O número de afastamentos do trabalho por transtornos mentais vem crescendo de forma expressiva no Brasil. Dados do Ministério Público do Trabalho (MPT) mostram que, entre 2022 e 2024, houve aumento de 134% nesses afastamentos, considerando apenas trabalhadores segurados pelo INSS com afastamento superior a 15 dias — período mínimo para concessão de benefícios previdenciários. Trabalhadores informais e servidores de regimes próprios, como militares, não foram incluídos na pesquisa.
Especialistas apontam que a sobrecarga de trabalho é um dos principais fatores para o adoecimento mental. De acordo com o psicólogo e professor da PUC-RJ, Matheus Karounis, prazos irreais e acúmulo de tarefas provocam estresse crônico, que pode evoluir para problemas graves de saúde. Além disso, a falta de autonomia sobre o próprio trabalho aumenta os impactos negativos na saúde psicológica do trabalhador.
O caso de Mariana Alves, de 30 anos, ilustra essas condições. Líder de loja, ela acumulava funções de gerente e atendia demandas sem limites de horário. “Eu fazia de tudo: conferia caixa, fazia depósitos, coordenava equipe, atendia clientes, ligava para técnicos, organizava almoço… Não havia fim para as tarefas”, relata. Mariana trabalhava além da jornada e respondia a solicitações nos dias de folga, até desenvolver sintomas severos de Burnout. “Eu não sabia o que era. Literalmente travei. Escutava vozes me chamando, mas não conseguia me mexer. Cheguei a ficar sem falar, como se fosse uma estátua”, lembra.
Segundo o MPT, os setores mais afetados são administração pública (14,9%), bancos múltiplos com carteira comercial (14,8%), atividades hospitalares (8,9%) e transporte coletivo rodoviário urbano (7,63%). Esses números evidenciam como diferentes ambientes de trabalho contribuem para o surgimento de transtornos mentais e comportamentais.
O Ministério da Previdência Social informou que mantém registros sobre benefícios por incapacidade temporária relacionados a transtornos mentais. Já o Ministério do Trabalho anunciou planos de ações preventivas, incluindo capacitação de servidores, divulgação da Cartilha Amarela, seminários e fiscalizações em todo o país.
Uma medida significativa será a inclusão dos fatores de risco psicossociais na Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1), que trata do Gerenciamento de Riscos Ocupacionais, a partir de 26 de maio de 2026, conforme a Portaria MTE nº 1.419/2024. A atualização visa ampliar a proteção aos trabalhadores e reduzir os impactos desses riscos na saúde mental.
A Associação Brasileira de Psiquiatria foi procurada para comentar o tema, mas não havia se manifestado até a publicação desta reportagem.
*Da Agência Fonte Exclusiva








