Há uma crença absoluta, por parte de alguns candidatos nas eleições municipais de 2020, que a rede social é uma ferramenta milagrosa, com poder suficiente de entronizar políticos em mandatos eletivos.
Essa crença é turbinada pelo fator desconhecimento, porque apesar de vivermos em uma sociedade conectada, a ignorância sobre os meandros do universo digital é grande, principalmente entre a classe política.
A crença sem conhecimento promove a criação de mitos e a rede social como plataforma absoluta em processo eleitoral é um desses mitos.
É uma ferramenta poderosa, inegavelmente, porque o smartphone, principal meio de conexão, é um veículo de massa. Tudo mundo tem um para chamar de seu. Com esse mundo na palma da mão, é possível obter grande alcance em temos de divulgação, basta pagar que o algoritmo do Facebook ou Instagram faz o serviço.
Só que essas ferramentas precisam de conteúdo narrativo, todo um aparato ancorado por pesquisas e técnicas que permitam unificar uma rede de crenças, ideologias e expectativas altamente segmentadas. É um trabalho que demanda tempo e investimento. Por isso, não é recomendável se iludir com curtidas, afinal o voto que elege precisa ser combinado com o eleitor.
No universo político, a rede social tem se demonstrado mais poderosa no processo de desconstrução de imagem do que propriamente de construção. Favorece, na verdade, o fortalecimento de personagens que capitalizam as insatisfações decorrentes da desconstrução.
Bolsonaro, por exemplo, foi muito mais favorecido nas eleições de 2018 pela desconstrução contínua do PT do que propriamente pela construção de sua imagem pessoal. E vamos combinar: neste processo de desconstrução a narrativa da Operação Lava Jato com apoio da mídia tradicional deu um impulso e tanto. O capitão chegou à presidência graças ao cerco midiático e judicial contra o seu principal adversário.
Não estamos diante de um processo que se constrói da noite para o dia ou com o festival de políticos encantados com 15 minutos de fama em lives, algo, que por sinal, está poluindo as redes sociais. Desconstrução de adversário em paralelo ao personagem em construção é um processo sistêmico, que começa muito antes do calendário eleitoral.
Nas cidades de médio e pequeno porte a rede social ajuda, mas o voto ainda será consolidado olho no olho. Por isso, nessas regiões, político com medo de coronavírus estará fora do jogo. Principalmente nas cidades do interior, onde o eleitor só consolida o voto no contato pessoal.
Não se trata aqui de menosprezar as redes sociais. São plataformas necessárias, mas é preciso esclarecer que grupos políticos, nominatas de candidatos ao legislativo e engajamento nas ruas ainda são fatores muito relevantes nas eleições, mesmo diante da pandemia. Rede social sem rua é conversa fiada, por isso, esta eleição tende a ser atípica.








