Estou passando por uma experiência meio pós-traumática: como falar e ensinar coisas sobre o meu país, fora, em um país estrangeiro, tendo a obrigação de ser racional, factual, real e verdadeiro?
Hilda Hilst, em seu magistral Com os meus olhos de cão e outras novelas, um dos seus livros em prosa mais densos, filosóficos e memorialistas, tem me servido como leitura de cabeceira.
Isto porque tenho que falar de pobreza, afinal já são 15 milhões de desempregados no Brasil, e voltamos a ter gente abaixo da linha da pobreza. Voltamos a ser miseráveis, aqueles filhos de degredados e prostitutas, de Iracema com Martim, etc, etc… O ESCAMBO está de volta à superfície, apesar de ele nunca ter afundado de vez.
Cito Hilda:
Perto de algum muro encostar a carcaça e aí vem alguém: tá com fome, moço? Digo que sim e vem o pedaço de pão (sem manteiga) e o prato de comida. Ou não vem? Ou vem aquela frase: parece moço ainda, não pode trabalhar? Estertoro, digo que não, idiota, não vou trabalhar nunca mais, porque senti aquilo e compreendi naquele instante aquilo, ouviu? Chamam a polícia. Será? Só porque me encosto no muro de alguém e estertoro? O da cruz, por muito menos escorraçaram-no. Só pra limpar o suor. Ganhar fôlego. Senti o não sentível, compreendi o não equacionável. (1986, p. 36)
Olhem que palavras:
Como me sinto? Como se colocassem dois olhos sobre a mesa e dissessem a mim, a mim que sou cego: isto é aquilo que vê. Esta é a matéria que vê. Toco os dois olhos em cima da mesa. Lisos, tépidos ainda (arrancaram há pouco), gelatinosos. Mas não vejo o ver. Assim é o que sinto tentando materializar na narrativa a convulsão do meu espírito. (Idem, p.47)
A ficção hilstiana, no momento, dá-me voz, dicciono-a, respiro-a, repito-a, gaguejo-a, miseravelmente: é estado de alma, estado de perda, estado de luta, estado de degredo, asilo e/ou exílio, mas é um país “gelatinoso” esse nosso. É o país da fome. Não finjamos que nada está acontecendo.
Daqui de fora enxergo nossa desgraça pelo degredo. Quando tenho que responder alguma pergunta, fujo para a ficção, seja citando Macabéa, de Clarice Lispector, o Prof. Axelrod, de Hilda, Machado, de Silviano Santiago, entre outros não menos importantes. Tudo isso aí já foi escrito!
Por quê? Onde está a “pátria amada”?
O Brasil e seu staff judiciário, parlamentar e executivo VIVE, ATUALMENTE, como A obscena senhora D, também de Hilst: é o relato contundente de uma inteligência radical que desaprende a conceder ou concede demais.
De forma concisa, o texto encena a mudança de uma mulher de sessenta anos (no Brasil, 518) que se decide a viver num vão de escada, onde peregrina em busca do sentido das coisas escondido por um esquivo Menino-Porco.
Nesse pequeno espaço revive a perplexidade tocante do amante devotado, recentemente falecido, que não pode compreender as suas recusas do bom-senso, do sexo, da vida simples e amena em favor de uma especulação que supõe delirante e vã.
Boa leitura, metonímia do Brasil obsceno de hoje. Mas com tantos ladrões no país e tantas malas de dinheiro, como explicar aos norte-americanos estadunidenses determinadas questões, como, por exemplo, o interesse deles, de seu governo, em nosso petróleo e nossa riqueza? Estaria eu sendo covarde se não falasse? Teria que citar a Venezuela também, toda a latinoamérica!!! Perderia o emprego? Aqui tem o Trump, meu bem! Nem toda semelhança é mera coincidência.
Aí permito-me Jean Genet: O Diário de um ladrão. No que mais consistem as barbáries político-sociais do Brasil, hoje, espalhadas no meio de um bando de gente que misturam os elementos de um livro de memórias e de um romance?
O Brasil pode ser lido como ficção todo o tempo, pois tem todos os elementos para tal: conduz o leitor, de forma intensa, a um mundo de vileza e decadência, em que o protagonista procura salvar-se do mal pelo próprio mal. E o protagonista é….?????? Continua sendo o escambo!!! O escambo obsceno, indubitavelmente!








