa atenção desapareça depois da final. Para produzir mudanças permanentes, o interesse despertado pelo Mundial precisará ser acompanhado pela criação de escolinhas, competições de base, calendários regulares e estruturas adequadas para treinamento.
Legado vai além dos estádios
A Confederação Brasileira de Futebol nomeou Aline Pellegrino para exercer a função de diretora executiva de Legado e Relações Institucionais da Copa do Mundo Feminina de 2027. Ex-capitã da Seleção, ela participou da equipe vice-campeã mundial em 2007 e conquistou a medalha de prata nos Jogos Olímpicos de Atenas, em 2004.
A atuação da dirigente deverá aproximar a organização esportiva de projetos sociais, educacionais e institucionais. A proposta é utilizar o alcance da competição para promover oportunidades que continuem disponíveis depois do encerramento do torneio.
Entre os objetivos está a construção de uma mudança cultural capaz de normalizar a presença de meninas e mulheres no futebol. A modalidade ainda é frequentemente tratada como um espaço masculino, apesar do crescimento das equipes, das competições e da audiência.
Para Aline, o esporte possui capacidade de influenciar comportamentos e contribuir para relações mais igualitárias. A formação conjunta de meninas e meninos aparece como uma das possibilidades para diminuir preconceitos desde a infância.
O legado também poderá envolver capacitação e abertura de espaços para mulheres em diferentes funções. Além das atletas, o futebol precisa ampliar a presença feminina entre treinadoras, árbitras, dirigentes, preparadoras físicas, médicas, fisioterapeutas, jornalistas e integrantes de comissões técnicas.
Jogadoras esperam reconhecimento
Para quem já enfrenta a rotina de treinamentos e competições, a realização da Copa no Brasil representa uma oportunidade de conquistar maior visibilidade.
Myllene D’Arc, de 34 anos, atua pela equipe Republicanas, de Brasília, e começou a praticar futebol ao lado de meninos. Ela espera que o torneio ajude a demonstrar que mulheres podem ocupar qualquer modalidade esportiva e construir suas próprias trajetórias nos gramados.
A busca por reconhecimento permanece entre as principais demandas das atletas. Fora das grandes competições, muitas equipes ainda lidam com pouca cobertura, recursos limitados, contratos instáveis e temporadas com um número reduzido de partidas.
A exposição proporcionada pelo Mundial poderá atrair torcedores e patrocinadores, além de estimular clubes, empresas e instituições públicas a desenvolverem projetos mais duradouros.
O crescimento da audiência, contudo, precisará ser convertido em investimento. Sem continuidade, o aumento do interesse durante a Copa corre o risco de se tornar apenas um movimento temporário.
Oito cidades receberão o torneio
As partidas serão distribuídas por Belo Horizonte, Brasília, Fortaleza, Porto Alegre, Recife, Rio de Janeiro, Salvador e São Paulo. Os estádios escolhidos são Mineirão, Estádio Nacional, Arena Castelão, Beira-Rio, Arena de Pernambuco, Maracanã, Arena Fonte Nova e Arena Itaquera.
A presença do torneio em diferentes regiões permitirá que torcedores acompanhem as principais seleções sem que toda a programação fique concentrada em apenas uma área do país.
As cidades precisarão preparar operações de segurança, transporte, mobilidade, atendimento ao público e recepção das delegações. Hotéis, restaurantes, comércio e serviços turísticos também deverão ser impactados pela chegada de visitantes brasileiros e estrangeiros.
Para a modalidade, utilizar grandes estádios representa uma oportunidade de ampliar o público e estabelecer novas relações com as torcidas locais.
A ocupação das arenas será um dos indicadores do sucesso da competição. Arquibancadas cheias poderão contribuir para fortalecer a imagem do futebol feminino e incentivar a realização de outras partidas importantes nesses espaços após 2027.
Brasil persegue conquista inédita
A Seleção Brasileira participará do torneio automaticamente por ser representante do país-sede. O principal desafio será transformar o apoio da torcida em uma campanha capaz de levar a equipe ao primeiro título mundial.
A melhor participação brasileira ocorreu em 2007, quando a equipe chegou à final e terminou com o vice-campeonato. A campanha contou com nomes como Marta, Formiga, Cristiane e Aline Pellegrino.
Desde então, a conquista mundial permanece como um dos grandes objetivos do futebol feminino nacional.
O Brasil produziu atletas reconhecidas internacionalmente, mas ainda não conseguiu repetir nas Copas femininas o histórico de títulos alcançado pela Seleção masculina.
Desde a primeira edição, realizada em 1991, somente Estados Unidos, Alemanha, Noruega, Japão e Espanha conquistaram o torneio. As espanholas chegarão ao Brasil defendendo o título obtido em 2023.
A presença de potências tradicionais e seleções em crescimento deverá tornar a disputa ainda mais equilibrada. Jogar em casa poderá representar uma vantagem para as brasileiras, mas também aumentará a pressão sobre o elenco.
Marta continua como inspiração
Mesmo que não esteja em campo em 2027, Marta continuará associada ao processo de crescimento do futebol feminino brasileiro.
A trajetória da camisa 10 ajudou a tornar a modalidade mais conhecida e inspirou meninas que não acompanharam as primeiras gerações da Seleção. Para jovens como Sofia, Marta representa a possibilidade de uma brasileira alcançar reconhecimento mundial por meio do futebol.
O novo ciclo, entretanto, também precisará apresentar outras referências ao público. A Copa em casa poderá aproximar os torcedores das jogadoras que formarão a Seleção e das jovens que deverão assumir maior responsabilidade nos próximos anos.
Essa renovação será importante para que o futebol feminino brasileiro não dependa exclusivamente da imagem de uma única atleta.
Transformação dependerá de continuidade
O impacto da Copa não será determinado somente pelo resultado da Seleção ou pelo público presente nos estádios.
O verdadeiro legado será percebido na quantidade de meninas que permanecerem jogando, nas estruturas criadas, nos profissionais capacitados e nas oportunidades abertas para mulheres depois da competição.
Também será necessário acompanhar os projetos desenvolvidos nas cidades-sede e garantir que os investimentos realizados não sejam abandonados após o último jogo.
A organização do primeiro Mundial feminino na América do Sul oferece ao Brasil a possibilidade de combinar paixão esportiva com transformação social.
Para as crianças que esperam ver suas referências em campo, o torneio já produz expectativa. Para as atletas que lutam por reconhecimento, representa uma vitrine. Para o país, será a oportunidade de mostrar que o futebol pode ser um espaço compartilhado com igualdade.
Quando a bola começar a rolar em 24 de junho de 2027, a Seleção tentará conquistar uma taça inédita. Paralelamente, o futebol feminino disputará outro resultado igualmente importante: ocupar de forma permanente o lugar que ainda busca dentro da cultura esportiva brasileira.
*Da Agência Fonte Exclusiva








