“Israel… Israel… Uma canção, uma lágrima. Israel!”
A simplicidade dos versos ecoa como oração. A marchinha “Israel”, composta em 1972 por João Roberto Kelly e Rachel, ultrapassa os limites do Carnaval para se firmar como uma peça de forte densidade simbólica. Gravada pela CBS e transformada em grande sucesso do Carnaval de 1973 na voz de Emilinha Borba, a música mistura lirismo, memória e identidade.
O verso “um violinista no telhado tocando a canção que vem do céu” não é fortuito. Trata-se de uma referência direta ao musical Fiddler on the Roof, adaptação cinematográfica da obra da Broadway lançada em 1971. A figura do violinista sobre o telhado simboliza equilíbrio em meio à instabilidade — metáfora da experiência histórica do povo judeu, marcada por diásporas, perseguições e resistência cultural.
Ao incorporar essa imagem, a marchinha conecta o Carnaval brasileiro a uma narrativa universal de tradição e sobrevivência. “Meu sentimento, minha saudade / Israel!” não é apenas um refrão: é declaração afetiva, tributo à memória coletiva e às lutas que atravessam séculos.
O contexto de lançamento também adiciona camadas de significado. O retorno de Emilinha Borba aos holofotes, após um período pessoal difícil, reforça o simbolismo de superação. A cantora, conhecida como a “Rainha do Rádio”, imprime à interpretação uma emoção que transborda orgulho e nostalgia — “uma canção, uma lágrima”.
História, guerras e memória
Qualquer reflexão sobre Israel inevitavelmente passa pelo século XX e seus traumas. A Segunda Guerra Mundial, iniciada em 1º de setembro de 1939 com a invasão da Polônia pela Alemanha nazista, terminou oficialmente em 2 de setembro de 1945, após a rendição do Japão na Baía de Tóquio.
Na Europa, o conflito encerrou-se em 8 de maio de 1945, com a rendição alemã. Foi nesse cenário que o mundo tomou plena consciência do Holocausto — o extermínio sistemático de milhões de judeus pelo regime de Adolf Hitler.
O projeto nazista de expansão territorial e de construção de um “espaço vital” (Lebensraum) implicou perseguições, deportações e assassinatos em massa. O Holocausto tornou-se o símbolo máximo da barbárie moderna e marcou profundamente a história judaica contemporânea.
Poucos anos depois, em 14 de maio de 1948, foi proclamada a criação do Estado de Israel por David Ben-Gurion. A fundação do país representou, para muitos judeus, não apenas a consolidação de um projeto político, mas o reencontro simbólico com uma terra historicamente associada às narrativas do Antigo Testamento.
A trajetória do povo judeu é marcada por deslocamentos sucessivos: da saída do Egito rumo a Canaã; do retorno após o exílio babilônico, em 538 a.C.; da dispersão após a dominação romana no século II; e, já no século XX, do movimento migratório intensificado após a Segunda Guerra Mundial.
Carnaval como ponte cultural
É nesse pano de fundo histórico que a marchinha “Israel” ganha densidade. Ainda que concebida para o Carnaval, a canção transcende o gênero festivo. Ela transforma uma referência cultural internacional em ponte simbólica entre Brasil e Oriente Médio, entre folia e memória.
A letra é simples, mas carregada de significados. Ao unir imagem poética, referência cinematográfica e sentimento pessoal, João Roberto Kelly construiu um hino de respeito e admiração — tanto no plano individual quanto coletivo.
“Israel” não é apenas uma marchinha. É um gesto de memória cantado em ritmo de festa. Uma canção que é, ao mesmo tempo, lágrima e celebração.








