Perceber sangue nas fezes deveria levar o paciente a procurar avaliação médica, mas essa reação ainda não ocorre com a rapidez necessária em parte significativa da população brasileira.
Um levantamento nacional identificou que, mesmo reconhecendo a gravidade de alterações intestinais persistentes, muitas pessoas preferem esperar, modificar a alimentação ou recorrer à automedicação.
A pesquisa foi realizada pelo A.C.Camargo Cancer Center em parceria com a Nexus – Pesquisa e Inteligência de Dados. Foram entrevistadas presencialmente 2.015 pessoas com 16 anos ou mais, nas 27 unidades da Federação, entre 25 e 30 de junho de 2026. A margem de erro é de dois pontos percentuais, com nível de confiança de 95%.
O estudo mostrou que oito em cada dez entrevistados consideram grave a presença de sangue nas fezes ou uma mudança no funcionamento do intestino que permaneça por mais de um mês. No entanto, somente 42% classificaram essas manifestações como muito graves.
A associação com o câncer colorretal também é conhecida pela maioria. Ao todo, 67% concordam que o sangramento e as alterações intestinais prolongadas podem indicar a doença. Apenas 24%, porém, demonstraram uma percepção mais firme sobre essa relação.
Sintomas precisam ser investigados
A presença de sangue nas fezes não significa automaticamente que o paciente tenha câncer. Hemorroidas, inflamações, infecções e outras condições benignas também podem provocar sangramentos ou mudanças no hábito intestinal.
Ainda assim, somente uma avaliação profissional pode determinar a origem do problema. A recomendação é procurar atendimento, principalmente quando o sintoma se repete, persiste ou aparece acompanhado de dor abdominal, perda de peso, anemia, cansaço ou sensação de que o intestino não foi completamente esvaziado.
O câncer colorretal pode se desenvolver em qualquer segmento do cólon ou do reto. Em muitos casos, surge a partir de pólipos, formações inicialmente benignas que podem sofrer alterações ao longo do tempo. A identificação e a retirada dessas lesões representam uma das formas de impedir a evolução para um tumor maligno.
Quatro em cada dez demoraram a buscar ajuda
Entre os participantes da pesquisa, 9% disseram que já encontraram sangue nas fezes em algum momento da vida. Desse grupo, 59% procuraram atendimento imediatamente, enquanto 40% adotaram comportamentos que poderiam atrasar a investigação.
A maior parcela, correspondente a 19%, não fez nada e apenas aguardou o desaparecimento do sangramento. Outros 10% esperaram dias ou semanas antes de consultar um profissional.
Também houve participantes que tentaram solucionar o problema por conta própria. Sete por cento recorreram a remédios caseiros ou fizeram alterações na alimentação, enquanto 3% buscaram medicamentos diretamente em farmácias. Um por cento pesquisou informações na internet antes de procurar orientação especializada.
Essas condutas podem provocar atrasos importantes. A automedicação, além de não esclarecer a causa do sangramento, pode aliviar temporariamente determinadas manifestações e criar uma falsa impressão de que o problema foi resolvido.
Diferenças de renda, idade e região
A procura imediata por atendimento apresentou diferenças entre os grupos pesquisados. O percentual chegou a 86% entre os entrevistados de maior renda e a 72% entre pessoas com mais de 60 anos.
Também buscaram assistência rapidamente 72% dos moradores do Sudeste. Entre as mulheres, o índice foi de 63%, enquanto entre os homens ficou em 54%.
No Norte e no Centro-Oeste, 43% dos entrevistados que já perceberam o sintoma disseram ter esperado que ele desaparecesse sem procurar atendimento imediato. Os resultados indicam que fatores econômicos, culturais, territoriais e de acesso aos serviços podem influenciar a reação diante de um sinal de alerta.
Exame ainda é desconhecido pela maioria
A Pesquisa de Sangue Oculto nas Fezes, também chamada de PSO, permanece fora do conhecimento de grande parte da população.
Segundo o levantamento, 67% dos brasileiros nunca ouviram falar do procedimento. Apenas 11% afirmaram já ter realizado o exame, enquanto 21% disseram conhecê-lo, mas nunca passaram pela avaliação.
O teste é capaz de identificar pequenas quantidades de sangue que não podem ser percebidas a olho nu. Por ser simples, pode ser empregado como parte de estratégias de rastreamento e ajudar a selecionar pacientes que precisam de uma investigação complementar.
Um resultado positivo não confirma o câncer. Ele indica que existe sangramento e que a causa deve ser esclarecida. Nesses casos, a colonoscopia pode ser solicitada para permitir a visualização do intestino e a identificação de pólipos, tumores ou outras alterações.
Jovens e homens conhecem menos o procedimento
O desconhecimento sobre a pesquisa de sangue oculto atingiu 85% das pessoas com idade entre 16 e 24 anos.
Entre os homens, 76% nunca tinham ouvido falar do exame. O percentual chegou a 73% entre os participantes de menor renda e a 72% entre aqueles que estudaram somente até o ensino fundamental.
