Pelo Brasil Império e pelo Brasil República passaram inúmeras personalidades públicas que se tornaram personagens que logo caíam nas graças e gosto popular. Eram indivíduos essencialmente performáticos que, a qualquer momento, poderiam estar no foco da notícia, seja por um gesto impensado, ou uma palavra inadvertida, ou porque um jornalista inventava meticulosamente um cenário dentro do qual situava uma celebridade do mundo político, imperialista ou republicana, com duas, três frases de efeito.
No Brasil República, políticos, de uma maneira geral, e o presidente, em particular, eram alvos fáceis das lentes dos fotógrafos, que logo geraram um texto a ser publicado em um tabloide sensacionalista.
Invariavelmente tratava-se de uma autêntica galeria de bizarrices que impactava o público observador, com olhos estupefatos. Eram brasileiros que pareciam não acreditar no que viam, ouviam e liam. Era difícil levar “esses atores” a sério.
Restava ao povo tomar as ruas, em tom de galhofas, comentar, à sua maneira, a agenda política da semana, cantando manchinhas, publicando charges, celebrando a realidade transformada em ficção, de forma irônica e bem humorada.
Na República, talvez, não tenha existido presidente que ultrapasse Bolsonaro, no ranking de patologia, como a idiotice e a irresponsabilidade. Quem sabe não será o ex-presidente Jânio Quadros quem consiga ultrapassar Bolsonaro nas fanfarronices de um palhaço em eterno desempenho num picadeiro.
Jânio Quadros foi o 22° presidente do Brasil e, mais que presidente, um “bobo da corte”, sempre prestes a chamar a atenção para a sua performance. Era um exímio criador de factoides midiáticos, o que o colocava como frequentador assíduo dos espaços na mídia, rádio e jornal principalmente. Um mestre inato da arte da comunicação, Jânio, no intuito de se manter diariamente na “ribalta”, utilizava factoides como a proibição do maiô e biquíni nos concursos de miss, a proibição das rinhas de galo, a proibição de lança-perfume em bailes de carnaval, e a tentativa de regulamentar o carteado, todas estas em vigor até hoje.
Para combater a burocracia, tomou emprestado a Winston Churchill, político conservador e estadista, tornando-se famoso, principalmente, por sua atuação como primeiro-ministro do Reino Unido durante a Segunda Guerra Mundial. Ele foi primeiro-ministro britânico por duas vezes. E foi durante a Segunda Guerra que Churchill cultivou o hábito de comunicar-se com ministros e assessores, diretamente, por meio de memorandos.
Essa pareceu uma ideia brilhante para o presidente Jânio Quadros, usar de bilhetinhos, que foram apelidados pela imprensa oposicionista de os “bilhetinhos de Jânio”. Funcionário ou ministro algum ousava ignorar. Adquirira esse hábito, que causou estranheza a alguns conservadores – e era até objeto de chacotas da oposição – no governo de São Paulo.
No entanto, é como vereador de São Paulo, que ele mostra sua verdadeira face de um político experiente e de rara inteligência. Isso porque, no período entre 1948 e 1950, ficou conhecido como o maior autor de proposições, projetos de lei e discursos de todas as casas legislativas do país, tendo assinado, ainda, no período, a grande maioria das propostas e projetos considerados favoráveis à classe trabalhadora.
Na sequência, foi consagrado como o deputado estadual mais votado, com mandato entre 1951 e 1953, a despeito de algumas de sua ideias retrógradas e conservadoras e antipopulares ele conseguiu avanços extraordinários em seu governo.
Elegeu-se deputado federal pelo estado do Paraná em 1958, mas viajou para o exterior e não participou de nenhuma das sessões do Congresso. Ao retornar, preparou sua candidatura à presidência, com apoio da União Democrática Nacional (UDN). Utilizou como mote da campanha o “varre, varre vassourinha, varre a corrupção”.
Jânio chegou à presidência da República de forma muito veloz. Assumiu a presidência (pela primeira vez a posse se realizava em Brasília) em 31 de janeiro de 1961 e renunciou em 25 de agosto do mesmo ano.
Embora tenha feito um governo curtíssimo – que só durou sete meses – pôde, nesse período, traçar novos rumos à política externa e orientar, de maneira singular, os negócios internos.
A posição ímpar de Cuba nas Américas após a vitória de Fidel Castro mereceu sua atenção. Comenta Hélio Silva em A Renúncia: “Foi em seu Governo, breve mas meteórico, que se firmaram diretrizes tão avançadas que, muitos anos passados, voltamos a elas, sem possibilidade real de desconhecer as motivações que as inspiraram”.
Em São Paulo, exerceu sucessivamente os cargos de vereador, deputado, prefeito da capital e governador do estado. Tinha um estilo político exibicionista, dramático e demagógico. Conquistou grande parte do eleitorado, prometendo combater a corrupção e usando uma expressão por ele criada: varrer toda a sujeira da administração pública. Por isso, o seu símbolo de campanha era uma vassoura:
varre, varre, varre, varre vassourinha / varre, varre a bandalheira / que o povo já tá cansado / de sofrer dessa maneira / Jânio Quadros é a esperança desse povo abandonado!. (Letra da música que embalou a campanha de Jânio)
Com a eclosão da Ditadura Militar, em 1964, ele foi um dos três ex-presidentes a ter seus direitos políticos cassados, juntamente com João Goulart e Juscelino Kubitschek.








