Aos 60 anos, vejo que a eternidade é uma sereia |
Idade é identidade que se constrói na teia silenciosa do tempo com a cumplicidade do espaço. Viver é um subtrair-se, pouco a pouco, a si mesmo, um subtrair-se intermitente, na determinante audiência do futuro.
Quando o tempo nos visita, de forma inexorável, autoritário, nos sentimos capazes, e com poder suficiente, de controlar a eternidade, tão presente na sinfonia das músicas e harmonias.
A eternidade é o canto da sereia, portal do desconhecido, implacável destino dos que se deixam envolver nas armadilhas de seu canto; que nos controla na sua escuta enlouquecedora, em mar revolto.
Nos rendemos a essa magia, sulcando os mares, na ilusão e esperança de um além do horizonte logo ali. Luta incansável pela vida. Sobrevivemos ao canto da sereia. Estamos seguros, em terra firme. Vencemos a sereia e o horizonte!
Essa loucura de estarmos vivos, quase como numa vitória olímpica, é preservar os recursos disponíveis para enganar a nossa finitude. Sem surpresas.
A vida é mais do que manifestação do instinto biológico. A cada aniversário que comemoraramos, estamos dando um passo a mais sobre a textura delicada e intrincada do futuro, manifestação do sobrenatural.
O futuro nunca deixará de ser um caminho para frente, sem muito a nos revelar, e que mesmo assim, será capaz de fazer o jogo da revelação/ocultação.
Talvez, assim, o futuro venha a se tornar menos temeroso, porque também, um dia, será lançado na conta do passado e se porá desnudo à especulação bisbilhoteira.
O presente, posicionado entre o passado e o futuro, espreitando um e outro, é ponto minúsculo, pressionado, com sua atenção dividida entre a reserva inerte do passado e o sonhar épico ou medíocre sobre o futuro, incógnito, e ao mesmo tempo respostas sem enigmas.
A cada ano, quando comemoramos nosso aniversário, amigos e familiares desejam ser cúmplices da vida, se esforçam por conspirar contra a morte tão real, tanto mais que nós, na coragem de celebrar a vida.
Cada ser que nasce traz consigo o tempo, que é só seu, único, e de mais ninguém; e a mãe é o único ser no mundo capaz de lidar com esse mistério, de protagonizar esse gesto dramático, de estar diante, (por vontade, força e coragem), de uma vida que será entregue ao tempo e ao espaço.
O abandono irresistível, irreparável! Ninguém faz o caminho de volta ao ventre da mãe! O drama humano, a maior tragédia da humanidade! Finalmente, a conclusão enigmática e perturbadora do filósofo: o sujeito não pertence ao mundo, mas é um limite do mundo.
Morte e vida, ambas submetidas ao tempo, ao relógio, à caneta.
Mas a caneta não é capaz de sozinha escrever a história, tanto quanto o relógio, que sóbrio, se arrasta em segundos e, de hora em hora, se solta em eternidade espetacular! Só o relógio será capaz de contar a história.
Do tempo não se deve buscar sua face, porque sua face está oculta, embora se revele na expressão solene e grave, quando somos mostrados na nossa grandeza e finitude fatal, na sequência da eternidade.








