Autoridades de saúde nos Estados Unidos têm chamado atenção para uma alergia pouco conhecida, mas potencialmente grave, ligada a picadas de carrapato. A condição é chamada de síndrome alfa-gal e pode fazer com que a pessoa desenvolva reação alérgica após consumir carne vermelha e outros produtos derivados de mamíferos.
Diferentemente de doenças transmitidas por carrapatos, como infecções causadas por bactérias ou vírus, a síndrome alfa-gal não é provocada por um microrganismo. Ela ocorre quando o sistema imunológico passa a reagir contra uma molécula de açúcar chamada alfa-gal.
Essa molécula está presente na maioria dos mamíferos, como bois, porcos, cordeiros, coelhos e veados. Ela não é encontrada naturalmente em humanos e em outros primatas. Também pode estar presente na saliva de alguns carrapatos.
O problema começa quando o carrapato pica a pele e introduz a molécula no organismo. Em algumas pessoas, isso leva à produção de anticorpos contra o alfa-gal. Depois disso, o consumo de carne de mamíferos ou de produtos que contenham essa molécula pode desencadear uma reação alérgica.
Uma característica que dificulta a identificação da síndrome é o tempo de reação. Ao contrário de outras alergias alimentares, que costumam aparecer logo após a ingestão do alimento, os sintomas da alfa-gal geralmente surgem algumas horas depois da refeição.
Entre os sinais mais relatados estão urticária, coceira, inchaço, tontura, náuseas, vômitos, diarreia, dor abdominal e dificuldade para respirar. Em casos mais graves, pode ocorrer anafilaxia, uma reação alérgica intensa que exige atendimento médico imediato.
A alergia costuma estar associada ao consumo de carne bovina, suína, cordeiro e outras carnes de mamíferos. Aves, peixes, frutos do mar e ovos não costumam provocar a reação, porque não contêm alfa-gal da mesma forma que os mamíferos.
Algumas pessoas também precisam evitar leite, queijo, manteiga, gelatina e produtos feitos com subprodutos animais. A restrição varia conforme a gravidade da alergia e deve ser orientada por profissional de saúde.
O diagnóstico é feito a partir da combinação entre sintomas, histórico clínico e exame de sangue para detectar anticorpos contra alfa-gal. O teste isolado, porém, não basta para confirmar a condição, já que algumas pessoas podem ter resultado positivo sem apresentar sintomas.
Nos Estados Unidos, a síndrome tem sido associada principalmente ao carrapato estrela solitária, comum no leste e no sul do país. Pesquisadores também investigam o possível envolvimento de outras espécies de carrapatos.
O aumento de casos pode estar ligado a dois fatores: maior conhecimento sobre a doença entre médicos e pacientes e expansão da área de circulação dos carrapatos. Estimativas dos Centros de Controle e Prevenção de Doenças indicam que centenas de milhares de pessoas podem ter sido afetadas pela síndrome alfa-gal nos Estados Unidos.
O tratamento mais comum envolve evitar alimentos e produtos capazes de provocar reação. Pessoas com risco de reações graves podem receber orientação médica para carregar epinefrina, usada em emergências alérgicas.
Em 2024, a agência reguladora dos Estados Unidos aprovou o uso do Xolair para reduzir reações alérgicas causadas por exposição acidental a alimentos. O medicamento não cura a síndrome alfa-gal, mas pode ajudar a diminuir o risco de reações graves em alguns pacientes, conforme avaliação médica.
Em parte dos casos, a alergia pode diminuir com o passar dos anos. No entanto, novas picadas de carrapato podem manter ou piorar a sensibilidade. Por isso, a prevenção segue sendo uma das medidas mais importantes.
Especialistas recomendam cuidados como usar roupas que protejam a pele em áreas de mata ou grama alta, aplicar repelentes adequados, verificar o corpo após atividades ao ar livre e remover carrapatos com cuidado quando encontrados.
A síndrome alfa-gal ainda é pouco conhecida fora dos círculos médicos especializados. Por isso, pessoas que apresentam reações repetidas após comer carne vermelha, especialmente se já tiveram picadas de carrapato, devem procurar avaliação médica para investigar a causa dos sintomas.
*Da Agência Fonte Exclusiva








