O Cristianismo nascente, que florescia em paralelo com o judaísmo de onde nasceu, era considerada uma nova seita judaica, vista como enigmática, quando identificados 5 aspectos do seu culto ao Cristo, culto de difícil compreensão que, ao mesmo tempo, tomava a distância diferencial em relação ao judaísmo regular, apontando simultaneamente que o movimento cristão, além de possuir algo de secreto e misterioso em seu interior, tinha forças para agir nas entranhas do Império Romano.
Uma sociedade secreta? um grupo místico? Talvez fosse assim o jeito como eram vistos os Nazarenos na Palestina do tempo pós-crucificação, em que se inspiraram os primeiros cristãos, atribuindo à crucificação um valor supremo. Nisso consiste o 1° enigma.
A crucificação nunca fora um revés, como seria natural se a entendêssemos dessa forma, mas, pelo contrário, ela fora vista, quase de imediato, como um grandioso ato de sacrifício, protagonizado por um galileu, através do qual toda a humanidade seria redimida por Deus.
O que para nós, hoje, parece ser natural, passados mais de 2000 anos de doutrina católica, não o foi para parte da mentalidade judaica da época, que precisou ser doutrinada para chegar ao ponto em que chegamos, ou seja, aceitar o fato cruel da crucificação, como algo necessário, acrescentado ao inusitado evento da ressurreição, como ato salvífico. Trata-se da referência à aclamação de um martírio como meio de salvação da humanidade.
É natural que os movimentos revolucionários desapareçam quando morreram seus líderes. No entanto, ao contrário, os cristãos não só sobreviveram à morte de seu líder, mas também se fortaleceram nela. A morte de Jesus torna-se uma virada moral na vida “desses Galileus covardes”.(WESSELOW, p. 77)
Será a partir da morte de Jesus que os Nazarenos irão saudá-lo como o Messias, o líder ungido da nação judaica (segundo aspecto). A crença de que sua morte teria realizado o perdão dos pecados teve conotações messiânicas significativas, quer dizer, o perdão para toda a Israel e não só para as pessoas individualmente.
Uma absolvição coletiva, associada ao surgimento de uma era messiânica, tendo à frente um Salvador espiritual, diferente de como seria reconhecido tradicionalmente um Messias, idealizado como um herói conquistador, um novo Rei Davi que libertaria os judeus do jugo estrangeiro, e ele só seria reconhecido como tal depois de haver expulsado os gentios da Terra Prometida e imposto sua regra, baseada em sua lei.
Sua morte é a prova para todos de que ele estava longe de ser um Messias Guerreiro, ungido. Dessa situação surgem duas posições em contraste, – a dos nazarenos, que o elegeram como o Messias; e a dos que duvidavam desses títulos, -, o que vai dividir uma nação, um povo. Jesus, como Messias na Palestina do século I é a exposição de um intrigante paradoxo.
Além do mais, muitos judeus iam considerar a ideia de um Messias Crucificado um insulto à nação judaica, pois a morte por crucificação enquadrava-se na rubrica de enforcamento, o que seria suficiente para tirar Jesus da cena do messianato.
Exaltar um crucificado, como rei de Israel, enviado por Deus, seria visto como um ato moralmente repreensível, uma traição à nação e uma afronta a Javé. Morto, desonrado, amaldiçoado, Jesus era o Messias menos possível que se poderia imaginar.
O que teria levado os Nazarenos a se apropriar das ideias nacionalistas e aplicá-las a Jesus. No entanto, algo os levou a pensar que Deus os Livraria da culpa, através de Jesus. Se não fosse assim, a afirmação de Jesus de que ele era o Messias teria morrido com ele na cruz.
Outro aspecto, o terceiro, peculiar ao cristianismo, era sua obsessão pela ideia judaica da ressurreição que os novos cristãos desenvolveram ainda mais. Estava presente no judaísmo, desde o século II a. C, a ideia segundo a qual Deus ressuscitaria os mortos mas, a mesma ideia, quando proclamada pelos Nazareno, causava indignação e espanto, ainda mais aos judeus do Século I. Enquanto os primeiros viam a ressurreição como questão periférica, os segundos, os nazarenos, lhe atribuíam absoluta relevância.
Para os judeus, a questão do perdão dos pecados poderia ou não envolver a ressurreição dos mortos. Entre ser um evento esperado, e ser um símbolo, o símbolo ganha mais força e vibração. Essa ressurreição era um evento esperado por muitos, mas nunca um símbolo, como o era a Terra Prometida, o Templo ou à Torá que definiam essencialmente a fé judaica.
Mas para os Nazarenos, a ressurreição ganhava importância e status, era um conceito essencial. Os apóstolos como testemunhos do Cristo ressuscitado deveriam garantir a ressurreição para um maior número de pessoas.
Outro fato que se destacava na fé dos nazarenos era a ideia de que a ressurreição geral dos mortos, o fim do mundo, já começara a acontecer, ou seja, essa ideia não era uma esperança para o futuro, mas sim um processo que se desenvolveria em duas etapas. A primeira com a ressurreição de Cristo; e a segunda com a volta do Cristo à Terra, a parúsia, quando acontecer a união com seus seguidores.
A ideia da ressurreição está intimamente associada à implantação de um Reino Revolucionário, mas, como os romanos eram ainda as autoridades do maior Império sobre a Terra, isso se tornou incompreensível para um judeu, sem ligação com os nazarenos. Então, o fato de Roma ainda governar o país era prova categórica de que a ressurreição não havia começado. Para os judeus, ressurreição é o ressurgimento político-social de Israel, fora da interferência romana. O que, de certa forma, acontecerá em 1948, com a criação do Estado de Israel.
Os nazarenos se apoderam de dois importantes conceitos dos judeus: o de ressurreição e o de Messias. Os nazarenos se achavam vivendo num processo de ressuscitação. O sinal exterior desse ressuscitamento Metafísico era o batismo, uma união mística com o Cristo, que incorporava o crente ao Reino de Deus.
O quarto aspecto do cristianismo que o incompatibilizava com os Judeus foi a adoção do domingo como o primeiro dia da semana, como um novo dia de culto, desprezando o tempo natural do sábado. Os cristãos atribuíam mais importância ao domingo que ao sábado, já que a guarda do Dia do Senhor era imposta aos gentios convertidos, o que não acontecia com a observância do sabá. Essa alteração de calendário deve ter ocorrido poucos anos depois da crucificação.
Fatores sociais e psicológicos foram decisivos para que o cristianismo florescesse em todo o Império Romano. Uma vez organizada a igreja na Palestina e fora dela, entraram em jogo forças sociais capazes de tornar a seita autossustentável e contribuir para um crescimento contínuo.
Junto a esse fator, a igreja precisava atingir certa massa crítica para que seguir a Cristo se tornasse uma opção socialmente viável e racional e os evangelhos emprestaram solidez à estrutura interna do cristianismo nascente. Para o quinto aspecto a pergunta é a seguinte: como os apóstolos conseguiram criar uma igreja, uma congregação sem possibilidades de crescer?








