Nas bandas de Grussaí, no sertão pós-moderno de São João da Barra-RJ, o encontro com cavalheiros cheios de conversa e prosa, mulheres animadas e “formosas”, faladeiras, fadas do agreste num baile da periferia |
Por Deneval Siqueira de Azevedo Filho |
Fomos eu, um camarada da peste com o apelido de Chico Bioca, um outro com o apelido de “peixe” e um krishna, a um “Risca faca”, bem no interior de São João Barra (Norte Fluminense), nas bandas de Grussaí. Sertão pós-moderno, calidoscópico, que canta, que tem cor, brilho e borogodó. Mulheres animadas e ‘formosas’, faladeiras, fadas do agreste. Cavalheiros cheios de conversa e prosa, muita bebida e cenas hilariantes. “Ô, Zeca, se o boi saiu pra bebê, aonde ele foi?”. “Sei não! Donde?”. “No boiteco, ora”. Luz pisca-pisca, uma decoração lusco-fusco, com nuances de prata e ouro: “No linguajar (forma de falar) do caboclo, Risca faca pode ser um lugar (de diversão, lugarejo, etc) onde as desavenças, querelas, desentendimentos facilmente levavam ou levam a brigas normalmente com uso de faca ou equivalente – facões, canivetes, sabre de mão, etc). No passado era costume todo homem interiorano portar arma branca (nome oficial de armas de lâmina) na cintura e não titubeava usá-la se desafiado.
Hoje em dia,”risca faca” é usado como uma forma de dizer, pejorativamente, um lugar perigoso de ser frequentado, ligando-o a pessoas de baixa cultura, ignorantes, etc. Bailes na periferia ou na roça, boites são referidos como “risca faca”. Em suma “risca faca ” quer dizer “briga”, confusão…
Olha, que lugar animado aquele! Muitas mulheres, dança, muita bebida, homens dançando com mulheres e nós: um intelectual, um peixe, um krishna e Chico Bioca. Não deu outra. Foi uma noite surreal, beirando ao desvairismo. Nunca ri tanto. Nunca vi tanta algazarra. Mas não vi uma briga. Nenhuma violência. Só doideira e farra.
A certa altura, Chico começou a cantar uma música de Gretchen, só que ele não cantava “Conga, Conga, Conga”, cantava “Trepa, trepa, trepa”, beirando mais ao kitsch obsceno que ao erótico. Mas a galera lá delirava e foi um misto de alucinações, uma atrás da outra: krishna subiu numa mesa e fez malabarismos entoando mantras; o peixe nadava freneticamente no chão; eu bebia cerveja com muitas mulheres peculiares e ria muito com todas. Gente da periferia, uma delícia! Foi hilariante. E risca faca!
Depois, Chico tomando todas, começou a contar causos e cantar, o peixe já estava no balcão nadando e tomando umas; krishna em transe, sentia-se o próprio Buda vivo. E eu, cá comigo: um picadeiro brasileiro! Que riqueza de gente que busca se divertir nas bordas da sociedade. Resolvi entrar e subi numa mesa dando graças a não sei quem de tanta felicidade. Fui observado e todos riram. Entramos todos em harmonia e virou uma festa onde se consumiu mais de cem latas de cerveja, muito mais. O peixe tomou 11 doses de Campari. Ficou peixão, quero dizer, doidão, e nadou até não poder mais.
Bioca, já enquadrado, não falava coisa com coisa mais. Contava histórias: “Só tinha um lugar vazio no ônibus, aí mandei minha sobrinha levantar e ir no meu colo, no colo do tio, mas aí, deu pra perceber que a menina já tem peso de uma moça no bumbum, e a calcinha dela fica sumindo dentro do bumbum porque é grande. Tive que ajeitar quatro vezes. Ela só tem onze anos mas parece ter corpo de moça de 15 anos.” Pornográfico, com aquela língua pra fora toda hora.
Seria uma Saturnal? Dali do Sertão? Gente diferente que inventa alegria. A música? Forró, brega, todo tipo. Isso não importa. Importa é o valor dado à diferença. E o respeito à adversidade. Gente de todos os jeitos, alegres, no meio do sertão, no meio do nada. É. Rosa tem razão: “O Sertão é o mundo.” Tive certeza disso ao vivo e em cores. Naquele “Risca Faca” só havia lugar mesmo é para desvario. E não se desvariou? Por demais sô!








