A perspectiva de uma colheita histórica de café no Brasil não tem sido suficiente para tranquilizar os exportadores. Enquanto as estimativas apontam para um crescimento expressivo da produção, empresas do setor enfrentam dificuldades para manter a rentabilidade das vendas internacionais e cobram medidas para reduzir os custos de comercialização.
De acordo com informações publicadas pela Folha de S.Paulo, a receita das exportações brasileiras de café apresentou queda de 8,6% em 2026, o equivalente a aproximadamente US$ 952 milhões.
O resultado chama a atenção porque ocorre em um período de expectativa positiva para a produção nacional. A consultoria Safras & Mercado estima que a safra 2026/27 poderá alcançar 75,65 milhões de sacas de 60 quilos, volume que, se confirmado, representará um novo recorde.
Para representantes do segmento, o crescimento da produção precisa ser acompanhado de investimentos em infraestrutura, redução de despesas logísticas e regras tributárias que ofereçam maior previsibilidade às empresas.
Produção pode superar 75 milhões de sacas
A estimativa mais recente da Safras & Mercado elevou a previsão da colheita brasileira para 75,65 milhões de sacas no ciclo 2026/27.
O número representa um acréscimo de 4,65 milhões de sacas em relação à projeção anterior da consultoria.
Caso o resultado seja confirmado, o Brasil poderá registrar uma das maiores produções de café de sua história, ampliando a disponibilidade do grão para abastecimento interno e exportação.
O país ocupa posição de destaque no comércio mundial de café, e o desempenho de sua produção influencia os preços e as condições de oferta no mercado internacional. Apesar disso, uma safra maior não significa necessariamente aumento do faturamento.
O valor recebido pelos exportadores depende dos preços negociados, do volume efetivamente embarcado, da cotação do dólar e das despesas envolvidas na comercialização. Assim, mesmo com mais café disponível, a receita pode diminuir caso os preços recuem ou os custos aumentem.
Transporte e infraestrutura elevam despesas
Entre os principais obstáculos apontados pelas empresas estão os custos para transportar o café das regiões produtoras até os portos.
O processo envolve frete rodoviário, armazenagem, movimentação de cargas e operações portuárias, despesas que podem comprometer a competitividade do produto brasileiro.
Os exportadores argumentam que problemas de infraestrutura e dificuldades no escoamento da produção reduzem a margem de lucro e dificultam o planejamento das operações.
A preocupação se intensifica diante da possibilidade de uma colheita recorde, que poderá exigir maior capacidade de transporte e armazenamento.
Para o setor, ampliar a eficiência logística é fundamental para evitar atrasos nos embarques e custos adicionais.
As empresas defendem investimentos em infraestrutura e medidas que tornem o transporte de mercadorias mais eficiente, especialmente nas rotas utilizadas para o comércio exterior.
Reforma tributária entra no centro das preocupações
Outro tema acompanhado pelos exportadores é a implementação da reforma tributária sobre o consumo.
O setor cobra clareza sobre as regras de transição para o novo sistema, principalmente em relação ao aproveitamento e à devolução de créditos tributários.
A legislação brasileira estabelece a desoneração das exportações, mas as empresas ressaltam que a eficiência dos mecanismos de ressarcimento será decisiva para evitar prejuízos financeiros.
Quando a recuperação de créditos demora, recursos que poderiam ser utilizados nas operações permanecem indisponíveis, afetando o fluxo de caixa.
Esse cenário preocupa especialmente empresas que trabalham com contratos internacionais, prazos de entrega e compromissos financeiros definidos antecipadamente.
A expectativa é que o novo modelo tributário reduza a burocracia sem criar despesas adicionais para os exportadores.
Empresas cobram previsibilidade do governo
O tributarista Gustavo Melo, sócio do escritório Menndel & Melo Advocacia, que presta assessoria a empresas do setor, defende maior atenção às dificuldades enfrentadas pelos exportadores brasileiros.
Na avaliação do especialista, a reforma tributária precisa assegurar condições adequadas para que as operações internacionais não sejam prejudicadas por custos adicionais ou entraves administrativos.
Entre as principais reivindicações estão segurança jurídica, regras claras para a recuperação de créditos e maior previsibilidade sobre a tributação.
Representantes do segmento também defendem que o governo federal priorize investimentos em infraestrutura e medidas capazes de melhorar a competitividade do café brasileiro.
A preocupação é que dificuldades estruturais continuem reduzindo os ganhos das empresas, mesmo em períodos de produção elevada.
Receita menor não significa necessariamente menos café exportado
A queda no faturamento internacional não permite concluir, isoladamente, que o Brasil tenha vendido uma quantidade menor de café ao exterior.
O resultado financeiro depende da combinação entre volume embarcado e preço médio recebido.
Se os preços internacionais diminuem, por exemplo, a receita pode cair mesmo quando a quantidade exportada permanece estável ou aumenta.
A taxa de câmbio também interfere nos resultados das empresas, assim como a qualidade dos grãos comercializados e as condições dos contratos. Por isso, os dados de produção e exportação precisam ser analisados separadamente.
Enquanto a estimativa da Safras & Mercado se refere ao volume esperado para a safra 2026/27, a redução de receita mencionada pelos exportadores diz respeito ao desempenho comercial registrado em 2026.
A comparação mostra os desafios do setor, mas não significa que toda a produção prevista para o próximo ciclo já tenha sido comercializada.
Setor espera medidas para melhorar competitividade
Com a possibilidade de uma safra histórica, a cadeia produtiva do café terá de lidar com o desafio de transportar, armazenar e comercializar um volume maior de grãos.
Para os exportadores, o desempenho do mercado internacional dependerá não apenas das condições de produção, mas também da capacidade de reduzir custos e manter a competitividade.
As empresas esperam avanços nas discussões sobre infraestrutura, tributação e segurança jurídica.
Nos próximos meses, a evolução dos preços internacionais, o comportamento do dólar e os volumes efetivamente embarcados serão importantes para avaliar o resultado econômico do setor.
A expectativa de produção recorde representa uma oportunidade para o Brasil ampliar sua presença no mercado mundial, mas o crescimento da colheita precisará se transformar em resultados financeiros para produtores e exportadores.
*Da Agência Fonte Exclusiva








