Os preços do petróleo podem permanecer elevados ao longo de 2027, contrariando as expectativas de uma redução mais expressiva da commodity. A tendência aumenta as preocupações com a inflação, os custos de produção das empresas e o orçamento das famílias, além de trazer desafios para governos que elaboraram suas projeções econômicas considerando um barril mais barato.
Segundo informações divulgadas pelo portal Axios, a utilização de reservas de petróleo bruto ajudou a reduzir parte dos efeitos da crise. Essa margem de segurança, porém, já foi parcialmente consumida, enquanto as negociações de contratos futuros passaram a indicar um cenário menos favorável para os próximos meses.
Os contratos com vencimento em 2027 atingiram os maiores níveis desde o início da guerra com o Irã. A combinação entre incertezas sobre a oferta e dificuldades relacionadas ao transporte marítimo contribui para manter o mercado sob pressão.
Contratos indicam petróleo acima de US$ 90 por barril
Nos Estados Unidos, os contratos futuros do petróleo WTI com vencimento em janeiro de 2027 acumularam alta de 17% desde o início de setembro e ultrapassaram US$ 97 por barril.
O movimento também aparece nas negociações internacionais do Brent, referência global comercializada na Intercontinental Exchange (ICE). Os contratos para janeiro de 2027 chegaram a US$ 102,59 por barril, enquanto os papéis com vencimento em junho do mesmo ano estavam cotados a US$ 92,71.
Embora o mercado ainda considere possível uma redução dos preços durante 2027, o alívio esperado é menor do que o projetado algumas semanas antes.
Para Christopher Haines, chefe global de petróleo da consultoria Energy Aspects, há limites para a quantidade de petróleo que poderá ser retirada do Oriente Médio. O especialista também aponta dificuldades para recuperar a confiança de empresas de navegação e seguradoras, principalmente diante dos riscos de ataques contra embarcações.
A insegurança no transporte marítimo e as dúvidas sobre a disponibilidade da commodity ajudam a explicar por que as cotações podem continuar altas, mesmo com a expectativa de uma recuperação parcial do mercado.
Orçamentos de 2027 podem ser afetados
A manutenção do petróleo em patamares elevados pode comprometer as projeções financeiras de governos que calcularam suas receitas e despesas com base em preços menores. Os efeitos variam de acordo com a dependência de cada economia em relação à commodity e com sua posição no mercado internacional.
No México, a proposta orçamentária da Secretaria da Fazenda considera que o petróleo de exportação do país terminará 2026 cotado a US$ 78,40 por barril. Para 2027, a estimativa cai para US$ 61,80.
Apesar de o petróleo mexicano normalmente apresentar preço inferior ao WTI, a diferença entre essa projeção e as cotações atuais dos contratos futuros é significativa. Segundo os cálculos da própria Secretaria da Fazenda, uma variação de US$ 1 no preço médio do petróleo bruto pode alterar as receitas petrolíferas mexicanas em aproximadamente 9,6 bilhões de pesos.
No Brasil, a proposta de orçamento para 2027 trabalha com um preço médio de US$ 71,03 por barril. O planejamento também não prevê a cobrança, no próximo ano, do imposto de 12% sobre as exportações de petróleo.
De acordo com o ministro do Planejamento, Bruno Moretti, a tributação foi adotada como uma forma de amenizar o choque de preços provocado pela guerra. A projeção brasileira parte da expectativa de que a situação no Oriente Médio esteja normalizada em 2027.
Se os conflitos e as dificuldades de abastecimento continuarem, o governo poderá enfrentar pressões sobre as estimativas fiscais. O impacto efetivo dependerá da evolução das cotações e das medidas econômicas adotadas.
Exportadores podem lucrar com a alta
O encarecimento do petróleo não produz os mesmos resultados em todos os países. Para os grandes exportadores, a elevação dos preços pode aumentar a arrecadação e fortalecer a entrada de recursos. Já as economias dependentes da compra de combustíveis no exterior tendem a enfrentar despesas maiores com energia e dificuldades adicionais nas contas externas.
A Guiana aparece entre os possíveis beneficiados pelo cenário. A expectativa é de que sua economia cresça cerca de 20,8% em 2026, impulsionada, entre outros fatores, por uma expansão estimada de 7,9% na produção de petróleo bruto. As receitas provenientes da commodity devem alcançar aproximadamente US$ 6,5 bilhões.
Em contrapartida, países da América Central e do Caribe estão mais expostos aos efeitos negativos de uma conta energética elevada.
Estimativas da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (CEPAL) indicam que, mesmo considerando um preço médio anual do petróleo 25% superior aos US$ 69 registrados em 2025, a balança comercial da América Central, do Haiti e da República Dominicana poderá piorar em 0,9 ponto percentual do Produto Interno Bruto (PIB).
Para os países caribenhos que não exportam petróleo nem gás natural, a deterioração estimada é de 0,5 ponto percentual do PIB.
Os números refletem o peso dos combustíveis importados nessas economias e mostram como o aumento dos gastos com energia pode prejudicar o comércio exterior.
Chile está entre os países mais expostos
Entre as principais economias da América Latina, o Chile aparece como um dos países mais vulneráveis à valorização do petróleo.
Estimativas do Goldman Sachs divulgadas pela Bloomberg Línea apontam que cada aumento de 10% no preço da commodity amplia o déficit energético chileno em aproximadamente 0,4% do PIB.
Diante das perspectivas para o mercado internacional, o banco reduziu sua projeção de crescimento econômico para o Chile para 2,3%.
A possibilidade de petróleo caro em 2027, portanto, representa um desafio que vai além do setor energético. A evolução dos preços pode influenciar a inflação, o ritmo de crescimento econômico, a arrecadação dos governos e o equilíbrio das contas externas.
Enquanto os exportadores podem obter ganhos com a valorização da commodity, os países que dependem de importações ficam mais sujeitos ao aumento dos custos e à deterioração de seus indicadores econômicos.
*Da Agência Fonte Exclusiva