Os números evidenciam desigualdades no acesso à informação preventiva. Pessoas com menor renda e escolaridade podem encontrar mais dificuldades para conhecer os serviços disponíveis, reconhecer situações de risco e conseguir encaminhamento para exames especializados.
A proximidade com a doença também influencia o conhecimento. Entre quem teve câncer colorretal ou conhece alguém diagnosticado, o desconhecimento sobre o exame cai para 56%.
A realização do procedimento também é mais frequente nesse grupo. Apenas 8% das pessoas sem contato com a doença já fizeram a pesquisa de sangue oculto, diante de 21% entre aqueles que enfrentaram o câncer ou conviveram com algum paciente.
Doença ainda é vista como distante
A maioria dos entrevistados não conhece alguém que tenha enfrentado o câncer de cólon ou reto.
Somente 21% relataram contato com algum paciente. Para 15%, tratava-se de um familiar muito próximo. Outros 6% citaram amigos ou conhecidos. Já 75% afirmaram nunca ter convivido com uma pessoa diagnosticada.
A ausência de contato pode contribuir para uma percepção reduzida de risco. Quando a doença parece distante da realidade cotidiana, sinais como sangramento ou mudança intestinal podem ser tratados como passageiros ou sem importância.
O constrangimento relacionado ao funcionamento intestinal também pode atrasar a procura por atendimento. Especialistas reforçam que alterações nas fezes e no ritmo do intestino precisam ser tratadas como questões de saúde, sem vergonha ou receio de conversar com os profissionais.
Rastreamento deve ser individualizado
Especialistas do A.C.Camargo recomendam que pessoas sem sintomas discutam o início dos exames preventivos a partir dos 45 anos. A idade e a periodicidade podem mudar quando existem casos de câncer de intestino na família ou outros fatores de risco.
O acompanhamento pode começar mais cedo para pessoas com parentes próximos diagnosticados, doenças inflamatórias intestinais, síndromes hereditárias ou histórico pessoal de pólipos.
A estratégia mais adequada deve ser definida com um profissional de saúde. Dependendo do perfil do paciente, poderão ser utilizados testes nas fezes, colonoscopia ou outros métodos de investigação.
É importante diferenciar rastreamento de diagnóstico. O rastreamento é direcionado a pessoas sem sintomas, enquanto indivíduos que apresentam sangramento, dor ou mudanças persistentes precisam de avaliação clínica, independentemente da idade.
Diagnóstico precoce favorece tratamento
A identificação do câncer colorretal em uma fase inicial aumenta as possibilidades de um tratamento bem-sucedido.
Exames preventivos também podem localizar lesões antes que elas se transformem em tumores. Durante a colonoscopia, determinados pólipos podem ser retirados e encaminhados para análise.
O tratamento varia conforme a localização e o estágio da doença. A cirurgia é uma das principais abordagens e pode ser combinada com quimioterapia, radioterapia ou outros recursos, especialmente nos tumores localizados no reto.
A demora na investigação pode permitir que a doença avance sem ser percebida. Por isso, a orientação médica deve ser procurada mesmo quando o paciente acredita que o sangramento está relacionado a uma condição comum.
Brasil pode registrar 53,8 mil casos por ano
O Instituto Nacional de Câncer estima 53.810 novos casos de câncer de cólon e reto por ano no Brasil durante o triênio de 2026 a 2028. O número corresponde a um risco estimado de 25,11 casos para cada 100 mil habitantes.
A projeção inclui 26.270 diagnósticos anuais entre homens e 27.540 entre mulheres. Desconsiderando os tumores de pele não melanoma, o câncer colorretal ocupa a terceira posição entre os tipos mais frequentes no país.
As maiores taxas de incidência são observadas nas regiões Sul e Sudeste. Em 2023, a doença provocou 23.953 mortes no Brasil, segundo os dados reunidos pelo instituto.
O cenário reforça a necessidade de ampliar o acesso aos exames, qualificar os serviços de saúde e divulgar informações sobre sintomas e prevenção.
Conhecimento precisa se transformar em atitude
A pesquisa evidencia que informar a população é indispensável, mas não suficiente. Embora a maioria reconheça a gravidade do sangramento e das alterações intestinais, uma parcela ainda hesita antes de procurar atendimento.
A redução dos diagnósticos tardios depende de campanhas que orientem sobre os sinais de alerta, mas também de serviços capazes de receber os pacientes, realizar os exames e garantir continuidade ao acompanhamento.
Sangue nas fezes, dor abdominal persistente, anemia, emagrecimento sem explicação e mudanças prolongadas no funcionamento intestinal não devem ser naturalizados.
Esses sintomas podem ter diferentes causas e nem sempre indicam câncer. A procura rápida por um profissional, entretanto, é a única forma segura de esclarecer o problema e iniciar o tratamento adequado quando houver necessidade.
*Da Agência Fonte Exclusiva








