Sinto um cansaço em exaustão permanente e imobilizadora. Não o cansaço natural de quem acabou de chegar de uma guerra ou de quem tão somente viveu.
Meu corpo pesa. É como um fardo que arrasto, deixando rastros profundos, pegadas inconfundíveis de um caminhar incômodo, solitário.
Meu cansaço não deixa de ser a vida que me coube viver, a partir do momento quando vi a luz e as pessoas que me cercavam em tolas e irresponsáveis expectativas e votos de boas vindas. O futuro teria se instalado ali, negligente, esbanjando felicidade, a vida vivida entre as cores do arco-íris. Meu choro em gritos e berros apontavam um cenário bem diferente. Estávamos num presente iniludível.
Viver é uma capacitação, um dom, um talento para transformar o choro em risada escancarada. E disso não depende de desejos, de votos de felicidade, como se num truque de mágica a realidade pudesse se alterada.
Quem nasceu com a marca da sensibilidade, de aguda percepção, com uma vontade louca de amar e ser amado, com a necessidade de apaixonar-se, estará sempre frente ao vazio de onde poderá surgir inesperadamente um rosto de quem se possa decifrar mensagens e sentidos.
E inesperadamente é um corpo que se materializa e que decide oferecer-se a mim, talvez na disposição de uma entrega equivocada, apressada. Não saberia o que fazer com aquele corpo.
Mas a dor e o cansaço são instigadores do meu caminhar fatal. Poderia ser para a morte. No entanto, escolhi estar na paisagem do mundo, ainda que desconfortavelmente, e ao mesmo tempo em que me distraio com minha capacidade de ser em potencial. Ser em absoluto. Isso é o que me consola. Tenho uma pergunta: todos os corpos sofrem a dor de existir?
A dor é assustadora. Causa perplexidade. Medo. A dor é o mistério por trás da criação. Como ser amado, carregando o estigma da diferença, provocadora e assustadora? Como ser amado sendo arauto do incompreensível? Como ser amado sendo uma ameaça, uma aberração? Quem se atreveria a aproximar-se? Vejo que a solidão se aproxima! Ela quer minha companhia, meu Deus!
O fardo da solidão traz consigo a totalidade cósmica, munida de signos, sentidos que só eu poderei descodificá-los. Carregar o mundo, e sua profunda significação, pode fazer de mim – soará um paradoxo – um profeta sem mensagens, sem provérbios, sem parábolas. Incapaz de bisbilhotar o futuro.
A revelação do futuro, tarefa do profeta, atrai rostos, corpos, tomados de uma enorme ânsia de garantir-lhes o presente para arquitetar, manipular e garantir seu espaço no melhor dos futuros longínquos.
Pensam que estão diante de um Deus. Que sou a solução para essa química complexa. Corpo, amor, paixão, desejo, presente, futuro. Os amantes se enganam quando se inquietam na busca de respostas para o amor eterno.
A paixão autêntica deve alimentar-se de perguntas. A pergunta é êxtase que aproxima ainda mais os amantes, não a aproximação rotineira que vai dar na cama entre gemidos de prazer. A pergunta é mobilizadora, desafiante, solidária, e a aproximação será um encontro de atenção, interesse mútuo. Uma troca que se renovará.
A aproximação deverá ser aquela em que os olhos se atraem, movidos por uma emoção incontida. A pergunta é acompanhada de uma descarga emocional, afetiva, porque ela deixa transparecer um mundo que vai atingir o corpo e a alma.
Só o Oráculo é capaz de me trazer de volta ao mundo, sem a carga incômoda da solidão. Na presença de todos os deuses possíveis, só enxergo o futuro e sua extensão em forma de eternidade, sem corpo e sem alma, quando me será possível deter-me diante de tua esfinge, tua silhueta.
Prostrado a teus pés, vou te venerar e esperar a tua pergunta capaz de ecoar na imensidão do espaço. Mudar nossas vidas. Mas não, teu silêncio é súplica que implora que eu soletre a pergunta estonteante: por que te amo? Os deuses, como testemunhos, não ousam intrometer-se entre nós e nem esboçar a possibilidade de uma resposta. Ninguém tem o direito de dar exposição a esta resposta e torná-la vulgar, colocá-la ao alcance de quem não saberá guardá-la em segredo.
Os deuses não passam de mudos espectadores de uma linda história de amor. Não mais me canso. Não mais um caminhar solitário. Minha capacidade, meu talento, meu dom serão colocados a favor de uma vida como quem vive um conto de fadas.









