A Baixada Campista, no Norte Fluminense, enfrenta uma das mais severas crises hídricas de sua história recente. A Lagoa Feia, outrora um espelho d’água vital para a região, hoje agoniza sob um sol inclemente, revelando um cenário desolador de terra rachada e vida selvagem em perigo.
Contudo, a tragédia que se desenrola não é apenas um capricho da natureza; é, segundo denúncias e relatos de moradores e ambientalistas, o resultado de uma combinação perigosa de mudanças climáticas, manejo irresponsável da água e uma sombra de corrupção que paira sobre as instituições responsáveis pela sua proteção.
A seca prolongada, marcada pela escassez de chuvas e temperaturas elevadas, é um fator inegável na diminuição do volume da Lagoa Feia. No entanto, o que agrava dramaticamente a situação é o alegado manejo incorreto das comportas do Canal da Flecha, principal sangradouro da lagoa para o mar.
Pescadores e produtores rurais da região têm clamado pela manutenção das comportas fechadas para reter a água, mas a gestão tem sido questionada, com a liberação de água em momentos inoportunos, esvaziando ainda mais o já combalido corpo hídrico.
Essa prática, que tem gerado prejuízos incalculáveis para a economia local, é atribuída à responsabilidade do representante da Universidade do Norte Fluminense (UENF) no Comitê de Bacias, com a aquiescência do Instituto Estadual do Ambiente (INEA).
O INEA, órgão ligado à Secretaria de Estado de Meio Ambiente e que deveria atuar como fiscalizador, já foi alvo de operações do Ministério Público por corrupção em outras regiões do estado do Rio de Janeiro.
Tal histórico levanta sérias preocupações sobre a integridade e a eficácia de sua atuação na crise da Lagoa Feia.
Um ecossistema à beira do colapso
Os impactos da crise hídrica são devastadores e multifacetados. A economia da Baixada Campista, fortemente dependente da pesca e da agricultura, está em frangalhos. Pescadores veem seus barcos parados e a quantidade de pescado diminuir drasticamente, comprometendo o sustento de suas famílias.
Produtores rurais testemunham a morte de gado por sede ou por animais atolados na lama dos poços secos, enquanto a produção agrícola é severamente afetada pela falta de água para irrigação.
A biodiversidade local também sofre. Durante o período de defeso (piracema), a reprodução dos peixes é comprometida pela falta de condições adequadas.
Além disso, intervenções humanas históricas, como a construção de diques que reduziram a área da lagoa, e a transformação de trechos da margem em pastagens para gado e plantio de cana, configuram crimes ambientais que contribuem para o assoreamento e a diminuição da capacidade de armazenamento de água da lagoa.
Medidas paliativas e a urgência de uma solução
Algumas ações pontuais, como a reabertura da ligação entre a Lagoa Feia e a Lagoa da Ribeira em Quissamã (RJ), e iniciativas de bombeamento de água, têm sido tentadas para equilibrar os níveis hídricos. No entanto, a natureza recorrente e a gravidade da crise exigem mais do que medidas paliativas.
Moradores e ambientalistas clamam por uma atenção maior do poder público, ações de reflorestamento das margens e, crucialmente, uma gestão mais transparente e eficaz dos recursos hídricos para evitar o colapso total do sistema lagunar.
A situação da Lagoa Feia é um alerta. É um testemunho da fragilidade dos ecossistemas frente à negligência humana e à ineficácia, ou mesmo cumplicidade, de órgãos que deveriam protegê-los. A Baixada Campista espera por respostas e, acima de tudo, por ações concretas que garantam a sobrevivência de sua lagoa e o futuro de sua gente.








