A história voltou a ocupar o gramado nesta quarta-feira (15). Argentina e Inglaterra entraram em campo às 16h, no Estádio de Atlanta, para disputar pela primeira vez uma semifinal de Copa do Mundo, em um confronto marcado por títulos, eliminações dolorosas, decisões polêmicas e tensões políticas que atravessaram diferentes gerações.
O vencedor enfrentará a Espanha na final de domingo (19), na região de Nova York e Nova Jersey. A seleção espanhola garantiu a primeira vaga na decisão ao derrotar a França por 2 a 0.
Além da importância esportiva, o encontro representa a retomada de uma das rivalidades mais simbólicas do futebol internacional. Argentina e Inglaterra não se enfrentavam em uma Copa desde 2002 e chegaram à semifinal após vitórias na prorrogação.
A equipe argentina eliminou a Suíça por 3 a 1, com gols de Julián Álvarez e Lautaro Martínez no tempo extra. A Inglaterra superou a Noruega por 2 a 1, também depois dos 90 minutos, com Jude Bellingham marcando os dois gols ingleses.
O confronto em Atlanta é o sexto entre os países na história dos Mundiais. Nas cinco partidas anteriores, os ingleses venceram três vezes. A Argentina conquistou uma vitória e também eliminou os adversários em uma disputa por pênaltis após empate.
Uma rivalidade construída em cinco Copas
O primeiro encontro ocorreu na fase de grupos da Copa de 1962, no Chile. A Inglaterra venceu por 3 a 1, com gols de Ron Flowers, Bobby Charlton e Roger Hunt. José Sanfilippo descontou para os argentinos.
Quatro anos depois, as equipes voltaram a se enfrentar nas quartas de final do Mundial disputado em território inglês. Os donos da casa venceram por 1 a 0, com gol de Geoff Hurst, e avançaram na campanha que terminaria com o único título mundial da seleção.
A partida de 1966 ficou marcada pela expulsão do capitão argentino Antonio Rattín. A decisão provocou fortes reclamações da delegação sul-americana e ajudou a consolidar a desconfiança argentina em relação à arbitragem daquele torneio.
A rivalidade ganhou uma dimensão política ainda maior após a Guerra das Malvinas, travada em 1982 entre Argentina e Reino Unido pelo controle do arquipélago do Atlântico Sul.
Quatro anos depois do conflito, os países se reencontraram nas quartas de final da Copa de 1986, no México. A Argentina venceu por 2 a 1 em uma partida eternizada por dois gols completamente diferentes de Diego Maradona.
No primeiro, o camisa 10 argentino utilizou a mão para desviar a bola antes da chegada do goleiro Peter Shilton. A infração não foi percebida pelo árbitro e o lance passou a ser conhecido como a “Mão de Deus”.
Poucos minutos depois, Maradona recebeu a bola ainda no campo argentino, avançou em velocidade, superou vários adversários e driblou Shilton antes de marcar. A jogada foi posteriormente reconhecida como o “Gol do Século”.
Gary Lineker descontou para a Inglaterra, mas a Argentina avançou e terminou o torneio com o segundo título mundial de sua história.
O reencontro seguinte ocorreu nas oitavas de final da Copa de 1998, na França. Depois de um empate por 2 a 2, a classificação foi decidida nas cobranças de pênaltis.
David Beckham foi expulso no início do segundo tempo após reagir a uma falta de Diego Simeone. Mesmo com um jogador a menos, a Inglaterra conseguiu levar a partida até a disputa de penalidades, mas acabou eliminada por 4 a 3.
O goleiro Carlos Roa defendeu as cobranças de Paul Ince e David Batty e se transformou em um dos protagonistas da classificação argentina. Beckham, por sua vez, retornou à Inglaterra como um dos principais alvos das críticas pela eliminação.
A revanche inglesa veio na fase de grupos do Mundial de 2002, realizado na Coreia do Sul e no Japão. Beckham cobrou um pênalti e marcou o único gol da vitória por 1 a 0.
O resultado teve significado pessoal para o jogador, que havia sido responsabilizado pela derrota quatro anos antes. A vitória também contribuiu para a eliminação precoce da Argentina naquela edição.
Messi tenta ampliar legado; Inglaterra busca fim do jejum
A semifinal também acrescenta um capítulo inédito à carreira de Lionel Messi. Aos 39 anos e em sua sexta Copa, o capitão argentino enfrenta a Inglaterra pela primeira vez em uma partida pela seleção principal.
Messi tenta conduzir a atual campeã mundial à segunda decisão consecutiva. Caso conquiste o título, a Argentina se tornará a primeira seleção a vencer duas Copas seguidas desde o Brasil, campeão em 1958 e 1962.
O atacante também poderá superar o legado de Maradona em número de títulos mundiais conquistados como protagonista da seleção argentina. A Argentina possui três taças, obtidas em 1978, 1986 e 2022.
Para a Inglaterra, a classificação representaria o retorno à final depois de 60 anos. A única participação inglesa na decisão ocorreu em 1966, quando a equipe derrotou a Alemanha Ocidental em Wembley.
Desde então, os ingleses chegaram perto em algumas oportunidades, mas não conseguiram retornar à disputa pelo título. A atual geração procura transformar a presença frequente nas fases decisivas dos grandes torneios em uma conquista mundial.
Jude Bellingham e Harry Kane estão entre as principais referências ofensivas da equipe. Bellingham foi decisivo contra a Noruega, enquanto Kane tenta conduzir a seleção a uma final depois de campanhas marcadas por eliminações frustrantes.
A Argentina apresenta a experiência de jogadores que participaram da conquista de 2022, enquanto a Inglaterra aposta em uma geração consolidada nos principais clubes europeus. A semifinal coloca, portanto, dois projetos diferentes diante da mesma oportunidade histórica.
Segurança reforçada em Atlanta
A dimensão da rivalidade levou as autoridades a ampliarem o esquema de segurança em Atlanta. Cerca de 1.600 agentes foram mobilizados para acompanhar a partida, com atuação da polícia local, do FBI e de outros órgãos responsáveis pelo evento.
Pela primeira vez nesta Copa, torcedores das duas seleções foram direcionados a entradas diferentes no estádio. A separação completa nas arquibancadas, entretanto, não seria possível devido ao modelo de comercialização dos ingressos adotado pela FIFA.
As autoridades também proibiram a entrada de faixas ou bandeiras com mensagens consideradas provocativas, políticas ou raciais. A medida incluiu materiais relacionados à disputa pela soberania das Ilhas Malvinas, chamadas de Falkland Islands pelos britânicos.
Jogadores e treinadores procuraram reduzir o peso dos acontecimentos externos, insistindo que a classificação seria decidida exclusivamente dentro de campo. A história, porém, torna impossível tratar Argentina e Inglaterra como um confronto comum.
As lembranças de Rattín, Maradona, Beckham, Simeone e dos cinco encontros anteriores permanecem presentes sempre que as duas camisas se enfrentam.
A semifinal de 2026 oferece a oportunidade de acrescentar um novo episódio a essa trajetória. Para a Argentina, está em jogo a possibilidade de defender o título e alcançar outra final com Messi. Para a Inglaterra, a chance de encerrar seis décadas de espera.
Mais do que definir o adversário da Espanha, o duelo em Atlanta escreverá outro capítulo de uma rivalidade construída por futebol, controvérsias, decisões dramáticas e acontecimentos que ultrapassaram os limites do esporte.
*Da Agência Fonte Exclusiva








