Para quem tenta abandonar o cigarro eletrônico, voltar ao cigarro tradicional pode parecer uma escolha contraditória. Ainda assim, alguns usuários relatam estar fazendo exatamente isso por acreditarem que o cigarro comum, por ser menos prático, acaba reduzindo a frequência de consumo.
A estratégia ganhou destaque em uma reportagem da Bloomberg publicada em 18 de setembro. A lógica relatada por alguns usuários é simples: enquanto o vape pode ser usado praticamente a qualquer momento, o cigarro convencional exige uma pausa, normalmente em um ambiente externo, além de deixar cheiro e produzir fumaça.
Essa diferença de praticidade faria com que algumas pessoas pensassem duas vezes antes de acender um cigarro. Com isso, usuários relatam que passaram a fumar menos na tentativa de diminuir gradualmente o consumo de nicotina.
O problema é que essa mudança não significa, necessariamente, que a dependência esteja sendo superada. Tanto os cigarros eletrônicos quanto os convencionais podem fornecer nicotina, substância que provoca dependência.
Pesquisa mostra que prática não é rara
Dados da organização britânica Action on Smoking and Health (ASH) indicam que recorrer ao cigarro convencional aparece entre as estratégias usadas por pessoas que tentam abandonar o vape. O levantamento ouviu mais de 13 mil adultos e mostrou que os cigarros tradicionais estão entre os métodos utilizados nesse processo, atrás de alternativas como adesivos e gomas de nicotina.
Segundo os dados citados na reportagem, quase uma em cada cinco pessoas que já tentaram parar de usar cigarro eletrônico afirmou ter recorrido ao cigarro convencional durante a tentativa.
Apesar desses relatos, isso não significa que voltar ao cigarro seja considerado um método seguro ou recomendado para abandonar o vape.
Cigarro convencional traz outros riscos
Especialistas em dependência de nicotina chamam atenção para uma diferença importante entre os dois produtos. O cigarro tradicional envolve a queima do tabaco, processo que produz fumaça e libera diversas substâncias tóxicas associadas a doenças cardiovasculares, respiratórias e ao câncer.
O pesquisador Elias Klemperer, da Universidade de Vermont, nos Estados Unidos, estuda justamente o uso combinado de cigarros e cigarros eletrônicos, além de estratégias para reduzir a dependência de nicotina. A instituição destaca que seus trabalhos analisam o chamado uso duplo, quando a pessoa utiliza os dois produtos.
Em pesquisa conduzida por Klemperer, o uso de terapia de reposição de nicotina, como adesivos e pastilhas, associado a apoio para interromper o consumo de cigarros e cigarros eletrônicos, apresentou resultados positivos para ajudar adultos jovens que utilizavam os dois produtos.
O risco do uso dos dois produtos
Outro ponto de preocupação é que a tentativa de trocar o vape pelo cigarro pode acabar não sendo uma substituição completa. Algumas pessoas podem continuar utilizando o cigarro eletrônico e acrescentar o cigarro convencional à rotina.
Esse comportamento, conhecido como uso duplo, mantém a exposição à nicotina e também acrescenta os riscos relacionados à combustão do tabaco. Pesquisas conduzidas por Klemperer têm justamente analisado os padrões desse tipo de consumo e os caminhos para a redução da dependência.
Por isso, especialistas não tratam o cigarro convencional como uma ferramenta de tratamento para quem deseja abandonar o vape. A experiência de alguns usuários de que o cigarro é menos conveniente pode explicar uma redução na frequência de consumo, mas não elimina os riscos nem garante que a dependência será interrompida.
Para quem pretende parar de usar nicotina, existem estratégias específicas de cessação, incluindo terapia de reposição de nicotina e acompanhamento profissional. Estudos recentes apontam que combinar essas abordagens com suporte para interromper o uso dos produtos de tabaco pode ajudar no processo de abandono.
*Da Agência Fonte Exclusiva








