Este artigo apresenta uma análise estética do poema “À cidade da Bahia”, de Gregório de Matos Guerra, MAS OUSO, ALGUMAS VEZES, substituir BAHIA por Brasil, parodisticamente.
Por se tratar de uma sátira (ambos poesia, paródia e também a análise deles) nesse texto, identificamos uma sátira que vai além do ataque contundente ao seu meio social, manifestando sentimentos, como nostalgia e angústia, o que lhe confere uma tonalidade particularmente lírica.
A análise divide o poema em duas partes: com os quartetos de um lado, os tercetos de outro. A leitura explora a dualidade temática e a estrutura do poema. Consideremos o poema abaixo, tomado da edição organizada por José Miguel Wisnik (1976, p. 40):
À CIDADE DA BAHIA
Triste Bahia! Ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto açúcar excelente
Deste em dar tanto açúcar excelente
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisuda
Que fora de algodão o teu capote!
Numa leitura inicial, naif, pode-se achar que o seu sentido/significância aparente é relativamente simples. Trata-se da mudança (para pior) de estados ocorrida com as “duas personagens centrais do poema”, a Bahia (à época, Salvador, capital da colônia)e o eu poético, devido à presença dominadora do mercantilismo.
Com efeito, na relação comercial com o mercador estrangeiro, a ingênua Bahia sai perdendo (O Brasil continuou sempre perdendo, escambo que sempre permitira ser!); de sua posição primitiva de abastança descamba para uma posição de penúria.
E o eu poético, em meio também a uma desenfreada atividade mercantilista, é levado como que de roldão para esse estado de pobreza. A degradação, isto é, a passagem do estado ideal para o estado incômodo se configura possivelmente no aspecto mais relevante do poema, porque os seus elementos constitutivos concorrem para tal fim, já há uma política (filosoficamente) corrupta e escravocrata consentida.
Evidentemente o filho de tradicional família proprietária de engenho de açúcar vê com muito maus olhos a ascensão acelerada dessa classe social de negociantes, ávida de lucros.
Personagem de tal mundo arrevesado, e em oposição a ele, Gregório de Matos atua brandindo sua arma – coloca em ação a irreverente poesia satírica: “[…] diante de um mundo ‘trocado pela troca’, Gregório põe em jogo a maquinaria das trocas poéticas, afiadas também nos seus truques, trocadilhos, jogos paronomásticos, em suma, numa série de deslocamentos de significante e significado” (WISNIK, 1976, p. 19).
O tema da dança das classes sociais foi largamente abordado pelo poeta na sua extensa obra satírica. Em vários textos corre solta a crítica à facilidade com que se ascendia na sociedade baiana por meio de práticas suspeitas. Veja-se exemplo dos mais conhecidos:
Veem isto os filhos da terra, e entre tanta iniquidade são tais, que nem inda tomam licença para queixar-se. Sempre veem, e sempre calam, até que Deus lhes depare quem lhes faça de justiça esta sátira à cidade. (WISNIK, 1976, p. 55). Substituamos BAHIA por Brasil.
AO BRASIL
Triste Brasil! ó quão dessemelhante
Estás e estou do nosso antigo estado!
Pobre te vejo a ti, tu a mi empenhado
Rica te vi eu já, tu a mi abundante.
A ti trocou-te a máquina mercante,
Que em tua larga barra tem entrado,
A mim foi-me trocando, e tem trocado,
Tanto negócio e tanto negociante.
Deste em dar tanto petróleo e riquezas excelentes
Pelas drogas inúteis, que abelhuda
Simples aceitas do sagaz Brichote.
Oh se quisera Deus, que de repente
Um dia amanheceras tão sisudo
Que fora de algodão o teu capote!
O soneto em questão foi escolhido por apresentar um dado mais específico em relação a outros poemas satíricos do autor, pois vai além do ataque contundente ao seu meio social, manifestando uma gama maior de sentimentos, como nostalgia e angústia, o que lhe confere uma tonalidade particularmente lírica.
Convém desde já, nesta parte introdutória, chamar a atenção para um corte fundamental no poema, com os quartetos de um lado, os tercetos de outro. No primeiro segmento, o eu poético lamenta a modificação e procura apontar os agentes transformadores; o clima é, no geral, de angústia.
No segundo, de tom desabusado, a Bahia é acusada e abominada pelas mudanças ocorridas. Tal dualidade – Bahia antiga/Bahia atual; Bahia nostálgica/Bahia amaldiçoada – percorrerá visceralmente o poema, estruturada por meio de uma série de elementos, como a sonoridade, o vocabulário, as figuras de sintaxe e de semântica, enfim, aqueles recursos da linguagem poética em geral e da barroca em particular, cujo exame procurará avaliar suas funções na organização da obra.
Na paródia, ao substituirmos BAHIA por BRASIL, dá-se uma sinédoque, pois o que ocorria e foi satirizado pelo Boca do Inferno na BAHIA ocorre hoje no país inteiro – Ó TRISTE BRASIL! Assim, também a poesia foi recurso, pela sátira, para mostrar a TRISTE realidade brasileira. E ainda é! Pobre é o Brasil! E a negociata velha continua com vestes outras!








