O negócio do michê 91987) traz a prostituição viril em São Paulo, livro-tese em que o antropólogo Nestor Perlongher intertextualiza um poema anônimo, intitulado Summer 77, publicado em O Corpo, um boletim gay paulista de circulação restrita e aperiódica de 1987.
Este boletim é um manifesto do desespero e de toda uma poética dos garotos de programa à deriva e sem devir, já bem mais redemodernizado nos dias de hoje com a internet e afins. No epílodo estão estes cinco dilacerantes versos:
Logo mais, de madrugada ejacularei
Catarro, voltarei ao ônibus com
Meu amigo, adentraremos em
Silêncio o subúrbio sabendo que
Algo em nós foi destroçado (Perlongher, 1987, p. 41)
No filme de Gus Van Sant, os estilhaços humanos saltam da tela. Tudo terá sido destroçado, configurando Mike o emblema fugaz de todo garoto de programa, de todo aquele que vende a beleza e a juventude de seu corpo, mas que jamais comerciará sua alma, que permanece, apesar de todos os pesos e pesares, incorruptível, se alguma puder ainda restar.
Alegorizado, numa dança melancólica constante de nuvens a esmo, o tempo constitui signo-chave deste filme sobre garotos prostitutos. O tempo tem sempre seu papel extremamente importante nessas narrativas.
Em The Picture of Dorian Gray (O retrato de Dorian Gray), de 1891, Oscar Wilde mostra-nos que esta obra é sua bíblia inconteste do esteticismo finissecular, pois este romance reedita o mito fáustico, na medida em que o protagonista faz um pacto com o retrato dele, pintado pelo artista Basil Hallward, em que o modelo haveria de conservar o esplendor de seus vinte anos, ao passo que a pintura sofreria a corrosão do tempo. Em Dorian Gray isto fica claríssimo:
– Como é triste – murmurou Dorian, com os olhos fixos ainda no seu retrato – Como é triste! Torname-ei velho, horrível, espantoso. Mas este retrato permanecerá sempre jovem. Não será nunca mais velho do que neste dia de junho… Se ocorresse o contrário! Se eu ficasse sempre jovem; e se este retrato envelhecesse! Por isso, daria tudo! Sim, não há nada no mundo que eu não desse! Daria até a minha própria alma! (WILDE, 1986, p. 75)
A partir deste pacto, a mímesis será revertida, na medida em que o quadro pintado de Dorian Gray refletirá a passagem do tempo e, pior ainda, as perversidades, perpetradas pelo protagonista. Marginais, na sociedade vitoriana, Wilde e sua criatura sofreram na pele sua condição: o escritor irlandês foi condenado a dois anos de prisão, com trabalhos forçados; na diegese de seu único romance, Dorian, horrorizado com a figura da tela pintada, apunhala-a, mas será ele quem cairá morto. Cronos é o deus devorador de seus próprios filhos e não poupa ninguém.
Oscar Wilde amava garotos; Dorian Gray levou a vida devassa de garoto de programa. Ainda na clave do tempo, o próprio tempo “é um garoto de programa”, nos diz Bob, disseminando significações suspeitas e insuspeitas.
Garotos de programa! Nada mais atual! Nada mais vendável! Nada tão antigo!








