A contemporaneidade da prosa de Hilda Hilst |
Lembremo-nos que, para Brecht, o distanciamento tem uma dupla função. O texto O Verdugo, de Hilda Hilst, narra, em dois atos bem articulados, uma situação aparentemente familiar: pai, mãe, filho, filha (estes, jovens) numa
…casa modesta, mas decente. Sala pequena. Mesa rústica. Dois bancos compridos junto à mesa. Um velho sofá. Uma velha poltrona. Uma porta de entrada. Outra porta dando para o quarto. Paredes brancas. Dois pequenos lampiões. Aspecto geral muito limpo. Nessa sala não deve haver mais nada, nada que indentifique (grifo meu) essa família particularmente. Moram numa vila do interior, em algum lugar triste do mundo. (idem) Mesa posta. O verdugo, a mulher, a filha e o filho estão sentados à mesa. A mulher deve estar servindo sopa ao marido. É noite. (p. 9).[1]
[1] Uso como referência a publicação original de O Verdugo, única peça da autora publicada e encenada ainda com a autora em vida. HILST, Hilda. O Verdugo. São Paulo : Coleção de textos de teatro CEC/CET, 1969.
Apesar de a rubrica assinalar que na sala não deve haver nada que particularmente identifique a família, há um signo bastante forte que compulsivamente joga o texto para a ação da narrativa central. O pai é um verdugo, o que mata por profissão. Não é, portanto, um homem qualquer. Tendo sempre exercido seu ofício eficiente e pontualmente, acaba por viver um drama, o mais imprevisível que poderia viver um verdugo: reluta em cumprir o dever que a justiça lhe impõe, o de enforcar um homem. Resiste, porque o prisioneiro aparentemente é um homem diferente, que o verdugo sente não ser culpado, embora se trate de um réu que já fora julgado e condenado por uma lei de que ele, o verdugo, não é autor. “Não é você quem vai matar” – diz a mulher. “É a lei que mata.”[1] Criado o grande impasse. Por que o verdugo vê no réu um homem diferente?
De certa forma, o pai verdugo pressente que é imundície tocar naquele homem, pois sabe que o homem dizia coisas certas, era um homem bom. A filha e a mãe, inconformadas, sempre avaliam a situação assumindo o lado do poder, macaqueando a figura dos juízes: “Filha: Bondade é dar dinheiro para encher a barriga/ Filho: Ele me deu outra coisa/ Filha (Com ironia) E que coisa foi essa?[2] Não se sabe responder com clareza, pois a clareza desse mistério está no olhar… um olhar honesto e que é limpo por dentro. Porém, ao filho o verdugo explica: “De perto, meu filho, ele parece o mar. Você olha, olha e não sabe direito para onde olhar. Ele parece que tem vários rostos… de repente, ele olha firme, você sabe? Assim como se te atravessasse.”[3]
É oportuno lembrar que, no teatro épico de Brecht, os mesmos métodos de pensamento que levaram ao progresso científico devem ser aplicados à sociedade. A essência de toda a ciência para Brecht era o ceticismo. A recusa em aceitar dogmaticamente o que quer que seja. Uma dúvida ativa e inquiridora. É isso que se deve aplicar ao nosso meio social, se realmente quisermos chegar a transformá-lo, por via dos fatos ou até mesmo controlá-lo alguma vez. Nada
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[1] Uso como referência a publicação original de O Verdugo, única peça da autora publicada e encenada ainda com a autora em vida. HILST, Hilda. O Verdugo. São Paulo : Coleção de textos de teatro CEC/CET, 1969.
[1] Idem, p. 12.
[1] Idem, p. 9.
[1] Idem, p. 10.
[1] BRECHT, Bertold
deve ser aceito sem prova, para que nada possa parecer inalterável. Eis o tema de tudo o que Brecht escreveu em seus últimos anos, e a explicação básica para as suas últimas teorias dramáticas. Escreveu ele em Le Petit Organon[1]: “A mesma atitude que os homens revelaram outrora em face das catástrofes naturais imprevisíveis adotam agora em relação aos seus próprios empreendimentos.” Ou ainda: “Só podemos descrever o mundo de hoje ao povo de hoje se o descrevermos como algo suscetível de alteração.”[2] Explica-se, assim, sua natural simpatia pelos desprotegidos e maltrapilhos, um especial interesse em criar tipos despretensiosos, mas plebeus, frequentemente, com um toque sardônico ou mesmo irreverente.
