O uso excessivo de smartphones e redes sociais já não é apenas uma questão de hábito — tornou-se um fenômeno com impactos diretos na saúde mental e no comportamento humano. O alerta é da psicóloga Karoline Barbosa, que analisou os efeitos do consumo digital em entrevista ao programa Direto da Redação.
Segundo a especialista, o problema vai muito além do tempo de tela. O conteúdo consumido nas redes sociais tem influência direta na forma como as pessoas pensam, se comportam e se relacionam. “Hoje, a fantasia virou norma social. As pessoas estão tentando viver padrões que não existem”, destacou.
A construção de uma vida idealizada nas redes cria um modelo inatingível, que gera frustração constante. Perfis que exibem sucesso, riqueza e felicidade permanente acabam servindo como referência, mesmo quando representam apenas recortes ou até encenações da realidade.
Além disso, a necessidade de estar sempre produzindo e performando também preocupa. A psicóloga observa que existe uma pressão crescente por produtividade extrema, que ignora limites humanos básicos como cansaço e descanso. “As pessoas acreditam que estar cansado é um problema, quando na verdade pode ser apenas reflexo de uma rotina exaustiva”, explicou.
Outro ponto crítico é o efeito neurológico causado pelo consumo contínuo de conteúdos curtos, como vídeos em redes sociais. Esse tipo de estímulo libera dopamina no cérebro — substância associada ao prazer — criando um padrão semelhante ao de comportamentos viciantes.
“Você pega o celular para relaxar e automaticamente vai para o Instagram. Isso vai se tornando um vício”, afirmou.
Esse processo tem consequências diretas na capacidade de concentração. Segundo a especialista, muitas pessoas já apresentam dificuldade para ler textos longos, estudar ou manter o foco em tarefas que exigem esforço cognitivo. O cérebro passa a rejeitar atividades que não oferecem estímulos imediatos.
Impacto nas crianças preocupa especialistas
Entre os grupos mais vulneráveis estão crianças e adolescentes, cujo cérebro ainda está em desenvolvimento. O uso precoce e excessivo de telas pode comprometer habilidades essenciais como interação social, criatividade e tolerância à frustração.
A psicóloga defende que o uso deve ser limitado e supervisionado pelos pais. “A criança precisa se entediar, precisa criar, imaginar. Hoje ela não tem mais esse espaço”, afirmou.
Outro ponto de alerta é o hábito comum de oferecer o celular como forma de entretenimento ou distração. Embora pareça uma solução prática, essa prática pode estimular a dependência desde cedo e expor a criança a conteúdos inadequados.
A especialista também se posiciona favorável à restrição do uso de celulares dentro das escolas, destacando que o ambiente educacional tem perdido espaço para distrações digitais.
Redes sociais e a lógica do “produto”
Um dos pontos mais contundentes da análise é a transformação do usuário em produto dentro das redes sociais. Segundo Karoline Barbosa, ao criar um perfil, a pessoa passa a vender uma imagem — seja de sucesso, felicidade ou realização.
“Você está ali para vender uma vida que quer que os outros enxerguem”, afirmou.
Essa dinâmica reforça comportamentos de comparação constante e pode levar a quadros de ansiedade, baixa autoestima e sensação de inadequação.
Existe uso saudável?
Apesar dos alertas, a especialista não defende o abandono da tecnologia. O foco está no uso consciente e crítico. A tecnologia, segundo ela, tem potencial positivo, mas exige equilíbrio.
“O problema não é a rede social. O problema é perder o parâmetro do que é real e atingível”, concluiu.
*Da Agência Fonte Exclusiva







