Depois de participar diretamente das negociações que transformaram a Hungria em uma base estratégica para a BYD na Europa, Péter Szijjártó passará a trabalhar para a própria montadora chinesa.
O ex-ministro das Relações Exteriores anunciou nesta quarta-feira (15) a renúncia ao mandato parlamentar e o início de uma nova etapa profissional no setor privado.
Szijjártó informou pelas redes sociais que recebeu uma proposta de destaque para ocupar uma função executiva internacional. Na BYD, ficará responsável pelas relações externas do grupo e pelo desenvolvimento de novas áreas e oportunidades de negócios.
Ao comunicar a mudança, o ex-chanceler classificou a empresa como uma das principais histórias de crescimento da indústria automobilística nas últimas duas décadas. A fabricante chinesa tornou-se uma das líderes mundiais no segmento de veículos de novas energias, que reúne modelos totalmente elétricos e híbridos plug-in.
A contratação encerra mais de duas décadas de atuação de Szijjártó no Parlamento húngaro. Ele ocupava uma cadeira desde 2002 e comandou o Ministério das Relações Exteriores e do Comércio durante quase 12 anos no governo de Viktor Orbán.
O político deixou o ministério após a vitória do partido Tisza, liderado por Péter Magyar, nas eleições de abril de 2026. Mesmo fora do governo, permaneceu como deputado até anunciar a transferência para a BYD.
Relação com a BYD começou no governo
Durante o período em que comandou a política externa e comercial da Hungria, Szijjártó exerceu papel central na aproximação econômica do país com a China.
Uma das prioridades do antigo governo era atrair grandes investimentos asiáticos e transformar o território húngaro em uma porta de entrada para empresas interessadas no mercado da União Europeia.
Szijjártó participou diretamente das negociações para a instalação da primeira fábrica europeia de automóveis de passeio da BYD em Szeged, no sul da Hungria. Segundo o próprio ex-ministro, foram realizadas 224 rodadas de conversas entre a companhia e o governo antes da confirmação do projeto.
A unidade deverá iniciar a montagem de veículos no quarto trimestre de 2026. A produção local ajudará a empresa chinesa a ampliar sua presença no continente e a reduzir a exposição às tarifas europeias aplicadas aos veículos importados da China.
A BYD também decidiu estabelecer em Budapeste sua sede empresarial europeia e um centro de pesquisa e desenvolvimento. Os projetos deverão concentrar atividades como vendas, serviços de pós-venda, certificação, testes, desenvolvimento de tecnologias e adaptação dos veículos às exigências do mercado europeu.
A estrutura prevista para a capital húngara poderá criar cerca de 2 mil empregos qualificados. Os projetos de pesquisa serão desenvolvidos em cooperação com universidades, empresas emergentes e fornecedores locais.
Além da fábrica de automóveis em Szeged, a companhia mantém uma unidade de ônibus elétricos em Komárom e outras instalações no país.
Contratação provoca críticas políticas
A transferência de Szijjártó para a BYD provocou questionamentos sobre a relação entre sua atuação no governo e a oportunidade profissional oferecida pela empresa.
O primeiro-ministro Péter Magyar afirmou que o ex-chanceler estaria passando a representar interesses estrangeiros. Ele também lembrou que Szijjártó participou das negociações para a concessão de incentivos públicos aos projetos da montadora.
Segundo a Associated Press, o governo anterior ofereceu apoio financeiro à expansão da BYD no país. O projeto da sede europeia e do centro de pesquisa recebeu a previsão de 20 bilhões de forints em assistência estatal, valor equivalente a aproximadamente US$ 63,7 milhões na cotação mencionada pela agência.
Os valores relacionados à construção da fábrica de Szeged não foram detalhados publicamente.
As críticas levantam dúvidas sobre possíveis conflitos de interesse envolvendo um ex-integrante do governo que passa a trabalhar para uma companhia beneficiada por políticas e incentivos negociados durante sua gestão.
Até o anúncio da contratação, porém, não haviam sido apresentadas provas de ilegalidade. A oferta da BYD e a aceitação do cargo foram divulgadas como uma decisão profissional, e Szijjártó não informou a existência de qualquer impedimento jurídico para assumir a função.
A montadora também não detalhou publicamente a remuneração, a sede de trabalho ou a estrutura administrativa à qual o novo executivo estará subordinado.
Experiência diplomática apoiará expansão europeia
A chegada de Szijjártó ocorre enquanto a BYD acelera sua expansão na Europa e busca ampliar a produção dentro do próprio continente.
A experiência acumulada pelo ex-chanceler em negociações internacionais poderá ser utilizada na interlocução com governos, órgãos reguladores, instituições europeias e parceiros empresariais.
Sua nova função deverá envolver a identificação de mercados, a construção de alianças comerciais e o desenvolvimento de projetos em países onde a empresa pretende aumentar suas operações.
A BYD enfrenta um ambiente europeu marcado por forte concorrência, exigências ambientais e tarifárias e pressões para que fabricantes estrangeiros instalem unidades produtivas e centros tecnológicos na região.
A produção na Hungria representa uma parte importante dessa estratégia. A empresa informou que o país é atualmente sua principal prioridade industrial na Europa e já avalia a instalação de uma segunda unidade de fabricação no continente.
Para Szijjártó, a mudança encerra uma trajetória política iniciada formalmente no Parlamento em 2002. Durante esse período, ele se tornou um dos principais representantes da política externa de Viktor Orbán e um defensor da aproximação econômica com a China.
Agora, o ex-ministro utilizará essa experiência dentro de uma das empresas que ajudou a atrair para a Hungria. A contratação amplia a presença da BYD no ambiente político e empresarial europeu, mas também deverá manter aberto o debate sobre os limites entre a atuação pública e as oportunidades oferecidas posteriormente pelo setor privado.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








