Diante do alarido dos foliões, trio, axé e ménage à trois formam o slogan da festa pagã que agrada a majestade nas terras do Cabo de São Tomé |
Não faz muito tempo, num reino não tão distante, viviam uma Rainha e seu consorte. Havia ainda príncipes e princesas e mais duas cortesãs, que garantiam, a qualquer preço, seus destaques na corte real e um lugar cativo ao lado de Sua Majestade: uma, à esquerda; outra, à direita.
Suas terras se estendiam em vastas planícies que vão banhar-se nas águas do Cabo de São Tomé, para além, muito além da Baixada. As terras baixas, que se acomodam aos pés dos altiplanos, fazem parte também de seus domínios. Aquém, além rio, tudo era parte do reino.
Sua estância de veraneio situava-se nas terras de São Tomé, também conhecidas e apelidadas pelos súditos, de Faroleta, por causa da presença de um Farol, que em tempos idos, servia para guiar as embarcações de grande porte em alto mar, nas costas litorâneas.
Na estação de tórrido verão, toda a corte se deslocava para aquele balneário aprazível, fresco e também por ser um lugar bem próprio para as tramas, contra os inimigos políticos da Rainha e seu consorte; e conspirações para neutralizar certos súditos inconvenientes.
Instalava-se ali um verdadeiro clima de guerra fria, não só contra os inimigos, mas também, pasmem, contra os aliados, o que não se via na rotina da sede do Reino. Aquele balneário era amaldiçoado. Um laboratório de bruxas reais.
Numa noite amena, tranquila do verão, saiu pelas ruas, mercados, feiras e outros logradouros públicos, um grupo de menestréis, acompanhado de instrumentos musicais, rabeca e alaúde, executando um belíssimo repertório de canções românticas, enlevando a todos por onde passava. O cortejo, organizado, como uma procissão, não dava lugar para improvisos ou surpresas. Bom, pelo menos não deveria haver surpresas. O deus Apolo guiava aquela procissão, entoando cantos sublimes de rara beleza e extremada harmonia.
Mas, inesperadamente (aí surge o fator surpresa), Dionísio, o deus da alegria, da embriaguês, atravessa aquele cortejo, com seus súditos e cúmplices da irreverência, e tudo se transforma num verdadeiro caos.
O deus da sacanagem oferecia uma outra versão da vida. A vida estava explícita em um enorme falo (pênis) que se erguia majestoso, sobre um andor, lembrando a todos a majestosa mística da vida, que nada tem a ver com o poder. Tem a ver com o prazer.
Aquela desordem se dirigia numa algazarra inominável até os domínios do palácio de veraneio de nossa já conhecida personagem, Sua Majestade, a Rainha Fusqueta, alcunha que lhe fora atribuída pelo populacho, numa outra ocasião similar a esta.
O alarido dos foliões despertou toda a realeza adormecida e dormente, mas também muito assustada com aquela invasão, incompatível com o status de realeza.
A horda não se intimidara e pisou em solo palaciano! A rainha despertara, e vestida de uma camisola longa e transparente, não se cuidou em se resguardar da madrugada fria, nem de possíveis ataques orgíacos dos libidinosos integrantes daquela trupe do prazer.
Seu consorte e as duas cortesãs, também descuidados, estavam como que desejando um ataque dos foliões sedentos de amor. Os menestréis faziam o que podiam para agradar a beldade, a Rainha. Estava previsto que, em determinado momento daquela intensa explosão de prazer e alegria, lhe seria entregue uma braçada de rosas rosas.
Mas, antes que acontecesse a oferenda das rosas rosas, para espanto geral, sem que ninguém esperasse, Sua Majestade, com desenvoltura e um certo toque de vulgaridade, dá um show de possessão dionisíaca, com rodopios incansáveis, rotações violentas com a cabeça (nada a continha) e o mexido sensual dos quadris, como as melhores performances de uma autêntica Maria Mulambo.
Foi uma festa inusitada, momento imemorável: ninguém esperava que Sua Majestade pudesse protagonizar, com tanta categoria, uma cena devassa e profana. Alguns querem justificar este “talento”, alegando que, em tempos remotos, ela fora uma atriz Mambembe de escassos recursos técnicos, mas sem nenhum pudor em mostrar um talento ainda imaturo e medíocre.
Liberta da possessão, Sua Majestade se recompusera e exibia sua cara de esfinge milenar, com os cabelos, caídos até a altura dos ombros, que mais pareciam uma peruca confeccionada de imbira da bananeira, motivo pelo qual ela se dava o direito de se colocar na posição de líder inconfundível da causa a favor do lixo reciclável.
Voltando à normalidade, à serenidade, pude me aproximar dela e oferecer-lhe uma braçada de rosas rosas. Foi então que lhe perguntei:
– Foi de vosso gosto, Majestade?
Ela esboçou um sorriso de ponta a ponta dos lábios, em tom de ironia, e disse:
– Não.
Imaginei: Não teria gostado de não ter sido molestada pelos menestréis? Não teria gostado das rosas rosas? Quem sabe ela, como tantas pessoas, não aprecia rosas rosas? Não teria gostado das músicas executadas? O comportamento da turba era invejável, e ela não teria coragem de assumir seu lado irreverente, já esquecido e abandonado no passado?
O que se fala até hoje é que os Trios Elétricos são a forma que Sua Majestade encontrou de, em todo o verão, repetir aquela orgia original, arcaica, de que ela tanto gostava, mas sem poder confessar essa preferência.
E, assim, foi criado o slogan para a Faroleta e para a e Rainha Roseta, Trio, Axé e Ménage à trois.