Em O Verdugo, os ambientes são mantidos em um plano mais remoto ou indefinido, mas também os amplos problemas morais de que começa a tratar são ocasionalmente simplificados para além de toda a possibilidade de reconhecimento. No entanto, como em Brecht, apresenta, por exemplo, o bom homem ou o mau que está no poder e é rico e corrupto, sem entrar em detalhadas explicações sobre o que os torna maus ou bons. Sacrifício e renúncia são especialmente fascinantes para Brecht, sobretudo, quando levados a efeito à custa do que, superficialmente, parece ser justo e caro. Há, também, no texto de Hilst, um poderoso elemento de autonegação e autodegradação. No texto de Hilst, o homem que “não faz nada de mal”, que a única coisa que fez foi falar – “mas pôs fogo em todo o mundo. Fogo, só isso”[3], trata-se de um revolucionário, como diz a filha do verdugo, tem clara postura antipoder, o que gera bastantes nuances sociopolíticas em um texto escrito no pós-golpe de 64. Um fato intrigante para o conflito central é o que as personagens dos juízes, ao virem à casa do verdugo, repetem sua censura ao que foi dito por ele, sob as togas da justiça:
Juiz jovem (Para o verdugo) – Bem, o senhor sabe como é… o homem… tem de morrer.
Mulher – Sabemos, lógico. Tem de morrer.
Juiz jovem – Não há outro jeito.
Juiz velho (Para o verdugo) – Ele falou demais. O senhor compreende? E boca deve ter uma medida.
Juiz jovem – Certas palavras não devem ser ditas.
Mulher – Ele falava muito, é verdade.
Noivo (Sorriso idiota) – Ele falava coisas sem sentido.
Juiz jovem – Confundiu todo mundo.
Filha (Sorrindo para o juiz jovem) – Eu não entendia bem o que ele falava.
Juiz velho – Nem era para entender, minha filha. Ninguém entendia.
Filha (Olhando para o juiz jovem. Sorrindo) – E depois sempre havia tanta gente… Eu não conseguia chegar muito perto.
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[1] BRECHT, Bertold. Le Petit Organon pour le théâtre. Paris : Éd. De L’Arche, 1948, p. 22.
[1] Idem, p. 47.
[1] HILST, op. cit., p. 9
Mulher (Para os juízes) – A gente é curiosa. Só ia pra ver, ver como era, os senhores sabem.
Juiz jovem – Compreendo. É a novidade. (Pausa)
Noivo (Sorriso idiota) – Aqui a gente não tem nada pra ver.
Juiz velho – Claro. (Pausa)
Juiz jovem (Para o verdugo) – O senhor já está preparando???, então.
Mulher – Ah, está sim, ele não precisa se preparar muito. (Sorri) É o ofício dele, de sempre (Para o marido), não é?
Filho – O pai não respondeu.[1]
O silêncio – a não-resposta – , uma indecisão do verdugo, ao falar com os juízes, (“Excelências… é muito difícil explicar… alguma coisa está me impedindo de fazer isso. O homem entrou no meu peito, entendeu? Ele falava que era preciso… amor… ele falava…”[1]), entende-se, pelo diálogo transcrito acima, que há, pela parábola apresentada ao leitor, uma imagem mítica de uma revolução. Pode-se entender que o Filho toma consciência da importância de mostrar a cara para se conseguir a liberdade. E que só se mostra a cara saindo da moita, isto é, fazendo o jogo de alguns coiotes que estão no meio do povo e já foram descobertos pela lei. Por isso, o Juiz Jovem, que já percebeu que o verdugo é um coiote e, portanto, é gente do povo, oferece-lhe mais dinheiro para cumprir sua missão.
(Continua na próxima semana em OS VERDUGOS DO BRASIL III)
[1] Idem.








