Uma sequência de ataques contra estabelecimentos, templos e imagens religiosas em diferentes cidades brasileiras voltou a chamar atenção para os casos de intolerância religiosa no país. Em setembro, episódios envolvendo símbolos católicos e uma casa de Umbanda foram registrados em Fortaleza, enquanto outras imagens religiosas foram danificadas em cidades como Londrina e Salvador.
Na madrugada de 9 de setembro, uma loja de artigos religiosos católicos localizada no centro de Fortaleza foi alvo de um ataque com coquetel molotov. Após o incêndio, um cartaz com a ameaça “Se reabrir, todos morrem” foi deixado no estabelecimento.
Na mesma noite, outros dois locais ligados ao catolicismo e um estabelecimento de Umbanda tiveram as fachadas incendiadas na capital cearense. Os casos são investigados pela Polícia Civil do Ceará.
Padre classificou episódios como intolerância religiosa
No dia seguinte aos ataques, o padre Josileudo Queiroz, da Igreja de São José Operário, em Caucaia, na Região Metropolitana de Fortaleza, publicou um vídeo nas redes sociais e classificou os episódios como crimes de intolerância religiosa.
O religioso destacou que o Brasil é um Estado laico e afirmou que diferentes manifestações de fé devem ser respeitadas.
Os ataques registrados no Ceará ocorreram em meio a outros casos envolvendo símbolos religiosos em diferentes partes do país.
Em Londrina, no Paraná, a cabeça de uma imagem de Nossa Senhora Aparecida instalada em frente a uma loja de artigos religiosos foi arrancada. Em Salvador, uma imagem de Nossa Senhora das Graças foi danificada e, posteriormente, uma imagem de Santa Dulce dos Pobres também foi destruída.
Disque 100 registrou mais de 1,2 mil denúncias
Os episódios recentes também colocaram em evidência os dados sobre intolerância religiosa no Brasil. Segundo informações do Disque 100, entre janeiro e junho de 2026 foram registradas 1.252 denúncias que continham pelo menos uma violação relacionada à liberdade de crença ou à intolerância religiosa.
Os praticantes de religiões de matriz africana permanecem entre os grupos mais atingidos. No primeiro semestre deste ano, foram registradas 270 denúncias envolvendo praticantes de Candomblé e Umbanda, contra 192 no mesmo período de 2025, um aumento superior a 40%.
Também houve crescimento nos registros relacionados a católicos. As denúncias passaram de 15 no primeiro semestre de 2025 para 34 nos primeiros seis meses de 2026, mais que o dobro do número registrado anteriormente.
Religião e exclusão
Durante a Semana Nacional de Combate à Intolerância Religiosa, realizada em janeiro, no Rio de Janeiro, Rudelmar Faria, secretário-geral da ACT Alliance, coalizão internacional de igrejas e organizações baseadas na fé, afirmou que a instrumentalização da religião para promover exclusão também ocorre em outros países.
Segundo Faria, mulheres, pessoas LGBTI+, povos indígenas, jovens e principalmente a população negra das periferias estão entre os grupos que podem ser afetados por processos de exclusão associados à religião.
Casos podem resultar em responsabilização criminal
Além dos impactos sociais, ataques motivados por intolerância religiosa podem configurar diferentes crimes, dependendo das circunstâncias de cada caso.
O defensor público do Ceará Igor Barreto explicou que a legislação prevê penas diferentes conforme a conduta praticada. Entre os crimes que podem ser investigados estão ameaça, dano, incêndio, violência contra práticas religiosas e outras formas de discriminação ou violação relacionadas à liberdade de crença.
A classificação jurídica depende da apuração de cada ocorrência e das circunstâncias identificadas pelas autoridades.
Flávio Dino determina investigação da PF
A sequência de episódios ganhou uma nova dimensão na última quarta-feira (30), quando o ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou que a Polícia Federal investigue ataques contra imagens e símbolos religiosos registrados em diferentes partes do país.
A decisão menciona relatos de ocorrências em diversos estados, incluindo casos envolvendo imagens católicas e símbolos de religiões de matriz africana. O ministro também determinou o encaminhamento da decisão à Procuradoria-Geral da República.
Entre os episódios citados estão o vandalismo contra uma loja de artigos religiosos em Londrina, a destruição de imagens sacras em Rio Grande, no Rio Grande do Sul, ataques a imagens em Salvador e Maceió e um caso envolvendo um terreiro de Umbanda em Belo Horizonte.
Segundo Dino, os relatos indicam possíveis crimes como vilipêndio, preconceito religioso, violência contra práticas religiosas, ameaça, dano, incêndio e violação de domicílio. A decisão aponta a repercussão em diferentes estados como uma das razões para a atuação da Polícia Federal.
A investigação deverá verificar as circunstâncias dos episódios e se existe alguma relação entre ocorrências registradas em diferentes regiões do país. Os casos também recolocam em discussão a proteção à liberdade religiosa e a responsabilização por atos praticados contra pessoas, estabelecimentos, templos e símbolos de diferentes tradições religiosas.
*Da Agência Fonte Exclusiva.








