Asma, dermatite atópica e rinossinusite crônica parecem doenças muito diferentes. Uma afeta principalmente as vias respiratórias, outra provoca lesões e coceira na pele e a terceira compromete nariz e seios da face. Em parte dos pacientes, porém, essas condições podem compartilhar um mecanismo em comum: a chamada inflamação tipo 2.
Trata-se de uma resposta do sistema imunológico que normalmente participa da defesa do organismo, especialmente contra parasitas e em respostas a alérgenos. O problema aparece quando essa via se mantém excessivamente ativa e passa a contribuir para um processo inflamatório crônico.
Nesse mecanismo, substâncias produzidas pelo próprio sistema imunológico, chamadas citocinas, têm papel importante. Entre as principais estão as interleucinas IL-4, IL-5 e IL-13. Elas participam da ativação de células como eosinófilos, mastócitos e linfócitos e podem aumentar a produção de IgE, muco e outras respostas inflamatórias.
A inflamação tipo 2 está relacionada a diferentes doenças, entre elas dermatite atópica, alguns tipos de asma, rinossinusite crônica com pólipos nasais e esofagite eosinofílica. Uma mesma pessoa pode apresentar mais de uma dessas condições ao longo da vida.
Isso ajuda a explicar, por exemplo, por que algumas pessoas com dermatite atópica também desenvolvem rinite ou asma. Não significa, entretanto, que todo paciente com essas doenças tenha exatamente o mesmo mecanismo imunológico ou que exista uma única causa para todos os casos.
Na asma, essa diferença é particularmente importante. A doença possui diferentes perfis. Segundo a estratégia internacional GINA 2026, evidências de inflamação tipo 2 são encontradas na maioria das pessoas com asma grave, frequentemente acompanhadas por aumento de eosinófilos no sangue ou no escarro e por níveis elevados de óxido nítrico exalado, conhecido como FeNO. Outros pacientes podem apresentar padrões inflamatórios diferentes.
Na dermatite atópica, IL-4 e IL-13 têm papel central na inflamação e também na alteração da barreira de proteção da pele. Isso contribui para ressecamento, inflamação e coceira persistente. A doença, porém, também é complexa e envolve fatores genéticos, ambientais e outras vias imunológicas.
Fatores ambientais podem piorar os sintomas
Ácaros, pólen, mofo e proteínas de animais podem desencadear sintomas em pessoas sensibilizadas a esses alérgenos. Fumaça de cigarro, poluição atmosférica, queimadas e determinadas substâncias irritantes também podem agravar doenças respiratórias mesmo quando não existe uma alergia específica.
Isso não significa que esses fatores sejam necessariamente a causa da inflamação tipo 2 em todas as pessoas. Predisposição genética, funcionamento da barreira da pele e das mucosas, infecções e características individuais também participam do desenvolvimento dessas doenças.
Os impactos podem ir além dos sintomas mais visíveis. Coceira intensa durante a noite pode prejudicar o sono de pessoas com dermatite atópica, enquanto tosse, chiado e falta de ar podem interromper o descanso de pacientes com asma. Quando persistentes ou mal controladas, essas condições podem afetar atividades cotidianas, rendimento escolar ou profissional e qualidade de vida.
Tratamentos ficaram mais específicos
O avanço na compreensão da inflamação tipo 2 modificou também a forma de tratar casos mais graves. Além dos medicamentos tradicionais, existem hoje imunobiológicos capazes de bloquear partes específicas da resposta inflamatória.
Na asma grave, por exemplo, diferentes medicamentos podem atuar sobre IgE, IL-5, o receptor de IL-5, o receptor compartilhado por IL-4 e IL-13 ou a TSLP. A escolha depende das características clínicas do paciente, da frequência das crises, dos tratamentos já utilizados e de biomarcadores identificados durante a avaliação médica.
Na dermatite atópica moderada ou grave, terapias direcionadas a determinadas vias imunológicas também passaram a fazer parte das opções de tratamento. Diretrizes da Academia Americana de Dermatologia incluem diferentes medicamentos sistêmicos e imunobiológicos para pacientes selecionados.
Esses medicamentos, no entanto, não são necessários para todas as pessoas com doenças associadas à inflamação tipo 2. Muitos pacientes conseguem controle adequado com tratamentos convencionais e medidas específicas para cada doença.
Também não é recomendável interromper tratamentos ou recorrer repetidamente a corticoides por conta própria. O risco de efeitos adversos varia conforme o tipo de corticoide, a dose, a via de administração e o tempo de uso. Corticoides sistêmicos usados repetidamente ou por períodos prolongados merecem atenção especial e, na asma grave, são reservados como última alternativa de manutenção devido ao risco de efeitos importantes.
Mais do que uma doença específica, portanto, “inflamação tipo 2” descreve um mecanismo do sistema imunológico. Reconhecer esse padrão pode ajudar os médicos a compreender por que determinadas doenças aparecem juntas e, principalmente nos casos moderados ou graves, selecionar tratamentos mais direcionados.
O diagnóstico e a escolha do tratamento dependem da avaliação de cada paciente. Ter asma, dermatite ou rinossinusite não significa automaticamente apresentar o mesmo perfil inflamatório, e exames ou medicamentos específicos só fazem sentido quando há indicação clínica.
Compartilhe este conteúdo do Portal VIU! , o melhor site de notícias do Estado do Rio de Janeiro






