Meu avô, Ignácio Barbosa, nasceu em 1897. Ao morrer, em 1982, aos 102 anos, já tinha vivenciado grandes acontecimentos no breve século XX.
Acompanhou a primeira guerra mundial, seguida da revolução russa de 1917, um dos grandes acontecimentos da história que dividiria o mundo, fora da teoria, em dois campos: socialismo e capitalismo.
Acompanhou também a 1ª e 2ª Guerra Mundial. Chegou a ser convocado para combater as forças de Hitler em 1945, mas foi dispensado por ter mais de 44 anos quando o Brasil ingressou no conflito ao lado das tropas aliadas.
Iniciou a vida como campeiro. Tornou-se um dos melhores amansadores de cavalos. Empreendeu como fornecedor de querosene na região de Guarus, em Campos (RJ), quando a luz era mantida por meio de lampiões.
Ganhou dinheiro para constituir um armazém. Pendurou a chuteira quando a idade determinou que parasse e tornou-se um exímio frasista e dono de uma boa conversa. Tinha história para contar. Nesta fase o nome original passou pelo batismo da língua viva. Já estava popularizado como “Velho Inácio” e ao chegar perto de completar um século de vida, era simplesmente Veinácio.
Mas, talvez, o evento mais marcante na longa vida de Ignácio, tenha sido a Gripe Espanhola, a pandemia que matou cerca de 100 milhões de pessoas no mundo entre 1918 e 1919. Ele sobreviveu a este período e lembrava que faltava coveiros para sepultar corpos. Aqui surge o receituário para enfrentar a insensatez bolsonarista.
A GRIPE MATOU BRIZOLA
A Gripe Espanhola proliferou-se em função das condições de higiene da sociedade no período. A partir daí a política sanitarista ganharia protagonismo, introduzindo hábitos que ajudariam a enfraquecer o vírus. O simples hábito de lavar as mãos com frequência, por exemplo, ganhou grande importância na campanha de saúde pública.
A humanidade ganhou resistência contra pandemia, mas a gripe ainda é uma preocupação, porque sendo mal curada, pode matar.
Poucos sabem, mas a gripe que nos atinge cotidianamente é uma variação do vírus da Gripe Espanhola. O nosso tem mais anticorpos para resistir, contudo, ainda mata desavisados.
O ex-governador do Rio, Leonel Brizola, para quem não sabe, morreu em decorrência de uma gripe mal curada, em 2004, segundo me relatou o seu neto Carlito Brizola.
O ex-governador tinha um histórico de vulnerabilidade: era idoso e não gostava muito de frequentar consultórios médicos. Também não se importava com as especialidades clínicas. Quando deveria se consultar rotineiramente com um geriatra, estava se consultando com um pediatra, com quem estava mais habituado.
OUÇA QUEM SABE
Meu avô sobreviveu aos eventos que provocaram mortes e grandes destruições, porque não contestava o óbvio. Gostava de falar com pessoas entendidas sobre temas que desconhecia.
Segundo ensinava, a escolha correta dava mais chances de vencer a corrida contra o tempo. Isso explica como conseguiu ganhou do tempo por mais de um século.
Diante do coronavírus, a pandemia que nos aprisiona nesses tempos modernos, Ignácio teria cuidados redobrados, porque costumava ser vigilante diante do desconhecido.
A INSENSATEZ É BOLSONARISTA
O coronavírus continuará desafiando a ciência por uns tempos e punindo os que ousam ignorar o perigo. Ainda há muito caminho a percorrer até descobrir a origem do vírus e as mutações que poderão sofrer ao longo dos anos.

Até lá, o mais sensato é seguir o receituário do velho Ignácio, que durante a gripe espanhola, recolheu-se dentro de casa, esperando a poeira baixar.
O mais insensato é o receituário do presidente Jair Bolsonaro, que esteve na companhia de pessoas infectadas e atropela todas as recomendações das autoridades de saúde do próprio governo, reunindo seguidores em eventos públicos, ocasiões propícias para disseminar o vírus.
Nos tempos do velho Ignácio seria um forte candidato a enfrentar umas lambadas de gurumbumbas, assim como seus simpatizantes ouviriam o velho ditado: “passarinho que acompanha João de Barro, vira ajudante de pedreiro,” com todo respeito aos peões de obra.
A proliferação do coronavírus no Brasil à luz da sabedoria do velho Ignácio, por enquanto, só nos deixa uma certeza: a insensatez é bolsonarista.








