A semana que passou teve um desenvolvimento singular que foi pouco notado no Brasil, muito provavelmente em função das distrações trazidas pelo envolvimento do jogador de futebol Neymar Junior em um imbróglio ainda muito mal explicado, apesar de já ter ocupado páginas inteiras nos veículos da mídia corporativa brasileira.
Falo aqui da decisão do empresário sueco Johannes Cullberg de banir produtos agrícolas das prateleiras da rede Paradiset (Paraíso) da qual ele é fundador e Chief Executive Officer (CEO).
Em uma espécie de prenúncio do que estar por vir em termos de um boicote mundial contra a produção agrícola nacional, Cullberg decidiu remover de suas prateleiras vários produtos originados do Brasil, entre eles manga, limão, água de coco, marcas de café e uma barra de chocolate que contém 76% de cacau brasileiro em sua composição.
A razão desse banimento foi a inconformidade de Johannes Cullberg com a liberação de 197 agrotóxicos pelo governo Bolsonaro.
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Fonte: Facebook
BOICOTE SERÁ INTENSIFICADO
Segundo o que Cullberg declarou à Rede França Internacional (RFI), não haveria como continuar a oferecer produtos brasileiros a seus clientes de consciência limpa, já que “a quantidade e o ritmo de liberação de agrotóxicos, muitos deles banidos na Suécia, estão aumentando tão fortemente no Brasil”.
“Por isso, decidimos imediatamente que eles sejam retirados de nossas prateleiras para, como sempre, oferecer a sacola de alimentos mais sustentável e limpa da Europa”, disse Cullberg.
Nessa mesma entrevista, Cullberg anunciou que estava tentando convencer a que outros empresários ligados ao seu ramo também retirassem os produtos brasileiros de suas prateleiras.
SILÊNCIO NA MÍDIA
Algo que não vi nenhum veículo da mídia corporativa brasileira abordar é a singularidade da decisão de um empresário sueco que vive a mais de 10.000 km de distância do Brasil em relação a todos os seus congêneres nacionais que vendem alimentos contendo resíduos de agrotóxicos altamente tóxicos como se nada de diferente estivesse acontecendo.
É como se os donos das redes de supermercados brasileiras não tivessem nada a ver com o fato de que estão entregando alimentos que em muitos casos são uma receita garantida para uma série de doenças altamente graves, a começar por vários tipos de câncer e disfunções do sistema endócrino.
NÚCLEO BOLSONARISTA
Para entender um pouco dessa aparente letargia em exigir que haja um freio na aprovação de um conjunto de substâncias que já foram banidas em outras partes do mundo após terem sido associadas ao adoecimento de seres humanos, há que se ver como vem se comportando os donos das cadeias brasileiras de supermercados no plano político, e especificamente na aprovação das contrarreformas que hoje ameaçam regredir os direitos sociais dos brasileiros para o Século XIX.
Um bom exemplo foi a chamada reforma trabalhista onde vários desses proprietários se jogaram de cabeça na aprovação de medidas que incluíam o chamado trabalho intermitente, a terceirização universal, e a desobrigação de pagar horas extras.
Parte significativo do setor também apoiou fervorosamente a campanha presidencial do agora presidente Jair Bolsonaro.
Em alguns casos específicos, e que não foram devidamente punidos pela justiça eleitoral, grandes redes de supermercados, especialmente na região Sul, não só pressionaram seus empregados a votar em Jair Bolsonaro, mas como também utilizaram seu merchandising para conclamar a população a votar no candidato que viria a vencer a eleição.
Da mesma forma, parte significativa do setor apoia a contrarreforma da previdência que lhes desobrigará de contribuir para o sistema previdenciário, deixando os seus empregados (hoje terceirizados e/ou intermitentes) à mercê de um sistema de capitalização privada que não lhes garantirá aposentadorias que lhes permita, por exemplo, continuar a comprar gêneros de primeira necessidade.
Já que no Brasil me parece evidente que faltam empresários como o mesmo nível de consciência social e ambiental de Johannes Cullberg, a nossa única saída será apostar no fortalecimento da mobilização social, de modo a pressionar os donos das redes de supermercados para que eles parem de se omitir em relação ao apocalipse químico que está sendo criado por um modelo agrícola viciado em produtos químicos que o resto do mundo já não quer.
A questão é que ou fazemos isso ou continuaremos sendo envenenados sem que tenhamos sequer o direito de saber com quantos agrotóxicos.
Finalmente, quem desejar saber mais da campanha de boicote contra os produtos brasileiros, promovidos por Johannes Cullberg, basta ir à rede social Facebook e procurar pelo grupo “#BoycottBrazilianFood”. E agradecer a ele por se preocupar com a nossa saúde não faria mal a ninguém.








