“A partir dessa data, da morte do Moïse, eu não recomendo a nenhum irmão angolano vir morar aqui, porque eu aprendi que é melhor morrer na África do que no Brasil”, resume Raul Mandela sobre o sentimento vivido desde o final de janeiro, quando a morte do congolês Moïse Kabagambe se tornou conhecida.
Mandela era uma das cerca de 3.000 pessoas que se reuniram na manhã deste sábado (5) na Avenida Paulista, região central de São Paulo, para pedir justiça pelo assassinato de Kabagambe, morto a pauladas em 24 de janeiro.
O ato, chamado por movimentos negros e de imigrantes trouxe para o centro nervoso da capital pessoas de pelo menos sete nacionalidades e três continentes diferentes. Imigrantes africanos reclamavam da xenofobia associada ao racismo vivida no país.
“Em Angola, vemos o Brasil como irmãos, mas aqui somos vistos como inimigos, não existe esse sentimento fraterno, e isso está cada vez pior porque é incentivado pelo governo atual”, reclama Mandela.
Imigrantes africanos reunidos em manifestação por justiça à morte de Moïse Kabagambe reclamavam da xenofobia associada ao racismo vivida no Brasil.
Formado em Tecnologa da Informação no Brasil, ele diz só conseguir trabalhos braçais, e atualmente é auxiliar de limpeza, revelando uma realidade vivida por muitos imigrantes refugiados no país, sobretudo negros: a exploração de mão-de-obra qualificada para empregos mal pagos e não regulamentados.
Kabagambe teria sido morto espancado depois de cobrar do dono do quiosque Tropicália, Carlos Fábio da Silva Muzi, o pagamento de uma dívida de R$ 200 por dois dias trabalhados. “A reforma trabalhista estabeleceu que a gente tem que negociar com o patrão. O Moïse foi negociar com o patrão, olha aí o resultado”, comentava um dos oradores que tomou palavra em meio à avenida.
Um pequeno carro de som dava voz a membros de movimentos de imigrantes e negros brasileiros. Justiça foi o termo mais repetido, com participantes temendo que o caso não seja resolvido.
O inquérito sobre a morte do congolês mostra que a Polícia Civil levou ao menos três dias para intensificar as investigações sobre o caso. Elas foram aceleradas após manifestações da família no fim de semana após o crime.
Além da demora, familiares de Kabagambe denunciaram que foram intimidados por dois policiais militares ao tentarem conseguir informações sobre o crime.
Os parentes afirmam que foram intimidados três vezes, dias após o caso, quando o acontecimento ainda não tinha se tornado público, segundo informações do jornal Folha de S. Paulo. Ao jornal, a família conta que foi ao quiosque para saber o que havia ocorrido, mas os PMs interferiram nas perguntas.
O ato foi chamado por movimentos negros e de imigrantes pela memória de Moïse Kabagambe. (Foto: Gustavo Basso/Yahoo Notícias)
“Estamos muito tristes mesmo; deixamos tudo, trabalho, crianças em casa, tudo hoje para pedir justiça, porque o não dá, passamos por muito racismo mesmo, sempre”, comenta a congolesa Bibi Benayamé. “Vivo aqui há doze anos e sou desclassificada, mesmo sendo quase brasileira”, completa.
O ato contou ainda com a presença de partidos políticos e movimentos estudantis, que ecoaram os discursos racistas do presidente Jair Bolsonaro e pedindo sua saída do Planalto.
Ato relembra outros casos com imigrantes ainda não solucionados
Manifestantes aproveitaram para dar voz a outros casos envolvendo imigrantes sem respostas.
Um menino angolano de 13 anos desapareceu após sair de casa para jogar bola em uma quadra em Itaquera, na zona leste de São Paulo, na última segunda-feira (24). Benvindo Mbomuali Antônio sumiu um dia antes do retorno para Angola e não foi encontrado até o momento.
“Onde está essa criança nesse mundo?”, questiona a conterrânea Esperança Bumba. “A polícia não dá nenhuma resposta, mesmo questionando sempre todo esse momento”.
Após as falas, o grupo tentou caminhar sentido Praça da República – região que há anos concentra um número grande de imigrantes – em meio a clima de festa, indignação e revolta. Foi barrado, no entanto, pela Polícia Militar, que montou uma barreira antes mesmo da saída da avenida Paulista.
Exaltados, houve um início de confusão envolvendo policiais e manifestantes a favor e contrários a forçar a passagem pela barreira de escudos.
Ao final, o clima foi controlado, e após muita negociação com a participação de membros da comissão de direitos humanos da OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) um grupo já diminuto de imigrantes pode descer rumo a praça utilizando somente as calçadas.
Como está o andamento do inquérito pelo assassinato de Moïse?
Na última terça-feira a polícia prendeu três homens pelas agressões feitas no quiosque localizado na Barra da Tijuca, na Zona Oeste do Rio. Um dos presos é vendedor de caipirinhas na praia e foi preso em Paciência, também na Zona Oeste. Ele foi identificado como Fábio Silva. Ele confessou aos agentes ter dado pauladas no congolês.
A Justiça do Rio de Janeiro manteve a prisão de dois dos suspeitos: Brendon Alexander Luz da Silva, conhecido como Tota, e Fábio Pirineus da Silva, o Belo. Ambos estão presos de forma temporária. O terceiro homem suspeito de participação no crime é Aleson Cristiano de Oliveira Fonseca, o Dezenove. A prisão dele ainda está sendo analisada. Segundo a polícia, os três são os responsáveis pela morte do jovem congolês.








