Hoje, a imprensa quase no seu todo, a mídia da situação, age de forma tão semelhante. O redator não quer saber se temos ideais ou não: quer espremer.
Bilac aponta que a atuação dos literatos na imprensa deveria ser regida por alguns critérios. O jornalismo noticiarista é desprezado como uma atividade menor e os redatores, acusados de exploradores.
Mesmo assim, esclarece ao amigo que o registro puro e simples da matéria de nada valia se apenas apresentasse o mundo a sua volta, era preciso ir além: transformá-lo segundo suas ideias.
A imprensa colocava no meio cultural brasileiro as novidades dos grandes centros europeus, reforçando o imaginário modernizador da segunda metade do século XIX. No entanto, esses homens de talento eram afastados do prestígio público.
A classe média pouco ou nada lia, embora a leitura dos jornais fosse sempre um sinal de bom tom. Os jornais tinham pouca circulação, os literatos eram afastados do prestígio público tanto pela pressão da burguesia quanto pelo analfabetismo crônico da população.
Ficavam socialmente isolados nessa sociedade. Embora somente a partir dos anos oitenta a imprensa tenha assumido abertamente o movimento abolicionista, Castro Alves, já em 1866, funda, juntamente com Rui Barbosa e outros colegas do curso de Direito em São Paulo, o jornal de ideias.
A Luz e uma sociedade abolicionista. Esse jornal veiculava vozes contrárias à escravidão, mostrando que, mesmo no quadro do nacionalismo, o coro não se apresentava em um mesmo tom.
Já em 1863, Castro Alves publica seus primeiros versos abolicionistas, “A Canção do Africano”, no número inaugural do jornal acadêmico A Primavera. Mas apenas o jornal lhe parecia insuficiente para disseminar seu imaginário abolicionista e logo ele se utiliza da declamação, em voga na época, em teatros e comícios estudantis, ou seja no púlpito lato sensu, na tribuna, muitas vezes de improviso, quebrando, para os jovens estudantes e seus familiares, o silêncio sobre escravos e escravidão imposto pela marca colonial e difundido no Império.
Em 1865, na abertura dos cursos jurídicos, recita o poema “O Século” na faculdade de Recife. Esse poema, escrito quatro meses após a abolição da escravidão nos Estados Unidos, canta a liberdade dos escravos – um sonho no seu imaginário – e conclama a participação de todos os brasileiros para a luta por Justiça e Liberdade: | cito-o:
“Lutai… Há uma lei sublime
Que diz: à sombra do crime
Há de a vingança murchar
Não ouvis do Norte um grito,
Que bate aos pés do infinito,
Que vai Franklin despertar?
Em busca desta liberdade:
Basta!… Eu sei que a mocidade
É o Moisés no Sinai
Das mãos do Eterno recebe
As taboas da lei! marchai!
Quem cahe na luta com glória,
Tomba nos braços da História,
No coração do Brasil!
Moços do topo dos Andes,
Pyramides vastas, grandes,
Vos contemplam séculos mil!”
O projeto literário romântico brasileiro expressou-se, fundamentalmente, por meio do Indianismo e do Regionalismo.
Como o pensamento romântico centrava seu olhar no passado, na busca das raízes para a compreensão do nacional, alguns literatos se voltaram, fundamentalmente, para o índio, aquele que aqui já vivia antes da chegada dos portugueses, e, pautados numa compreensão da história como busca das origens, adotaram o índio como “genuíno” representante do homem brasileiro, como o fizeram Gonçalves Dias e José de Alencar, dentre muitos outros.
Outros literatos, no entanto, foram buscar esse representante do homem brasileiro para além da cidade, no sertão, espaço que, no XIX, expressava vários significados.
No Império, o sertão significava um empecilho para prosseguir rumo à civilização. Segundo alguns literatos, como Bernardo Guimarães e Visconde de Taunay, dentre outros, o sertão era palco de amores brejeiros e harmonia na natureza.
Esses escritores, ao cantarem o homem do interior do Brasil, que vivia longe da linha litorânea, estavam cumprindo uma missão por eles proposta para a Literatura naquele momento histórico – trazer o “homem do mato”, do interior, e a natureza que os rodeava para fazerem parte da nascente civilização.
Desse modo, contribuiam para a transformação do território em nação. Eles desejavam retramar os fios emaranhados de uma história comum, a partir de dois elementos de continuidade: a Literatura e, obviamente, antes dela, a Língua.
A nação brasileira imaginada pela Literatura tinha, pois, urgência de se contrapor ao projeto colonialista. Aqui, a Literatura exercia a tarefa de sacralizadora do mundo, de homogeneizadora dos imaginários sociais.
Esses escritores e poetas românticos, ao buscarem a identidade do homem “genuinamente” brasileiro, seja no índio ou no sertanejo, olvidavam por completo a presença dos afrodescendentes. Com o olhar fortemente engessado para o outrora, o presente, para esses intelectuais, por si só, não tinha existência própria e nem lhes conferia significados.
A visão deles era míope para um presente constituído por milhares de escravos, pois desconheciam um território negro, onde o trabalho era sinônimo de escravidão.
Essa concepção de história, forjada por políticos e intelectuais do período (e afirmo que de hoje ainda) que buscavam em tradições mais remotas elementos que fortalecessem os laços e traços comuns de toda uma população, precisa ser repensada a partir da questão: como a ideia de nação, de comunidade e/ou de continuidade, se inscreve e se escreve no âmbito da historiografia e da práticas literárias num contexto pós-colonial?
Na busca de encaminhar essa problemática, Anderson no livro Nação e Consciência Nacional aponta a noção de “comunidade imaginada”, que tinha a possibilidade subjetiva, arbitrária quanto se queira, de recriar uma coerência temporal, de “edificar” uma história, assentada numa continuidade presumida, baseando-se na possibilidade de se reinventar, em retrospecto, um passado comum – a comunidade da Pátria, da Língua, da Cultura e, sobretudo do Tempo Nacional em que tudo isso se passa. Essa tentativa de forjar uma comunidade, ainda que imaginada, é difícil de ser compreendida quando se trabalha a história como diferença.
O caso brasileiro e dos demais países do Caribe, colonizados, cujas histórias e culturas foram estilhaçadas pela política colonial, vivenciam uma coexistência de temporalidades: o tempo colonial e o tempo nacional, a cronologia importada e a autóctone.
O tempo vivenciado pelo índio, pelos escravos, em suas lidas cotidianas, e o tempo veloz da civilização/modernização, importado da Europa vivenciado pelo branco. São temporalidades distintas, que coexistiam, naquele período histórico e que devem ser respeitadas em suas especificidades.
Essa divisão torna inviável qualquer pressuposto de continuidade/comunidade nacional, tanto sob o perfil linguístico (escreve-se numa língua imposta de fora) quanto no âmbito da expressão artístico-literária. Como pensar, por exemplo, em um Gregório de Matos, formado na Universidade de Coimbra e que utiliza uma forma linguística e modelos poéticos tributados na tradição ibérica, manifestar consciência de uma identidade nacional?
Como demonstra magistralmente a obra de Lima Barreto, O triste fim de Policarpo Quaresma, a situação mostra-se mais complexa, não é apenas excluir o inautêntico e/ou o importado, para considerar aquilo que, de modo mais uma vez mitificante e mistificador, é tido por “genuinamente” brasileiro. (Continua na próxima semana)








