Terra sem mal (2015), de Waldo Motta, autor/poeta contemporâneo, consagrado pela sua produção desde que lançou Bundo e outros Poemas (Ed. da Unicamp, 1996), apesar de pouco conhecida, nos garante que a poesia de Waldo Motta continua sendo um acontecimento.
Um acontecimento poético, desbocado por vários títulos subversivos lançados não somente sobre o corpo homoeroticamente masculino, mas sobretudo enfatizando sempre uma força na dicção poética, que é obscena, às vezes sacrílega, sempre herética, porém não libertina:
NO CU
DE EXU
A LUZ
Além da ênfase na analidade, a poesia de Waldo Motta retoma sua atenção para a acuidade na percepção e exploração da sonoridade das palavras, como instrumento de articulação de diferentes registros culturais, num fecundo ecletismo que é inequivocamente um marco da sua dicção poética situada no coração da cultura contemporânea.
A partir de um fundamentalismo homoerótico, o poeta diviniza “a estreita via” num rito de adoração capaz de iluminar os destinos individuais e coletivos, como se a redenção da humanidade fosse puerilmente alcançada na prática dessa liturgia em que o ânus é uma espécie de chacra do conhecimento e da autotransformação.
Apesar de as fronteiras entre poesia e doutrina serem tênues, parecendo às vezes que a poesia se sobrepõe à doutrina e que esta é farsa, esteticamente, a excelente poesia de Waldo Motta o coloca como um converso de sua própria doutrina, pois seu peculiar esteticismo se mostra cada vez mais uma doutrina, com uma coerência interna fechada em si mesma, autônoma: “Eu sou a Nossa Senhora do Buraco Negro, (…) Sou a dona de todo o universo”, “minha Terra santa”, “meu cu”, “sou o esposo da virgem”, “sou Deus”, “Sobre esta pedra ergo a minha igreja”.
Esta doutrina visa a recuperar uma experiência originária que eliminasse os antagonismos bem/mal, sagrado/profano, feminino/masculino, virtude/pecado, com o surgimento de um novo mito capaz de superar a origem sexuada ou divina da criação, mesmo que a fantasia escatológica reitere, utilizando-o, o imaginário bíblico de sacrifício, sofrimento e paixão. Tudo isso será explorado nos dois próximos artigos, nas duas próximas semanas, a fim de enriquecer a análise, aprofundando a fantasia escatológica que dá verve aos poemas.







