O governador interino Ricardo Couto descobriu o que todo fluminense já sabia: no Palácio Guanabara há mais gordura que músculo. Desde que assumiu, promoveu uma onda de exonerações que já passou da casa das 800 dispensas, mirando comissionados, estruturas paralelas e penduricalhos administrativos que sobreviveram por anos como se fossem patrimônio tombado.
Na quarta-feira, 29 de abril, a caneta continuou afiada. A tesoura alcançou áreas sensíveis como Saúde, com troca no comando da secretaria, e também a Procuradoria-Geral do Estado e a Secretaria da Fazenda, onde cadeiras foram rearrumadas no tabuleiro emergencial do interinato.
Tudo muito vistoso. Tudo muito fotogênico. Tudo muito manchete.
Mas a cozinheira avisa: faxina que só limpa sala de visita não merece aplauso. O verdadeiro teste começa quando Couto resolver abrir a porta dos cômodos trancados.
E um deles atende pelo nome de Corregedoria da Secretaria de Fazenda.
Ali, segundo relatos insistentes dos corredores refrigerados do poder, funciona uma espécie de tribunal seletivo: rigor para uns, blindagem para outros. Quando o alvo é servidor sem padrinho, a lei corre. Quando o assunto encosta em figurões do sistema, a burocracia manca, tropeça e some no arquivo morto.
Esqueletos de Carbono Oculto e Poços de Lobato
Nada exatamente surpreendente numa secretaria que já apareceu no radar de operações como Carbono Oculto e Poços de Lobato, ambas citadas nos bastidores como retratos de um ambiente historicamente permeável à influência externa e interna. A Fazenda fluminense há tempos deixou de ser apenas órgão arrecadador. Virou campo de disputa entre grupos, interesses e operadores de luxo.
Entre os nomes sussurrados em voz baixa nos cafés institucionais está o empresário Ricardo Magro, controlador da problemática Refit, velha conhecida quando o assunto é litígio tributário, controvérsia fiscal e fumaça política demais para pouca chama oficial.
Ninhos de morcegos
Se Couto quer mesmo entrar para a história como o homem que peitou o sistema, precisa sair do conforto das exonerações em massa e avançar sobre os feudos intocados: Detran, Inea, Ipem.
Autarquias e fundações que, em muitos casos, funcionam como capitanias hereditárias de parlamentares que juram não mandar nada — enquanto indicam tudo.
Nos corredores da Praça Mauá, onde fica a Superintendência da Polícia Federal, o humor mudou. Tem deputado dormindo leve, celular no silencioso e ouvido atento ao interfone. O medo não é da oposição. É da campainha às seis da manhã.
Couto tem pouco tempo. Interinos vivem de prazo curto e resistência longa.
Se quiser deixar legado, precisa entender que o problema do Rio nunca foi excesso de papel. Foi excesso de dono dentro do Estado.








