No tratamento contra-ideológico dado por José do Patrocínio ao seu romance de tese, evidencia-se a condição do negro, não somente tratado como mercadoria, muitas vezes separado dos pais, desfazendo assim os laços familiares, o que pode ser constatado no diálogo entre Fidélis, o novo feitor do sítio, e Balbina: “para que me lembra minha mãe, tia Balbina; o escravo não tem mãe” (p.178).
Porém, em vários momentos da narrativa, a relação aqui estabelecida fica ainda mais evidente, quando Balbina tenta convencer Carolina a abortar o filho e seus argumentos se apoiam nos maus-tratos sofridos pelos negros e na provável separação entre mãe e filho: “brancos podem surrar, podem vender o filho da sua escrava, e a escrava há de chorar e tomar ojeriza dos brancos” (p.69).
Questões contra-ideológicas e bem contemporâneas são colocadas em questão: o negro que luta contra o branco para legitimar sua ancestralidade, o aborto (na época de uma negra escrava), a venda de crianças escravas, entre muitos outros, que estão na seara da contra-ideologia, do embate político e racista-xenofóbico.
Por isso, pode-se afirmar, sem medo de errar, que a tese da contra-ideologia está sempre na perspectiva de Balbina, podendo-se assim fazer uma outra imagem de Motta Coqueiro, que é pintado pelo narrador como homem que trazia “no fino quilate do seu caráter, duas qualidades de todo o ponto heterogêneas, mas por isso mesmo de fácil combinação, a bonomia e a austeridade” (p.105).
A escrava refere-se sempre ao protagonista como “mau senhor”, mostrando que, do ponto de vista do cativo, do outro, da outridade representada, aquele era uma figura opressiva e violenta, mesmo que na narrativa tal característica pareça contraditória.
Por meio da atenção a várias passagens, da observação a muitas falas do senhor (“quero castigo e não vingança”), em que Coqueiro repreende o feitor ao usar de violência para se vingar das afrontas de Balbina, pode-se ter ideia de quanto sua atitude extrapola o indivíduo e se vincula ao lugar por ele ocupado no sistema, na ideologia dominadora e dominante, já que ambas as razões para a violência são injustas.
Ainda Fidélis, ao ser nomeado novo feitor, faz uma reflexão sobre a postura imponente de Mota Coqueiro: “não tinha-lhe favoniado a vaidade a inopinada distinção que mereceu ao senhor, odiava os brancos e sabia que, distinguindo ou castigando, o senhor só tem em vista tirar o maior possível de seu escravo” (p.109).
A partir dessa reflexão do novo feitor, também ele escravizado, pode-se remeter a figura do protagonista à representação da classe senhorial, escravagista e ideológica, que tirava suas riquezas do suor dos submetidos, da exploração e extermínio de várias raças africanas, de várias crenças unidas para se defender, de um modus vivendi injusto, humilhante e cruel. Isso não me parece ter mudado muito hoje. Tomou outras feitios, outras caras, outros modos, mas a ideologia é um mal cancerígeno. Corrói por dentro, pelas entranhas, o Outro, o que é diferente, e não se envergonha de explorá-lo, de roubá-lo, de matá-lo. O Brasil ainda herda tudo isso de sua ignorância de pesada ancestralidade.
Contudo, o contexto histórico em que se passa a narrativa (1850) é um período de grandes debates sobre a escravidão, fazendo com que a elite latifundiária tivesse suas estruturas abaladas. Além disso, começava a formação dos núcleos urbanos, onde as ideias liberais eram aparentemente adotadas pela incipiente burguesia nacional.
Roberto Schwarz em Ao vencedor as batatas (1977) descreve as relações paternalistas, que organizavam essa sociedade, e afirma: “pode-se dizer que a colonização produziu, com base no monopólio da terra, três classes de população: o latifundiário, o escravo e o ‘homem livre’, na verdade dependente” (p.16).
Logo, tinha-se a presença de duas classes dependentes (contra-ideológicas), que eram subordinadas à autoridade do senhor Ideológico). Compreendendo essa pirâmide social, pode-se observar que, no romance, essas relações serão pouco a pouco relativizadas.
O “homem livre” aparece caricaturalmente representado pelo agregado, como é o caso do personagem Benedito, que segundo o narrador, é “um desses homens pobres do sertão, que vivem da pequena lavoura e sem meio para ter um terreno próprio, cultivam o alheio para usufruir-lhe as benfeitorias” (p.43).
Então, mesmo sendo livre, depende dos favores da classe senhorial para poder ascender socialmente e possuir bens materiais. Segundo Schwarz, todo favor estabelece uma relação autoritária, e esta fica bem evidente no romance, quando o narrador expõe os pensamentos do agregado: “conhecendo de perto o caráter de Motta Coqueiro nas suas asperezas e nas suas delicadezas, evitava o seu desagrado; era isto levado por uma questão moral, mas principalmente por uma questão econômica” (p. 78).
A personagem Manuel João, por sua vez, também aparece como “homem livre” e dependente do senhor, mas ele encontra-se numa situação pior do que Benedito, pois é mestiço e não possui nenhum bem material. Desta forma, quando Coqueiro destitui o feitor de seu trabalho, este lhe suplica: “Mas, meu amo (…), eu não posso sair hoje daqui; não tenho para onde ir. Se meu amo não está satisfeito comigo como feitor, deixe-me ficar por enquanto como trabalhador” (p.111).
Apesar do “homem livre” e do escravo compartilharem a dependência como elemento em comum, essa primeira casta considerava-se superior à segunda, por possuir mobilidade social. Sendo assim, o escravo se encontrava na condição extrema de dependência, pois era considerado “raça inferior”, não usufruindo, de “regalias” ou da possibilidade de ascensão social.
A relação paternalista entra em crise quando Mota Coqueiro tem seu poder enfraquecido e seu agregado não só deixa de respeitá-lo, como passa a desafiá-lo. Além disso, alguns escravos, entre eles Balbina, tramam vingança contra o senhor. A afronta de Benedito é direta contra-ideologicamente, pois ele recebe em sua casa os inimigos de Coqueiro, destrói plantações, gado e, o “mais temível”, tenta convencer os escravos a fugirem do sítio.
Balbina, por sua vez, mulher aguerrida e guerreira, também aparece como uma ameaça ao poder do senhor, pois, nesse momento da narrativa, a voz do patriarca perde toda sua autoridade. No centro desse desmoronamento da figura do senhor, triunfam seus inimigos, sobretudo as escravas Balbina e Carolina, que prestam testemunho contra Coqueiro, obtendo em troca a liberdade.








