A Fundação Oswaldo Cruz realizou, nesta quarta-feira, 5 de agosto de 2026, uma cerimônia em memória dos dez cientistas afastados do antigo Instituto Oswaldo Cruz durante a ditadura militar. A solenidade também marcou os 40 anos da reintegração dos pesquisadores, ocorrida em 1986, após um período de perseguição política e interrupção de importantes trabalhos científicos.
O ato aconteceu nas escadarias do Castelo Mourisco, no campus de Manguinhos, na Zona Norte do Rio de Janeiro. O local foi escolhido por ter recebido, quatro décadas antes, a histórica cerimônia de retorno dos pesquisadores à instituição, durante a administração do sanitarista Sergio Arouca.
A programação reuniu trabalhadores da Fiocruz, estudantes, pesquisadores, familiares dos homenageados e representantes de instituições ligadas à saúde e à ciência. O evento foi realizado no Dia Nacional da Saúde e na data de nascimento do médico e sanitarista Oswaldo Cruz.
Títulos concedidos aos pesquisadores
Durante a homenagem, a Fiocruz concedeu postumamente o título de Pesquisador Emérito a Augusto Cid de Mello Perissé, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Haity Moussatché, Fernando Braga Ubatuba, Moacyr Vaz de Andrade, Hugo de Souza Lopes, Masao Goto, Sebastião José de Oliveira e Domingos Arthur Machado Filho.
Herman Lent, que já havia recebido o título de Pesquisador Emérito da Fiocruz em 2004, também foi lembrado durante a cerimônia. O cientista foi responsável por registrar o episódio no livro “O Massacre de Manguinhos”, publicado originalmente em 1978. Uma nova impressão da obra foi lançada durante a programação de 2026.
O episódio que atingiu os pesquisadores começou formalmente em 1º de abril de 1970, quando seus direitos políticos foram suspensos com base nos instrumentos de repressão adotados pelo regime militar. Cinco dias depois, um decreto determinou a aposentadoria compulsória dos dez profissionais.
Naquele período, o Instituto Oswaldo Cruz possuía aproximadamente 70 pesquisadores. A retirada dos dez cientistas representou a perda de cerca de 14% de todo o quadro científico da instituição. Muitos deles acumulavam entre 20 e 30 anos de atuação, além de ocuparem funções de liderança em laboratórios, seções e divisões de pesquisa.
Pesquisas e laboratórios foram afetados
A perseguição política provocou consequências que ultrapassaram as trajetórias pessoais dos cientistas. Laboratórios foram fechados, grupos de estudo foram desarticulados e linhas de investigação consideradas estratégicas para a saúde pública brasileira acabaram interrompidas.
Entre os trabalhos prejudicados estavam pesquisas sobre imunologia, respostas do organismo a infecções, produção de vacinas, desenvolvimento de soros e criação de medicamentos. Os pesquisadores também orientavam estudantes e profissionais que estavam iniciando suas carreiras, ampliando o impacto do afastamento sobre uma geração inteira de cientistas.
Registros históricos indicam que integrantes do grupo haviam denunciado irregularidades e desvios de verbas que deveriam ser utilizados em ações contra doenças como malária, peste bubônica e meningite. Apesar das acusações de subversão usadas para justificar a perseguição, os inquéritos instaurados contra os pesquisadores não comprovaram as suspeitas levantadas pelo regime.
Além de perderem seus cargos, os cientistas ficaram impedidos de frequentar laboratórios, bibliotecas e instituições públicas de pesquisa. Alguns buscaram oportunidades em universidades particulares ou no exterior, enquanto outros tiveram suas atividades científicas severamente limitadas.
Retorno ocorreu após 16 anos
Os pesquisadores foram reintegrados à Fiocruz em 15 de agosto de 1986, durante uma cerimônia pública organizada na gestão de Sergio Arouca. O retorno ocorreu 16 anos depois das cassações e tornou-se um dos símbolos da reconstrução democrática da instituição.
Participaram daquele ato Haity Moussatché, Herman Lent, Moacyr Vaz de Andrade, Augusto Cid de Mello Perissé, Hugo de Souza Lopes, Sebastião José de Oliveira, Fernando Braga Ubatuba, Tito Arcoverde de Albuquerque Cavalcanti, Masao Goto e Domingos Arthur Machado Filho. (
Mesmo com a reintegração, os anos de afastamento não puderam ser recuperados. Projetos foram abandonados, coleções científicas sofreram prejuízos e equipes formadas durante décadas perderam continuidade. O episódio passou a ser considerado um dos ataques mais graves já praticados contra a liberdade de pesquisa no Brasil.
Memória, ciência e democracia
A homenagem realizada em 2026 buscou preservar a história dos pesquisadores e reafirmar a importância da liberdade científica. Para a Fiocruz e as entidades participantes, o desenvolvimento da saúde pública depende de instituições capazes de produzir conhecimento sem perseguição política, censura ou interferências autoritárias.
A cerimônia estabeleceu uma ligação entre dois períodos distintos: o momento de repressão que tentou silenciar os pesquisadores e o processo de redemocratização que permitiu sua reintegração. Também reforçou a memória do Massacre de Manguinhos como uma advertência sobre os prejuízos provocados pelo autoritarismo à ciência e à sociedade.
*Da Agência Fonte Exclusiva.







