A prisão do investidor em criptomoedas Glaidson Acácio dos Santos na última semana de agosto chamou atenção para um assunto ainda pouco difundido e regulamentado no Brasil: O investimento em “criptodinheiro”.
O ex-garçom está sendo investigado por suspeita de organizar uma pirâmide financeira, prometendo lucros de 10% ao mês aos clientes de sua empresa GAS Consultoria e Tecnologia, valor considerado inviável por especialistas no assunto e em criptomoedas.
O caso do Garçom que virou investidor
Nascido e criado na Praia do Siqueira, bairro de pescadores em Cabo Frio, região dos lagos do Rio de Janeiro, Glaidson foi pastor da Igreja Universal por 15 anos e até 2014 trabalhava como garçom.
Em 2015, em conjunto com sua esposa Mirelis Yoseline Diaz Zerpa dos Santos fundou a GAS Consultoria e Tecnologia. Classificada como uma empresa cuja a principal atividade financeira é a consultoria em tecnologia da informação e especializada no desenvolvimento e licenciamento de programas de computador, correspondentes de instituições financeiras, atividades de intermediação e agenciamento de serviços e negócios em geral, entre outras.
Nesses seis anos, Glaidson movimentou cerca de 38 bilhões de reais, sendo 50% disso somente nos últimos 12 meses, de acordo com o Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf), durante as investigações da Operação Kryptos.
O consultor de bitcoins oferecia um investimento fácil e prometia aos investidores um retorno fixo de 10% do valor total investido por mês por um período de 24 meses. Contudo, de acordo com Mayra Lima, especialista da corretora Guide, essa aplicação é inviável tendo em vista que a taxa básica de juros (Selic) está em 5,25% ao ano.
A investigação começou há cerca de dois meses, quando a polícia federal passou a observar as movimentações da GAS e culminou na prisão de Glaidson e a suspeita da realização de pirâmides financeiras.
Além disso, uma nova investigação divulgada pelo G1, aponta que a maior parte do dinheiro investido pelas vítimas do esquema de criptomoedas ia diretamente para as contas pessoais do ex-garçom e de outros chefes da organização criminosa e que nem chegavam a ser investidas.
Pirâmide de criptomoedas em Cabo Frio
Para entender sobre a relevância do caso da pirâmide das criptomoedas, como tanto dinheiro foi movimentado e porque isso é suspeito, é necessário saber alguns conceitos sobre mercado financeiro que ainda são pouco explicados para boa parte da população brasileira.
Como funcionam as criptomoedas
As criptomoedas são basicamente dinheiro digital não emitido por nenhum governo. Seu uso é o mesmo do dinheiro comum, funcionam como meio de troca, facilitam transações comerciais e preservam o poder de compra por meio da reserva de valor.
Essas criptomoedas são criptografadas, ou seja, protegidas de modo que somente o emissor e o receptor consigam compreendê-la, dispensando a necessidade de um mediador para isso, como ocorre com moedas tradicionais. Contudo, para impedir que alguém use o mesmo bitcoin duas vezes, por exemplo, existe um enorme registro de transações chamado blockchain.
Por seguir a lei de oferta e demanda, os valores das moedas digitais variam muito de acordo com a procura. Quanto mais pessoas investindo, mais caras elas ficarão, por isso, assim como no investimento da bolsa de valores, existem profissionais voltados somente para o auxílio e orientação de como agir na compra e vendas de bitcoins.
Esse profissional, chamado de consultor de bitcoins, oferece serviços como análise do perfil do investidor, gerenciamento de portfólio e carteiras de investimento, introdução aos principais índices financeiros e técnicas de compra e venda.
O que é pirâmide financeira
Quando um modelo de negócio se sustenta por meio do recrutamento e investimento de mais pessoas, é possível afirmar que trata-se de uma pirâmide financeira. Basicamente, alguém “investe” uma determinada quantia e recebe a promessa de um alto percentual de lucro e de aumentar esses ganhos caso traga mais pessoas para o negócio.
O esquema funciona por um tempo, o que incentiva as pessoas a investir ainda mais dinheiro e a trazer cada vez mais convidados. Contudo, no momento em que novos investidores param de chegar, ou que antigos decidam retirar o dinheiro pago, o esquema começa a desmoronar e os valores se mostram insuficientes para pagar a todos. Logo, quem retirou o dinheiro primeiro, não teve prejuízo, mas quem esperou para retirar após a queda, pode ficar sem receber o valor investido.
Como funcionam as pirâmides de bitcoin
No caso das pirâmides de bitcoins, não existe necessariamente uma ligação direta entre indicação e lucro, porém, assim como em qualquer esquema piramidal, quanto mais gente envolvida, por mais tempo ela conseguirá se sustentar. Dessa forma, os principais fatores atrativos para possíveis investidores são:
1. Lucros exorbitantes em pouco tempo
É economicamente insustentável manter um rendimento que esteja muito acima da taxa de juros básica brasileira (Selic);
2. Rendimentos fixos
Tendo em vista que as criptomoedas são um recurso de renda variável por suas oscilações que a valorizam e desvalorizam com frequência, é impossível garantir um rendimento fixo.
3. Métodos de transação muito simplificados e sem “burocracias”
O investimento no mercado financeiro é um trabalho de longo prazo, geralmente atalhos não condizem com a realidade;
4. Recomendação de pessoas próximas como forma de transmitir segurança
Quando veem-se “lucrando”, as vítimas tendem a indicar os esquemas para pessoas de confiança, porém, isso pode ser também uma estratégia dos golpistas para tentar atrair pessoas menos entendidas do assunto;
Assim como a GAS, há diversas outras empresas em Cabo Frio que são suspeitas de realizar o mesmo tipo de procedimento ilegal, utilizando criptomoedas. Ao que parece, a prática se popularizou pela cidade, criando um ambiente propício para que esse tipo de negócio crescesse e atraísse cada vez mais gente, sendo inclusive apelidada de “Novo Egito”, trocadilho que remete a quantidade de pirâmides.
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