O mistério da revelação e decifração da palavra |
Quanto vale uma confissão? Antes do Cristianismo já existiam a figura do confessor e a do espaço do confessionário. Na Antiguidade Clássica, Grécia antiga, os oráculos desempenhavam o papel de confessionários e as sibilas ou pitonisas, o de confessor.
A palavra oráculo possui dois significados principais, que aparecem nas expressões “consultar um oráculo” e “receber um oráculo”. No primeiro caso, significa “uma mensagem misteriosa” enviada por um deus como reposta a uma indagação feita por algum humano; é uma revelação divina que precisa ser decifrada e interpretada. No segundo, significa “uma pessoa especial”, que recebe a mensagem divina e a transmite para quem enviou a pergunta à divindade, deixando que o interrogante decifre e interprete a resposta recebida. Um empréstimo da definição da filósofa Marina Chauí.
Esta pessoa especial era uma mulher, sacerdotisa, que se chamava sibila, em grego sibylla, que significava profetisa, bruxa, feiticeira, ou médium, na expressão moderna da ideia de comunicação com o invisível, o mundo espiritual, ou mundo das ideias, segundo o filósofo Platão e a Doutrina Espírita.
Essa sacerdotisa poderia chamar-se também Pitonisa. Esse nome deve-se a Apolo, também conhecido como deus da advinhação, e que era cognominado de Pítio, ou também porque ele matou a serpente-dragão, Píton, ou, finalmente, por causa da localização do oráculo, (ficava em Delfos), cidade primitivamente chamada de Pito.
Há 23 séculos, portanto, na Grécia, havia, na cidade de Delfos, um santuário dedicado ao deus Apolo, deus da luz, da razão e do conhecimento verdadeiro. O patrono da sabedoria. Além, também, de deus da advinhação, como já anotamos. Sobre o portal de entrada desse santuário estava escrita a grande mensagem do deus, ou o principal oráculo de Apolo:
“Conhece-te a Ti mesmo e conhecerás todo o universo e os deuses, porque se o que procuras não achares primeiro dentro de ti mesmo, não acharás em lugar algum”, que, na sua forma mais conhecida e abreviada e simplificada se transforma em “Conhece-te a ti mesmo.”.
Esse aforismo “Conhece-te a ti mesmo” (grego: γνωθι σεαυτόν, transliterado: gnōthi seauton ) é uma das máximas de Delfos encontrada inscrita no pátio do Templo de Apolo. Em Latim, o aforismo é geralmente dado como Nosce te ipsum ou temet nosce.
Popularizado pelo filósofo Sócrates, ele propunha a sua interpretação do aforismo ao afirmar que, antes de querermos conhecer a natureza e antes de querermos persuadir os outros, como faziam os sofistas, cada um deveria, primeiro e antes de tudo, conhecer-se a si mesmo. O indivíduo deveria ser o centro das suas próprias preocupações e investigações.
Por fazer do autoconhecimento, ou do conhecimento que os homens têm de si mesmos, a condição de todos os outros conhecimentos verdadeiros, é que se diz que o período socrático é antropológico, isto é, voltado para o conhecimento do homem (em grego, ántropos), particularmente o conhecimento de seu espírito e de sua capacidade para conhecer a verdade.
A visão socrática a respeito do Homem traz obrigatoriamente a noção da pluralidade das existências, um dos postulados da Doutrina Espírita. Quem quer se conhecer a si mesmo deverá buscar, com a máxima abrangência, a dimensão de sua existência, que ultrapassa o tempo e o espaço, não se confundindo com a prática equivocada da regressão de memória.
A necessidade de termos ordenado o conjunto de experiências de vida, nos níveis consciente e inconsciente, que muitas vezes surge de forma conflituosa, é o que nos leva a estar diante dos oráculos modernos, o padre, o psicanalista, o psiquiatra para ajudar-nos a estabilizarmos as forças, os vetores que se debatem, sem rumo e sem direção alguma. Diante disso, falamos da necessidade de um diálogo conciliador entre essas forças, mediado por uma instância “anônima”, mas atenta, seja do padre, do psicólogo, psiquiatra ou de um amigo.
A sabedoria, o poder de advinhação, com ou sem o concurso das forças sobrenaturais, são ferramentas para quem se habilita a receber essa carga de forte base emocional e espiritual que vem irrevogavelmente alojada na fala reveladora e confidente, ou na pergunta perturbadora do consulente, e formular, na sua capacidade, uma resposta decifradora. Jamais recuar diante de uma revelação, confidência, inquirição, sejam elas quais forem, venham de onde vierem.
O ser humano é um minúsculo vertebrado a ser domado, seja pela sugestão da mensagem religiosa, seja pelas terapias de nossos oráculos contemporâneos, que não se distanciaram de suas origens, porque nunca morrerão, que é o que podemos apreciar em prosa de Antero de Quental, que, ao nos fornecer seu conceito de poesia, não deixa de associá-la ao mistério da palavra reveladora, a palavra oracular. Palavra essa que deverá ser acolhida pelo oráculo e devolvida em imagens decifradoras. Jamais a omissão, o medo, o constrangimento.
O escritor, poeta Antero de Quental, ao dizer, portanto, que “a poesia … a sibila reveladora das palavras misteriosas, cujas glosas (interpretações) foram as primeiras crenças, as primeiras religiões, as primeiras sociedades.”, ele nos coloca diante do mistério da revelação e da decifração da palavra.








